Episódio 4: A proposta

1330 Palavras
Heitor Veiga Ela ficou em pé diante da minha mesa, nervosa, com a respiração falha e os olhos marejados. Eu ainda digeria cada palavra. Um filho. Antonela Ribas tinha um filho. Não sei por quê, mas a revelação me pegou de surpresa. Três anos trabalhando comigo, três anos de sorrisos educados e de recusa silenciosa às minhas provocações, e só agora eu descubro que a santa da minha secretária escondia um segredo desse tamanho. - Um filho... - deixei escapar, saboreando cada sílaba. - E o que ele tem? Ela respirou fundo, como se cada palavra fosse uma punhalada. - Uma doença grave no coração. Ele precisa de uma cirurgia urgente. Por um instante, apenas observei o desespero dela. O tremor dos lábios, a maneira como as mãos se enroscavam uma na outra, como se buscassem apoio. Ela estava quebrada. Vulnerável. Exatamente como eu sempre soube que um dia estaria. Cruzei os braços, recostei-me na cadeira e sorri de canto. - Está bem. Eu empresto o dinheiro. Os olhos dela se arregalaram, cheios de choque e alívio. - Obrigada... obrigada, senhor Veiga. - disse com a voz embargada, como se tivesse acabado de receber um milagre. Ah, doce engano. Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos na mesa. - Mas, claro, com uma condição. O brilho de esperança se apagou do rosto dela em segundos. - O quê? - Uma noite comigo. - falei baixo, com a voz grave, firme, obscena. - Uma noite na minha cama. O dinheiro será seu, e você não precisa me pagar um único centavo. A reação dela foi deliciosa. Os olhos incendiaram de fúria, o rosto corou de indignação. - Nunca. Nem que você fosse o último homem da terra eu me deitaria com você! Eu não sou igual às mulheres com quem você sai. Eu não sou qualquer uma! Meu sorriso se abriu, lento, debochado. - É só uma noite, Antonela. Uma noite... e o dinheiro é seu. Eu garanto que seu marido não vai saber. Ela empalideceu, a voz saindo quase num sussurro. - Eu... não tenho marido. Arqueei uma sobrancelha. - Usa aliança, senhorita Ribas. Os olhos dela se encheram de dor. - Ele morreu. O silêncio pesou por um instante. Eu a encarei, absorvendo aquela confissão como quem descobre uma fraqueza rara. Então curvei um sorriso ainda maior. - Então não vai ter problema. - Eu só tive um único homem na vida. - ela disparou, como se precisasse me ferir com aquelas palavras. - O meu marido. Isso... sim, isso me surpreendeu. Uma mulher daquele corpo, daquele sorriso... intocada por qualquer outro além do falecido. Meu sangue ferveu. - Virgem de mundo... - murmurei, provocador. - Interessante. - Mesmo ele estando morto, não terei mais nenhum homem. - os olhos dela ardiam de ódio e convicção. - Eu o amo. Sempre vou amar. Não quero mais o seu dinheiro. Cruzei as mãos sobre a mesa, sem perder o sorriso cínico. - Ok. Mas se você veio até mim pedir duzentos mil reais... é porque não tem mais ninguém. Ninguém para lhe dar essa quantia. Então, senhorita Ribas... é pega ou larga. Uma noite. Só uma noite, onde você receberá muito prazer, e eu garanto que não vai se arrepender. Falei devagar, saboreando cada palavra. O silêncio que seguiu foi delicioso. Ela me encarava com ódio, os olhos marejados, o peito subindo e descendo com a respiração descompassada. Por alguns minutos, só havia isso: a tensão entre nós, o som do relógio na parede, e a certeza de que eu já havia vencido. Até que, finalmente, ela quebrou o silêncio. - Sim. Eu aceito. Meu sorriso só aumentou. Lento. Perigoso. - Ótimo. O dinheiro estará na sua conta em duas horas. Ela não disse nada. Apenas se virou e saiu da sala, com passos duros, a raiva e a dor estampadas em cada gesto. Assim que a porta se fechou atrás dela, peguei o telefone. - É Heitor Veiga. Quero uma transferência imediata de duzentos mil reais para a conta de Antonela Ribas. Do outro lado, silêncio