Episódio 1:O Pecado em Forma de Homem

1194 Palavras
Heitor Veiga Acordei com unhas arranhando meu peito. Mais uma das tantas que dividem minha cama por uma noite. Ela se estica preguiçosa, geme manhosa, desliza a mão pelo meu abdômen e sussurra no meu ouvido: — Quero mais, Heitor... Reviro os olhos. Já ouvi isso vezes demais. A mulher não entende que, quando a madrugada acaba, o encanto também acaba. — Vai tomar banho, gata. — Minha voz sai grave, firme, final. — Sua parte já foi feita. Ela me olha como se eu tivesse cuspido um veneno, mas se levanta mesmo assim. Não é a primeira que sai da minha cama achando que vai ter repeteco. E, com certeza, não será a última. Levanto, passo a mão pelos cabelos molhados de suor e vou direto para o banheiro. O espelho me devolve meu reflexo: barba por fazer, cabelo preto caindo na testa, olhos claros que a maioria das mulheres juram que são capazes de hipnotizar. Talvez sejam. Não me interessa. Entro no chuveiro, deixo a água quente cair sobre mim. Lavo o cheiro de perfume barato e suor que grudou na pele. Me visto com meu melhor uniforme: terno impecável, gravata ajustada, relógio de luxo. O disfarce perfeito de um homem que controla tudo e todos. Na cozinha, tomo um café rápido. Preparo outro copo, de uísque. Sim, de manhã. Preciso do gosto amargo para despertar. Logo estou no meu carro, atravessando as ruas do Rio com a pressa habitual. Mais um dia de trabalho, mais um dia jogando meu jogo. Quando o elevador abre no andar mais alto da empresa, o cenário é o mesmo de sempre. Funcionários ajeitados, cheios de reverência. Mas meu olhar vai direto para ela. Antonela Ribas. Está no balcão da recepção, como todos os dias, postura impecável, sorriso discreto e educado. — Bom dia. — digo, deixando a voz grave o suficiente para fazer qualquer uma tremer. — Bom dia, senhor Veiga. — ela responde, calma, sem hesitar, sem se deixar abalar. Gentil. Correta. Intocável. Sigo para minha sala, fecho a porta e me jogo na cadeira de couro. Viro devagar e encaro a cidade pela janela panorâmica. Mas minha mente não está nos prédios, nem nos números da empresa. Está nela. Antonela é um tormento. Três anos. Três anos que ela trabalha aqui. Três anos em que solto indiretas, convites camuflados, olhares que fariam qualquer outra abrir as pernas em segundos. Mas não ela. Ela finge que eu não existo. Me trata apenas com profissionalismo. Como se eu fosse só mais um chefe qualquer. E isso me corrói. Não suporto ser ignorado. Todas as mulheres se jogam em mim. Todas. Elas imploram por uma noite na minha cama, gemem meu nome antes mesmo de eu encostar nelas. Mas Antonela? Minha doce secretária prefere bancar a santa. A puritana. E é justamente isso que me tira do sério. Porque quanto mais ela resiste... mais eu quero ser o homem que vai fazê-la cair. Mais eu quero ser o pecado que vai arrancar cada gemido dela. E não importa o que aconteça, sei que um dia ela vai ceder. Todas cedem. A manhã passou no ritmo de sempre: relatórios, ligações, gente querendo minha assinatura, gente implorando pela minha aprovação. Todos, sem exceção, dependem de mim. E eu gosto dessa sensação. Gosto de ver o poder refletido no rosto dos outros. Mas não é isso que realmente me distrai. É o som da porta abrindo devagar. Antonela entra. Ela nunca entra sem bater. Nunca. Sempre correta, sempre seguindo regras como se a vida dela dependesse disso. E, ainda assim, ali estava: no batente da minha sala, os dedos inquietos no crachá, os olhos levemente vermelhos. — Senhor Veiga... — a voz dela vacila, quase imperceptível, mas eu percebo. Percebo tudo nela. — Preciso sair por um momento. É... é algo urgente. Arqueei a sobrancelha, intrigado. Ela nunca pede nada. Nunca. É a funcionária que carrego como exemplo para esfregar na cara dos outros. Sempre pontual, sempre profissional, sempre blindada contra qualquer tentativa minha de quebrar sua muralha. — Vá. — respondi, curto. Os olhos dela se ergueram por um segundo, como se esperasse encontrar alguma objeção da minha parte. Mas não. Fiz um gesto com a mão, dispensando-a. Antonela assentiu, virou-se e saiu apressada, como se o chão estivesse queimando sob seus pés. Fiquei ali, encarando a porta fechada. Estranho. Muito estranho. Mas não insisti. Não sou homem de correr atrás de segredos — eu os compro, se precisar. Peguei o telefone, mandei a próxima reunião entrar. O dia seguiu entre contratos multimilionários, advogados me atualizando sobre fusões, investidores pedindo relatórios. Tudo girando ao meu redor, como sempre. Enquanto falava sobre cláusulas e projeções, no entanto, um pedaço da minha mente ainda voltava para ela. Para Antonela Ribas. Para aquele olhar perturbado que carregava quando entrou. Sei reconhecer desespero quando vejo. E, cedo ou tarde, ela virá até mim. E quando vier... Eu vou cobrar. A noite caiu e, como sempre, voltei para casa sozinho. Minha cobertura no alto de Ipanema era o reflexo perfeito de quem eu sou: vidro, mármore, silêncio e luxo. Um espaço que exala poder e solidão. Larguei a gravata em cima do sofá e fui até o bar. Servi um copo de uísque. Gosto dele puro, queimando a garganta, lembrando que estou vivo. Me joguei na poltrona, observando a vista da cidade iluminada, enquanto cada gole deixava meu corpo mais pesado e minha mente mais livre. Mais livre para ela. Antonela. A imagem dela voltou sem convite: postura impecável, olhos cansados, o jeito como entrou na minha sala mais cedo. Não era qualquer pedido. Era um pedido desesperado. E eu sei reconhecer isso. Sorri sozinho. Ela ainda resiste. Já faz três anos. Três malditos anos me tratando como se eu fosse invisível. Mas cedo ou tarde... cedo ou tarde, todos os muros caem. Levantei, deixei o copo vazio no balcão e fui para o banho. A água quente escorrendo pelo meu corpo parecia lavar o peso do dia, mas também incendiava minha pele. Porque quanto mais o calor me envolvia, mais fácil era imaginar. Fechei os olhos e vi Antonela no chuveiro comigo. O cabelo grudado no rosto, os lábios entreabertos, os olhos submissos, como eu sempre quis que fossem. Minha mão apertando sua cintura, sua boca gemendo meu nome. Saí dali e******o. Vesti apenas uma calça de moletom, o corpo ainda quente do banho, e me joguei na cama. Peguei o laptop, revisei alguns contratos, mandei e-mails. Trabalho sempre foi meu vício. Mas, naquela noite, nem números, nem negócios me seguravam. Fechei o computador e apoiei a cabeça no travesseiro. Fiquei ali, no escuro, fantasiando. Uma única noite. Só isso que eu precisava. Uma noite com Antonela Ribas. Para marcar a pele dela, para apagar aquele ar de santa que tanto me provoca. Uma noite em que ela aprenderia o que é se render. Porque todas as mulheres se dobram para mim. Todas. Antonela não será diferente. O celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem curta. Do meu melhor amigo, sinalizando que o "plano" estava pronto, caso eu quisesse. Sorri no escuro, com o sangue fervendo. O jogo estava apenas começando.
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