Episódio 8:Entre o riso e a dívida.

1431 Palavras
Antonela Ribas A luz da manhã entrou pela cortina fina, invadindo o quarto pequeno com um calor suave. Pela primeira vez em semanas, não havia cheiro de hospital, nem barulho de máquinas, nem médicos entrando sem bater. Só eu e ele. Meu filho em casa. Preparei o café da manhã como se fosse um ritual sagrado. O arroz com leite que ele sempre pedia, o pão cortado em fatias pequenas para não se cansar mastigando, o suco de laranja espremido na hora. Coisas simples. Mas, para mim, aquilo era luxo. — Mãe, tá bom demais. — Lucas sorriu, a boca manchada de suco, os olhos brilhando como se nunca tivesse ficado preso entre fios e tubos. Sorri de volta, tentando prender o choro. — É só o começo, campeão. Logo você vai estar correndo de novo, chutando bola, me dando dor de cabeça. Ele riu. E esse som, o riso dele, foi o melhor remédio que eu poderia receber. Depois do café, fomos até o quarto. Tirei do armário o uniforme da escola, ainda dobrado e com cheiro de guardado. Alisei o tecido devagar, como se arrumar aquela camisa fosse preparar o futuro dele. Lucas ficou sentado na cama, observando. — Vou voltar logo para a escola, né? Assenti, engolindo a emoção. — Vai sim. Vai estudar, brincar, viver. — beijei a testa dele. — Nada vai te parar. Ele sorriu e deitou, abraçando o travesseiro. Eu fiquei alguns segundos ali, ajeitando a gola, dobrando a barra da calça, como se cada detalhe fosse um pedaço da vida que eu estava tentando remendar. Mas enquanto meus dedos corriam pelo tecido, a lembrança veio como uma lâmina. "Quando eu voltar, vamos conversar sobre o que você me deve, querida." As palavras de Heitor Veiga cortaram meu peito como se eu estivesse de volta ao hospital, no escuro, sozinha. Eu não devia pensar nisso agora. Não diante do meu filho. Mas não conseguia evitar. A dívida não estava escrita em nenhum papel, mas estava marcada na minha pele, como uma tatuagem invisível. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me ancorar no presente. Lucas. O riso dele. A vida que eu salvei. Era por ele. Sempre por ele. Mas a cada gesto normal — arrumar um uniforme, preparar um café, ajeitar os travesseiros — eu sabia: a normalidade era frágil. Porque em algum lugar, a quilômetros de distância, Heitor Veiga já me esperava. E quando voltasse, minha vida nunca mais seria só minha. **** Uma semana. Sete dias tentando acreditar que a vida podia voltar a ser normal. Sete dias me enganando com cafés da manhã, sorrisos forçados e o riso do meu filho como anestesia. Mas a normalidade é frágil. Sempre foi. E a minha quebrou no instante em que atravessei a porta da empresa. O salto ecoou pelo piso de mármore, cada passo empurrando meu corpo para dentro da jaula que eu mesma aceitei. O coração batia tão alto que parecia gritar para todos ouvirem: ela está com medo. Minha mesa me esperava, intacta. Mas antes que eu pudesse respirar, vi. A porta de vidro do escritório estava aberta. E ele estava lá. Heitor Veiga. Impecável. Imponente. Intocável. Um homem que parecia sempre maior que o espaço que ocupava. Os olhos frios me encontraram. E me prenderam. — Antonela. — a voz grave cortou o ar, sem pressa, mas com a certeza de quem nunca admite fuga. As pernas tremeram, mas eu obedeci. Sempre obedeço. Entrei. Antes mesmo que a porta se fechasse, as palavras saíram correndo da minha boca, trêmulas, desordenadas: — Me desculpe por ter ficado mais de uma semana sem vir trabalhar. Eu... eu precisava cuidar do meu filho na primeira semana depois da cirurgia. Ele se recostou na poltrona de couro como se fosse um trono, entrelaçando os dedos, o olhar firme demais para eu sustentar. — Tudo bem. — disse, e a falsa benevolência soou como deboche. — Também estive em Nova York a semana toda. Soltei o ar que nem percebi que segurava. Mas a trégua durou o tempo de um piscar de olhos. — O que deseja, senhor Veiga? — perguntei, tentando disfarçar a rachadura na minha voz. Ele não piscou. Não desviou. Não ofereceu misericórdia. — Meu pagamento. — As palavras vieram secas, afiadas. — Já te dei tempo demais para me pagar. E