de segundos, seguido de uma resposta firme: - Sim, senhor. Será feito agora. Sorri. Eu não ouvia "não" de ninguém. Nunca. Fechei a ligação e voltei aos relatórios que esperavam sobre a mesa. Assinei contratos, respondi e-mails, revisei projeções. Tudo com a calma de quem sabe que já venceu antes mesmo da guerra começar. As horas se arrastaram. O ponteiro do relógio parecia zombar de mim. Quando ergui os olhos outra vez, já eram cinco da tarde. Levantei-me da cadeira, ajeitei o paletó e saí da sala. Ela estava lá. No mesmo posto, postura impecável, mas o olhar perdido. Parei diante dela, apoiando uma das mãos no balcão. - Olhe a sua conta. Antonela franziu o cenho, puxou o celular e digitou com dedos trêmulos. Quando os olhos dela encontraram a tela, a expressão denunciou: o dinheiro estava lá. - Duzentos mil, como pediu. - falei baixo, com um sorriso lento. - Agora só resta cumprir a sua parte. Ela ergueu o olhar para mim, furiosa. - Eu tenho palavra. Mesmo não querendo, eu irei cumprir. Inclinei o corpo para frente, reduzindo a distância. - Quando? - Depois que meu filho fizer a cirurgia. Depois que tudo sair bem. - respondeu firme, mas a voz falhou no final. Meu sorriso aumentou, carregado de cinismo. - Ficarei aguardando ansioso, senhorita Ribas. Ela desviou os olhos, cuspindo a resposta como veneno: - Já eu... nem tanto. Ri baixo, provocador. - Vai mudar de ideia, Antonela. - sussurrei, perto demais. - Todas mudam. Dei um último olhar, deixando-a queimar no próprio ódio, e segui para o elevador. Cada passo era a confirmação da minha vitória. Porque, no fim das contas, todas cedem. Minha cobertura estava silenciosa demais quando voltei. O bar me chamou, como sempre. Servi um copo generoso de uísque, o líquido âmbar queimando minha garganta enquanto observava a cidade lá embaixo. Mas nem o álcool tirava Antonela da minha mente. A forma como ela me encarou com ódio. O jeito que sua voz falhou quando prometeu cumprir o acordo. Aquela mulher me desafiava de um jeito que nenhuma outra jamais ousou. Bati o copo vazio no balcão e fui para o banho. A água quente escorreu pelos meus ombros, e fechei os olhos, deixando a imagem dela nua, gemendo sob mim, tomar conta. O desejo já me corroía, selvagem. Mas eu precisava extravasar. Precisava de algo imediato. Troquei de roupa, vesti uma camisa preta justa, calça escura e saí. O motorista me levou até uma das minhas boates favoritas, um antro de luxo e decadência onde tudo estava sempre ao meu alcance. As luzes pulsavam, corpos se esfregavam, e o cheiro de álcool e sexo estava no ar. Não demorou para uma loira linda, corpo escultural, cair no meu colo. Ela sabia quem eu era. Todas sabiam. E todas queriam provar o gosto do pecado. - Heitor... - ela gemeu no meu ouvido, já se oferecendo como uma presa ansiosa. Eu a agarrei pelo braço, levei direto para o banheiro. Encostei-a contra a porta, arranquei a calcinha dela com uma só puxada e a penetrei ali mesmo, rápido, bruto, sem cerimônia. Ela gemia, arranhava minhas costas, mordia meu ombro. Mas minha mente... minha mente não estava nela. Era Antonela que eu via. Antonela que eu imaginava sem roupa, as curvas que escondia sob aqueles vestidos discretos. Antonela gemendo o meu nome, resistindo primeiro, depois se entregando. Antonela com gosto de proibição, de desafio, de vitória. Gozei forte dentro da loira, um grunhido rouco escapando da minha garganta. Ela se despediu com um sorriso satisfeito, acreditando que tinha ganhado alguma coisa. Mas não. Não era dela o poder naquela noite. Era de Antonela Ribas. Saí da boate com o corpo saciado, mas a mente ainda faminta. Voltei para casa, servi outro uísque e me joguei na cama. E, no escuro, sorri sozinho. Porque o que eu queria de verdade ainda estava por vir. E seria dela.
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