Antonela Ribas
O hospital tinha aquele cheiro amargo de antisséptico e dor que não limpava nada por dentro.
Eu caminhava de um lado para o outro no corredor, as mãos tremendo, o peito apertado como se o ar não entrasse direito. Lá dentro, meu filho dormia com um rosto pálido demais para os seus dez anos. Meu menino, minha vida.
— Amiga, você precisa respirar... — Josy pousou as mãos nos meus ombros, tentando me ancorar.
Balancei a cabeça, negando, enquanto lágrimas insistiam em escapar.
— Eu não sei o que fazer, Josy. — Minha voz saiu quebrada, quase um sussurro. — Vou vender a casa, o carro... qualquer coisa. Mas preciso de tempo, entende? Só... só um pouco de tempo.
— Antonela... — ela tentou falar, mas eu já estava indo atrás do médico.
— Doutor! — segurei o jaleco dele no corredor, sem me importar com as pessoas ao redor. — O que o meu filho realmente tem? Por favor, me diga a verdade, toda a verdade.
O médico respirou fundo, como se carregasse o peso do mundo nos ombros.
— Seu filho tem uma cardiopatia congênita que se agravou. A cirurgia é urgente, precisa ser feita imediatamente. Não temos como esperar. Cada hora que passa aumenta os riscos.
Meu coração parou.
— Eu não tenho mais tempo?
— Infelizmente, não. — O olhar dele era sincero, quase piedoso. — Sinto muito.
Meus joelhos quase cederam ali mesmo. Apoiei-me na parede, tentando não desabar. O chão parecia girar, e a única coisa que eu conseguia pensar era que estava perdendo meu filho.
Voltei para Josy com o corpo mole, a alma em frangalhos. Ela me abraçou com força, como se pudesse segurar todos os pedaços que eu sentia se despedaçar por dentro.
— Eu vou vender tudo, Josy. — murmurei, com a voz embargada. — A casa, o carro... não importa se ficarmos sem nada. Eu só não posso perder o Lucas.
Ela me segurou pelo rosto, obrigando-me a encarar seus olhos marejados.
— Amiga... mesmo que venda tudo, não vai ter o dinheiro a tempo. Você sabe disso.
Fechei os olhos, sentindo o desespero me engolir.
Ela respirou fundo, hesitou, e então falou as palavras que eu nunca quis ouvir:
— Por que você não fala com o seu chefe?
— O Heitor? — minha garganta se fechou só de pronunciar o nome dele. — Não. Nunca. Ele seria a última pessoa no mundo a quem eu pediria ajuda.
— Talvez ele seja justamente o último, amiga. — Josy apertou minhas mãos, séria. — Porque você não tem mais ninguém a quem recorrer.
Fiquei em silêncio.
As palavras dela doíam, mas doíam porque eram verdadeiras. Eu não tinha mais para onde correr. Nenhuma porta aberta. Nenhuma mão estendida.
Deitei minha cabeça no ombro dela e chorei, até não ter mais lágrimas. Até a exaustão me calar.
Na manhã seguinte, o espelho refletiu uma mulher que já não se reconhecia. O batom escondia a palidez, a maquiagem tentava apagar as marcas do choro. Mas por dentro... por dentro eu estava quebrada.
Arrumei-me com mais cuidado do que nunca, vesti uma roupa sóbria, prendi os cabelos e respirei fundo. Cada detalhe parecia um ritual para a guerra.
Deixei o Lucas com Josy, que prometeu não desgrudar dele, e fui para o trabalho com o coração esmagado pela culpa.
Assim que o elevador abriu no andar principal, minhas pernas quase falharam. Ele já estava lá.
Heitor Veiga. Impecável como sempre, terno escuro, postura arrogante, aquele olhar que parecia despir quem ousasse cruzar seu caminho.
Fiquei atrás da mesa, tentando parecer profissional, mas minhas mãos tremiam por baixo do balcão. Quando ele passou e cumprimentou, respondi educadamente, como sempre. Mas hoje não era um dia qualquer.
Hoje, eu precisava encarar o d***o.
Hoje, eu teria que vender minha alma para salvar a vida do meu filho.
Respirei fundo, reuni o pouco de coragem que restava e caminhei até a porta da sala dele.
Levantei a mão para bater.
Meu coração parecia querer explodir no peito.