eu quero hoje à noite. Meu corpo congelou. As mãos escorregaram de suor. O coração disparou como se quisesse escapar pela boca. O chão sob meus pés sumiu. — Senhor Veiga... eu... — tentei juntar coragem, mas minha voz morreu no caminho. — Não pode ser de outro jeito? Mais prazo? Alguma condição? — Não. — cortou, firme como uma sentença já escrita. — Você recebeu o dinheiro. Agora é minha vez de receber o que me deve. Engoli seco, sentindo minhas pernas fraquejarem. — Então... eu não tenho escolha, não é? Ele se inclinou para frente, e a sombra dele caiu inteira sobre mim. — Nenhuma. E naquele instante, compreendi: o contrato invisível que me prendia a ele nunca precisou de papel. Já estava assinado no dia em que aceitei o dinheiro para salvar meu filho. Meu corpo tremia. Meu coração gritava. Mas minha boca não conseguiu dizer nada além de silêncio. **** Saí da sala dele tentando me agarrar ao trabalho como quem se agarra a uma boia no mar revolto. Mas cada relatório que abria, cada e-mail que lia, cada tecla que batia, tudo desaparecia diante das duas palavras que martelavam dentro de mim como um eco infinito: "Hoje à noite." Olhei o relógio inúmeras vezes, como se pudesse atrasar os ponteiros apenas com a força da minha vontade. Mas o tempo não obedece a ninguém. Quando o horário de ir embora finalmente chegou, eu praticamente fugi. Andei rápido pelos corredores, como se o prédio inteiro fosse feito de correntes que tentavam me segurar. Em casa, fui direto para o quarto do meu filho. Josy estava sentada na beira da cama, vigiando o sono dele com a mesma devoção que eu. Lucas respirava tranquilo, o rosto sereno, os dedos ainda fechados em punho como se estivesse sonhando com alguma aventura infantil. — Obrigada, amiga. — forcei um sorriso, mesmo que minha voz tremesse. — Preciso te pedir mais uma coisa. Josy me olhou com estranhamento. — Claro, Nela. O que foi? — Preciso que fique com ele essa noite. — menti, as palavras arranhando minha garganta. — Tenho trabalho atrasado... muita coisa pra compensar pela semana que fiquei fora. Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa, mas assentiu sem discutir. — Tudo bem. Vai tranquila, eu cuido dele. A palavra tranquila foi a pior ironia que eu poderia ouvir. O silêncio da minha casa nunca foi tão barulhento. Fui até o banheiro, fechei a porta com cuidado e encostei as costas no azulejo gelado. Meu corpo deslizou até o chão, como se não suportasse mais me manter de pé. O ar parecia grosso, impossível de respirar. Levantei devagar e encarei o espelho. Não vi uma mulher. Vi uma promessa quebrada. Um contrato assinado em desespero. O rosto pálido, os olhos fundos, os lábios trêmulos. Eu não estava pronta. Nunca estaria. Lavei o rosto, mas a água não apagava nada. Nem a vergonha. Nem o medo. "Como vou suportar?" A pergunta repetia-se a cada batida do meu coração. Negociei comigo mesma. Tentei acreditar que seria só uma vez. Que eu conseguiria separar corpo e alma. Que eu poderia fingir. Mas a verdade caiu como um soco: eu só me entreguei ao meu marido. Ele foi o único homem da minha vida. Mesmo depois de morto, eu quis que continuasse sendo. Mas hoje à noite... isso ia mudar. Ele já tinha meu corpo antes mesmo de me tocar. Fechei os olhos e pensei em Lucas. Pensei no sorriso cansado dele no hospital, na mão pequena agarrando a minha, em cada lágrima que derramei pedindo para que ele vivesse. E entendi: não era escolha. Nunca foi. Saí do banheiro, apaguei as luzes, e o corredor pareceu mais longo do que nunca. Olhei meu quarto, mas ele já não era abrigo, era apenas prisão. Abri o armário, peguei uma lingerie preta e um vestido preto solto, discreto, quase comportado. Maquiagem leve para disfarçar o cansaço. Cabelo solto. Respirei fundo. Eu parecia pronta. Mas era mentira. Nada em mim estava pronto. Desci as escadas, me despedi da Josy com um sorriso falso e deixei a chave com ela. Meu coração gritava que eu estava caminhando para o abismo. Mas minhas pernas continuaram em frente. E então fui. Para o apartamento de Heitor Veiga.
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