Episódio 9:O predador e a presa

1531 Palavras
Heitor Veiga Minha casa parecia mais silenciosa do que nunca. O apartamento amplo, acostumado a reuniões, whisky e corpos descartáveis, agora estava preparado para algo diferente. Eu mesmo organizei a mesa. Dois pratos, duas taças, uma garrafa de vinho aberta sobre o aparador. Pedi o melhor jantar, mas dispus cada detalhe como se fosse um ritual. Ridículo. Eu não fazia isso. Nunca fiz. Mas fiz hoje. Enquanto verificava se os talheres estavam no lugar, percebi o peso de cada gesto. Não era sobre o vinho, nem sobre a mesa posta. Era sobre ela. Sobre Antonela Ribas atravessando minha porta. Fui até o quarto, tirei a camisa branca que usei durante o dia e deixei cair no chão. Entrei no banheiro e deixei a água quente escorrer sobre mim. Me lavei devagar, como se pudesse arrancar das costas a tensão que carregava desde a ligação no meu escritório. No espelho embaçado, vi um estranho. O cabelo molhado caindo sobre a testa, o olhar inquieto. Respirei fundo, passei a toalha e vesti o suéter preto, a calça azul-escura. Deixei o cabelo bagunçado de propósito. Mesmo assim, não gostei do que vi. Havia algo errado comigo. Um detalhe insuportável: parecia ansiedade. Eu, Heitor Veiga, ansioso como um garoto antes do primeiro toque. Como se nunca tivesse tido uma mulher. Como se nunca tivesse tomado um corpo para mim. Não aceitava isso. Não podia aceitar. Mas o nó no estômago não cedia. Quando a campainha tocou, foi como um disparo dentro do meu peito. Fui até a porta, cada passo carregando um peso que eu não queria admitir. Abri. E lá estava ela. Antonela. Linda, de um jeito que parecia c***l. O vestido preto soltinho caía sobre o corpo dela como uma provocação e um escudo ao mesmo tempo. O cabelo solto deslizava sobre os ombros. A maquiagem era leve, mas os olhos... os olhos gritavam medo. Ficamos nos encarando por segundos que pareceram horas. Ela parada, tentando parecer inteira. Eu parado, tentando não mostrar que, pela primeira vez em muito tempo, não sabia como me mover. E foi nesse instante, diante dela, que percebi a verdade que não suportava: com todas as mulheres que já tive, com todos os corpos que já usei, eu nunca esperei ninguém como esperei Antonela. Antonela não se moveu de imediato. Ficou parada na porta como se o chão da minha casa fosse um precipício. Os olhos dela percorriam o ambiente atrás de mim, mas evitavam os meus. Eu a observei em silêncio, porque cada palavra que pensei em dizer parecia pequena demais diante do que realmente queria. — Entre. — Minha voz saiu grave, mas mais baixa do que eu pretendia. Ela obedeceu. Um passo hesitante, depois outro, como se a cada movimento uma parte dela quisesse fugir. Fechei a porta devagar atrás dela, e o som da fechadura pareceu selar algo que não tinha volta. A mesa estava posta. O vinho aberto, as velas acesas, os pratos impecáveis. E naquele instante eu percebi como tudo parecia ridículo. Como se ela fosse se distrair com talheres brilhando quando a verdade é que sabia exatamente o motivo de estar aqui. Ela parou diante da mesa, sem tocar em nada, sem sentar. Apenas olhou. E quando finalmente ergueu o rosto para mim, percebi a sombra de lágrima no canto dos olhos. — Então é isso? — ela sussurrou, a voz quase inaudível. — Essa é a forma de cobrar? Senti meu maxilar travar. Não respondi de imediato. Caminhei até a garrafa de vinho, servi as taças com a calma ensaiada de quem controla tudo, mas minhas mãos... estavam mais firmes do que eu esperava, porque tremer seria admitir. — Eu cumpro o que prometo, Antonela. — disse, entregando-lhe a taça sem encostar em seus dedos. — Sempre cumpro. Ela não pegou. Apenas ficou olhando para o vinho como se fosse veneno. O silêncio entre nós era tão alto que parecia gritar. Eu podia forçar. Podia exigir. Era isso que ela esperava de mim, talvez até o que merecia depois de aceitar meu dinheiro. Mas havia algo errado. Algo em mim que não aceitava a pressa. — Sente-se. — pedi, e mesmo eu não entendi se foi uma ordem ou um pedido. Ela se sentou lentamente, os ombros rígidos, as mãos fechadas sobre o colo. Eu me acomodei à frente, mas não toquei em nada. Ficamos apenas nos encarando, dois inimigos em trincheiras diferentes, esperando o primeiro disparo. Eu queria o corpo dela. Mas o que queimava de verdade era algo que nunca admiti