Quando finalmente saí do prédio da faculdade, o ar da tarde parecia mais leve.
O sol estava começando a baixar no céu, deixando tudo com aquela luz dourada que sempre tornava o campus mais bonito. As árvores projetavam sombras longas pelo chão e vários estudantes estavam espalhados pela grama, conversando, rindo ou tentando terminar algum trabalho de última hora.
Respirei fundo.
Alguns dias na faculdade pareciam intermináveis, mas aquele tinha sido… agradável.
Ajustei a alça da bolsa no ombro e comecei a caminhar em direção ao estacionamento.
— Elisa!
Virei-me ao ouvir meu nome.
Era Marina correndo na minha direção, segurando o próprio caderno contra o peito.
— Ei — falei, sorrindo.
Ela parou ao meu lado, ligeiramente sem fôlego.
— Você sai da sala tão rápido que parece que está fugindo.
— Eu só estava indo embora.
— Mesma coisa.
Começamos a caminhar juntas.
— Você já viu a mensagem do grupo da turma? — ela perguntou.
— Ainda não.
— O professor vai anunciar um novo projeto amanhã.
Suspirei.
— Mais um?
— Pelo menos esse parece ser em grupo.
— Isso pode ser bom… ou um desastre.
Marina riu.
— Verdade.
Passamos por um grupo de estudantes sentados perto da fonte do campus. O som da água misturava-se às conversas e ao barulho distante de carros passando na rua principal.
— Você vai fazer alguma coisa hoje? — perguntou Marina.
— Provavelmente desenhar um pouco.
— Claro que vai.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que você sempre desenha.
Sorri.
— Porque eu gosto.
— Eu sei. E você é boa nisso.
Chegamos perto do estacionamento.
— Bom, eu vou para aquele lado — disse ela, apontando para a outra direção.
— Nos vemos amanhã.
— Não se esqueça de olhar o grupo da turma.
— Vou olhar.
Nos despedimos com um abraço rápido.
Continuei caminhando até o carro.
Quando entrei, coloquei a bolsa no banco do passageiro e liguei o motor. O rádio começou a tocar uma música suave, e deixei que ela preenchesse o silêncio enquanto dirigia.
O caminho até casa não era longo, mas sempre me ajudava a relaxar depois das aulas.
Quando finalmente cheguei, o portão já estava aberto.
Estacionei e saí do carro.
Assim que entrei em casa, o cheiro de comida vindo da cozinha denunciou que minha mãe já estava preparando o jantar.
— Elisa? — ouvi sua voz.
— Sou eu.
Ela apareceu na porta da cozinha, segurando uma colher de madeira.
— Chegou cedo hoje.
— As aulas terminaram mais rápido.
Ela sorriu.
— Como foi o dia?
— Bom. Cansativo, mas bom.
Passei pela cozinha e dei um beijo no rosto dela.
— Seu pai ainda não chegou — ela comentou.
— Trabalho?
— Sim.
Peguei um copo de água e me encostei na bancada.
— O que tem para o jantar?
— Arroz, frango e salada.
— Perfeito.
Minha mãe sempre cozinhava bem, então qualquer coisa que ela fizesse já era motivo de felicidade.
— Vou subir um pouco — falei.
— Tudo bem. Quando seu pai chegar eu te chamo.
Subi as escadas e caminhei pelo corredor até o meu quarto.
Assim que entrei, deixei a bolsa sobre a cadeira e me joguei na cama por alguns segundos.
O teto branco parecia estranhamente interessante quando se estava cansada.
Depois de alguns minutos, levantei-me.
Fui até o espelho.
Minha maquiagem ainda estava ali, embora um pouco mais suave depois de um dia inteiro.
O delineado continuava destacando meus olhos, e o brilho leve nos lábios ainda dava um toque elegante.
Soltei o cabelo e passei os dedos pelos fios.
Depois troquei de roupa, vestindo algo mais confortável: um short de algodão e uma camiseta larga.
Sentei-me na cadeira da minha mesa de desenho.
O caderno ainda estava aberto na última página em que eu havia trabalhado.
Observei o desenho por alguns segundos.
Peguei um lápis.
Comecei a acrescentar novas linhas, ajustando algumas sombras.
Desenhar sempre foi uma forma de relaxar para mim.
Era como se o mundo desacelerasse enquanto eu estava concentrada no papel.
Algum tempo depois ouvi a porta da frente abrir lá embaixo.
Meu pai.
— Elisa chegou? — ouvi a voz dele.
— Está no quarto! — respondeu minha mãe.
Sorri.
Levantei-me e desci as escadas.
Meu pai estava tirando o casaco.
— Oi, filha.
— Oi, pai.
Ele me abraçou rapidamente.
— Como foi a faculdade?
— Normal. Muitos trabalhos.
— Isso é bom.
— Depende do ponto de vista.
Ele riu.
— Sempre gostei de ver você ocupada com o que gosta.
Minha mãe apareceu na cozinha.
— O jantar está pronto.
Sentamos os três à mesa.
As conversas durante o jantar eram sempre simples, mas agradáveis.
Falamos sobre trabalho, faculdade e até algumas histórias antigas que meu pai gostava de contar.
Depois que terminamos de comer, ajudei minha mãe a recolher os pratos.
— Obrigada — disse ela.
— Não custa nada ajudar.
Quando tudo estava organizado, voltei para o meu quarto.
Peguei o celular.
A notificação do grupo da turma ainda estava ali.
Abri a conversa.
Várias mensagens tinham sido enviadas.
Entre elas, uma dizia:
“Amanhã o professor vai formar os grupos do novo projeto.”
Franzi ligeiramente a testa.
Trabalhos em grupo podiam ser interessantes… ou extremamente caóticos.
Deixei o celular sobre a mesa.
Fechei o caderno de desenhos e apaguei a luz do quarto.
Deitei-me na cama, puxando o cobertor.
O silêncio da casa era tranquilo.
Enquanto o cansaço do dia finalmente tomava conta, meus pensamentos começaram a ficar cada vez mais distantes.
E, pouco a pouco, o sono chegou.
***
O despertador ainda não tinha tocado, mas acordei assim mesmo.
Abri os olhos lentamente, olhando para o teto do meu quarto enquanto tentava entender por que tinha despertado tão cedo. A casa ainda estava silenciosa, o que significava que meus pais provavelmente ainda estavam dormindo.
Virei-me para o lado e olhei para o relógio na mesa de cabeceira.
Ainda faltava quase uma hora para o despertador tocar.
Suspirei.
Quando percebia que não ia conseguir voltar a dormir, geralmente era melhor simplesmente levantar.
Afastei o cobertor e me sentei na cama, esticando os braços para espantar o resto do sono.
O ar da manhã estava fresco, entrando pela fresta da janela.
Levantei-me e caminhei até ela, abrindo um pouco mais as cortinas.
O céu ainda estava em tons suaves de azul e rosa, anunciando o começo de um novo dia.
Fiquei ali alguns segundos apenas observando.
Sempre gostei dessas primeiras horas da manhã. Havia algo calmo nelas, como se o mundo ainda não tivesse começado a correr.
Depois fui até o banheiro.
Lavei o rosto com água fria, o que ajudou a me despertar completamente. Quando voltei ao quarto, comecei a escolher a roupa para a faculdade.
Depois de alguns minutos analisando o guarda-roupa, escolhi algo simples, mas elegante.
Uma calça jeans de cintura alta, um pouco mais clara que a do dia anterior, e uma blusa branca de tecido leve, com mangas delicadas.
Peguei também uma jaqueta bege, caso o clima esfriasse mais tarde.
Coloquei a roupa sobre a cama e sentei-me diante do espelho da penteadeira.
Comecei a arrumar o cabelo.
Escovei-o com calma, deixando-o solto e levemente ondulado sobre os ombros.
Depois passei para a maquiagem.
Nada exagerado, mas o suficiente para realçar meus traços.
Um pouco de base para uniformizar a pele, blush suave nas maçãs do rosto, máscara de cílios e um delineado fino que destacava meus olhos. Finalizei com um batom rosado discreto.
Observei o resultado no espelho.
Simples.
Mas bonito.
Levantei-me e terminei de me vestir.
Quando desci as escadas, o cheiro de café já estava espalhado pela casa.
Minha mãe estava na cozinha.
— Bom dia — disse ela ao me ver entrar.
— Bom dia.
Peguei uma caneca e me servi de café.
— Você acordou cedo hoje — comentou ela.
— Acho que dormi demais ontem.
Ela riu.
— Duvido.
Sentei-me à mesa enquanto ela terminava de preparar o café da manhã.
Logo meu pai apareceu também, ainda ajustando o relógio no pulso.
— Bom dia — disse ele.
— Bom dia — respondi.
Sentamos os três à mesa.
Enquanto comíamos, conversamos sobre coisas simples do dia.
Meu pai comentou sobre algumas reuniões que teria no trabalho e minha mãe falava sobre as tarefas que precisava resolver.
— E você? — perguntou ela. — O que tem hoje na faculdade?
— Acredito que o professor vai anunciar um novo projeto.
Meu pai ergueu as sobrancelhas.
— Outro?
— Sim.
— Bom sinal. Significa que você está aprendendo bastante.
— Ou que vou dormir menos.
Ele riu.
Terminamos o café da manhã alguns minutos depois.
Subi rapidamente para pegar minha bolsa e conferir se não estava esquecendo nada.
Caderno.
Estojo.
Celular.
Tudo certo.
Desci novamente e peguei as chaves do carro.
— Tenha um bom dia — disse minha mãe.
— Você também.
Meu pai levantou a mão em um pequeno aceno.
Saí de casa e caminhei até o carro.
O ar da manhã estava fresco, e a rua ainda estava relativamente tranquila.
Dirigir naquele horário era muito mais fácil.
Coloquei uma música baixa no rádio enquanto seguia em direção à faculdade.
O trânsito começou a aumentar conforme me aproximava do campus, mas nada muito fora do normal.
Quando finalmente estacionei, observei o movimento ao redor.
Estudantes chegando, alguns ainda sonolentos, outros conversando animadamente.
Peguei minha bolsa e saí do carro.
Enquanto caminhava em direção ao prédio principal, percebi Marina sentada em um dos bancos próximos à entrada.
Ela estava olhando o celular, provavelmente lendo as mensagens do grupo da turma.
— Bom dia — falei ao me aproximar.
Ela levantou o olhar.
— Finalmente! Achei que você ia se atrasar hoje.
— Eu nunca me atraso.
— Sempre há uma primeira vez.
Sentei-me ao lado dela.
— Já viu as mensagens do grupo?
— Algumas.
— Todo mundo está tentando adivinhar como vão ser os grupos.
Suspirei levemente.
— Isso pode ser interessante.
— Ou um caos.
— Também.
Marina guardou o celular.
— Bom… vamos descobrir logo.
Levantei-me.
— Vamos.
Entramos no prédio juntas, acompanhando o fluxo de estudantes pelos corredores.
O dia na faculdade estava apenas começando.