E, antes de meus nós dos dedos tocarem a madeira, uma única frase ecoou na minha mente:
"É pega ou larga, Antonela. É a vida do seu filho em jogo.
Fiquei parada diante daquela porta por mais tempo do que deveria. Meu coração martelava tão alto que eu tinha certeza de que os funcionários ao redor podiam ouvir. Minhas mãos estavam frias, os dedos trêmulos, e eu não sabia se queria bater ou sair correndo.
Mas a imagem do Lucas veio à minha mente.
Meu menino, deitado no hospital, pálido, com tubos e máquinas ao redor.
Respirei fundo, fechei os olhos e finalmente bati na porta.
— Entre. — a voz grave dele atravessou a madeira como uma ordem.
Gelei inteira, mas empurrei a porta.
A sala de Heitor era ampla, luxuosa e fria, como ele. Vidros do chão ao teto mostravam a cidade, mas ele estava sentado na cadeira de couro, imponente, como se fosse o dono do mundo.
— Você tem um minuto, senhor Veiga. — minha voz saiu baixa, quase engasgada.
Ele ergueu o olhar lentamente, avaliando-me como se tentasse decifrar cada pedaço do meu corpo, cada intenção escondida.
— Sim. — respondeu, seco, encostando-se de volta na cadeira.
Dei dois passos para dentro, mas minhas pernas pareciam pesar toneladas. Abri a boca... e nada saiu. O silêncio tomou conta. O som do relógio na parede ecoava alto demais, como se cada segundo fosse um martelo na minha cabeça.
Eu tentava encontrar as palavras. Tentava formular uma frase que não soasse como súplica, mas o nó na garganta me impedia.
Minhas mãos se apertaram uma contra a outra, e senti a pele suada.
Os minutos se arrastaram como horas.
— Estou esperando, senhorita Ribas. — a voz dele, baixa e firme, cortou o ar como uma lâmina.
Engoli em seco, sentindo meu rosto queimar.
— Eu... — comecei, mas a palavra se perdeu.
Me forcei a encará-lo. Os olhos dele estavam fixos em mim, intensos, impacientes. Aquilo me paralisava ainda mais.
— Eu preciso... — gaguejei, a voz saindo fraca, quase inaudível. — É sobre o meu filho...
Senti as lágrimas ameaçando subir, e desviei o olhar, tentando me recompor.
— Ele está doente. Muito doente. — completei, com a voz trêmula. — E eu... eu não sei mais a quem recorrer.
As palavras finalmente começaram a sair, mas cada uma doía como uma ferida aberta.
Minha dignidade estava se esfarelando ali, diante do homem que eu mais evitava.
Senti meu coração acelerar até doer. Eu nunca pensei que estaria aqui, diante dele, com a alma quebrada e a vergonha queimando minha pele. Mas não havia saída. Lucas precisava de mim. E eu faria qualquer coisa por ele.
Respirei fundo, juntei as mãos como se isso fosse me dar coragem, e finalmente falei:
— Eu preciso de dinheiro, senhor Veiga. — a frase saiu rápida, quase atropelada.
Ele arqueou uma sobrancelha, um meio sorriso brincando em seus lábios, como se aquela confissão fosse música para os ouvidos dele. Mas não disse nada. Apenas esperou.
Apertei os olhos por um segundo, forçando as lágrimas a não cair.
— Meu filho precisa de uma cirurgia urgente... — continuei, a voz falhando. — O valor é de duzentos mil reais.
A palavra duzentos mil ecoou no ar como um pecado. Minha garganta arranhava, e o silêncio dele só aumentava meu desespero.
— Eu sei que é muito, mas eu vou pagar. — insisti, com pressa, antes que ele me cortasse. — Pode descontar do meu salário, do jeito que achar melhor. Um pouco a cada mês, a cada semana... eu não me importo. Eu só... só preciso desse dinheiro agora.
Minha voz embargou, e finalmente uma lágrima escapou. Abaixei a cabeça, tentando esconder.
— Eu prometo que não vai se arrepender. Eu vou devolver cada centavo.
As palavras ardiam na minha boca. Era como engolir vidro. A humilhação de me reduzir a uma mendiga diante do meu próprio chefe me deixava nauseada.
Levantei os olhos devagar e o encontrei me observando.
Calmo. Intenso. Quase... divertido.
E naquele olhar eu soube.
Eu soube que tinha acabado de me colocar nas mãos do homem errado.