querer: a entrega. E pela primeira vez, temi que ela nunca me desse isso. **** A comida esfriava diante de nós, intocada. A mesa, que eu havia preparado como se fosse uma armadilha perfeita, agora parecia um palco onde nenhum de nós sabia atuar. Peguei os talheres, cortei a carne devagar, mastiguei como se aquilo tivesse sabor. Não tinha. Só metal. Só silêncio. Ela não tocava no prato. Os dedos dela tremiam sobre o colo, apertando o tecido do vestido preto. Os olhos fixos em algum ponto além de mim, como se não estivesse realmente aqui. — Coma, Antonela. — minha voz soou mais dura do que eu pretendia. — Precisa se alimentar. Ela ergueu o olhar. Havia lágrimas presas, mas também uma chama que me queimava. — Não vim aqui para jantar. A frase caiu entre nós como uma confissão. Apertei os talheres até os nós dos dedos ficarem brancos. Respirei fundo, tentando não deixar escapar a fúria, nem o desespero. — Então por que veio? Ela riu baixo, sem humor, a voz quebrada: — Porque não tenho escolha. As palavras atravessaram meu peito mais fundo do que eu esperava. Tentei ignorar. Tentei vestir minha máscara de sempre. — Tem sim. Todos têm. — Não quando a vida do meu filho está em jogo. — A resposta dela veio rápida, afiada, e vi a lágrima finalmente escorrer. Silêncio. Olhei para ela, e por um instante não vi apenas a mulher que me devia. Vi a mãe. A mulher que ajoelharia no inferno para salvar uma criança. E algo dentro de mim... quebrou. Bati a taça contra a mesa, o vinho escorrendo como sangue no branco da toalha. — Odeio quando me olha assim. Como se eu fosse o d***o. Ela respirou fundo, firme, mesmo com a voz tremendo: — E o que você é, Heitor? Porque até agora não consigo encontrar outra definição. A frase ficou presa no ar, c***l e verdadeira. E pela primeira vez, não tive resposta imediata. O controle escorria por entre meus dedos, e Antonela, mesmo quebrada, mesmo apavorada, tinha o poder de me desarmar sem perceber. E foi nesse instante que entendi: eu a queria não só no meu corpo. Eu a queria no meu abismo. O silêncio entre nós era uma guerra sem tiros. Eu a encarava, ela desviava. E mesmo assim, era ela quem vencia. Quis me levantar, arrastá-la contra mim, quebrar aquela distância. Mas algo me segurou. Talvez fosse a lágrima seca no canto do olho dela. Talvez fosse o nó na minha garganta que eu não admitia sentir. Passei a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais o que já estava desalinhado, e soltei um riso curto, sem humor. — Sabe o que eu odeio mais do que ser chamado de d***o, Antonela? Ela me olhou, surpresa pela mudança de tom. — O quê? — Odeio quando penso que você pode estar certa. Ela franziu o cenho, confusa. Eu me levantei, fui até a janela ampla da sala, a cidade pulsando abaixo de nós, luzes e trânsito como um tabuleiro em movimento. Apoiei as mãos no vidro frio, o reflexo distorcido me encarando de volta. — Eu aprendi cedo que o mundo não tem piedade. — minha voz saiu baixa, quase um sussurro, mas cada palavra era uma lâmina cortando o ar. — Vi meu pai ser engolido pela própria fraqueza. Vi minha mãe implorar de joelhos por amor que nunca recebeu. Cresci jurando que nunca ia mendigar por nada. Nem afeto. Nem respeito. Nem vida. Engoli seco. Não a olhei. Se olhasse, não diria. — Amor é uma armadilha. Desejo é poder. E eu escolhi o poder. — virei o rosto para ela, e minha expressão se endureceu novamente. — Porque é assim que se vence. Antonela piscou rápido, como se tentasse absorver. E por um instante, não havia ódio nos olhos dela. Havia algo mais... uma fagulha de compreensão que me irritava mais do que qualquer acusação. — E mesmo assim... — a voz dela tremeu, mas saiu firme — você parece tão vazio, Heitor. O ar desapareceu da sala. O coração bateu forte, violento, como se quisesse explodir meu peito. Aproximei-me dela devagar, cada passo carregado de raiva e algo que eu não sabia nomear. Inclinei-me sobre a mesa, perto demais, minha sombra cobrindo o corpo dela. — Talvez. — murmurei, a voz rouca. — Mas não vai ser você quem vai me preencher, Antonela. Vai ser eu quem vai esvaziar você. Ela não respondeu. Apenas engoliu em seco, os olhos marejados, o corpo inteiro tremendo. E naquele instante, percebi que eu não estava apenas prestes a tomá-la. Eu estava prestes a me perder nela.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR