Heitor Veiga
O som da porcelana trincada ecoava mais alto do que deveria.
A mesa ainda estava posta, mas agora parecia um campo de guerra — talheres caídos, taças tombadas, restos de vinho no mármore, misturados ao cheiro dela, ao meu suor, ao sexo que ainda pairava no ar.
Eu me afastei, o corpo latejando, respiração descompassada. Saí de dentro dela devagar, sentindo o arrepio do pós-g**o escorrer pela espinha. O tipo de arrepio que sempre foi poder para mim. Domínio. Vitória.
Mas, quando meus olhos encontraram Antonela largada sobre a mesa, as pernas ainda abertas, o rosto úmido de lágrimas e os punhos cerrados, algo dentro de mim não comemorou.
Algo sangrou.
Eu deveria estar satisfeito.
Saboreando a imagem dela quebrada, porque era isso que eu queria desde o início. A dívida, o preço, a entrega arrancada.
Mas não consegui..
O peito doía como se eu tivesse perdido, não vencido.
Minha mão chegou a roçar sua coxa, não em posse — mas em algo mais suave, mais íntimo do que eu suportava admitir. Retirei rápido, quase enojado de mim mesmo. Isso não era eu. Não podia ser.
Ela virou o rosto, os olhos fechados como se quisesse desaparecer dali. E foi nessa fração de segundo que eu soube: algo nela estava atravessando a muralha que construí. E isso me apavorava mais do que qualquer dívida, mais do que qualquer inferno.
Ela respirava com dificuldade, ainda largada sobre a mesa, o corpo tremendo entre raiva e vergonha. Quando finalmente abriu os olhos, me encarou como se cuspisse veneno.
— A minha dívida está paga. — A voz dela saiu rasgada, mas firme, como se fosse uma sentença final.
As palavras bateram mais forte do que qualquer tapa que ela pudesse me dar. Não porque eram falsas, mas porque, no fundo, parte de mim acreditava nelas. Parte de mim queria acreditar.
Ajustei o cinto, fechei a calça, recuei dois passos. A mesa ainda tremia com a memória do que fizemos. Ela também. Eu também.
Eu deveria rir, deveria dizer que dívida nenhuma se paga com um corpo. Mas a garganta travou.
Então, virei as costas e saí da sala de jantar, como um covarde que foge do que sente.
E, enquanto o corredor me engolia, a voz dela ainda ecoava, colando na pele feito suor frio:
"A minha dívida está paga."
Mas o que queimava dentro de mim dizia o contrário.
Nada estava pago.
E aquilo... mudava tudo.
Assim que entrei no escritório, bati a porta com força demais. O som ecoou como um tiro. Joguei o corpo na poltrona, cotovelos nos joelhos, garrafa de uísque na mão. O primeiro gole queimou a garganta, mas não apagou nada. Não tinha amargor suficiente. Tudo o que senti foi o gosto dela.
Doce. Quente. Grudado em mim como maldição.
O silêncio do escritório só era quebrado pelo tilintar do gelo dentro do copo. Eu virei mais uma dose de uísque, como se o álcool pudesse apagar a imagem dela deitada sobre a mesa. Mas quanto mais eu bebia, mais o gosto doce dela se misturava ao amargo da bebida.
Fechei os olhos. O corpo dela ainda colado ao meu, a pele quente, o som da respiração. Que diabos tinha de diferente naquele sexo? Não era só prazer. Foi uma p***a de enxurrada de sentimentos que eu nunca permiti sentir com ninguém. Eu já fodi dezenas de mulheres sem lembrar do nome. Nenhuma deixou marca. Nenhuma abriu f***a.
E então a frase dela ecoou: "Minha dívida está paga."
Paga? Inferno, não. Eu não queria que estivesse. Eu queria repetir. Eu queria mais. E isso era estranho demais, porque eu nunca repetia f**a. Nunca. Mas com Antonela era diferente. Ela mexia em algo que eu não queria nomear.
Lembrei do que ela disse quando veio pedir o dinheiro: "Eu só tive um único homem na vida, e foi meu marido."
Um sorriso torto me rasgou, venenoso.
— Agora teve dois... — sussurrei contra o copo. — E eu vou ser o último. Depois de mim, ninguém mais toca em você.
Mas o pensamento me fez socar a mesa.
— Que caralhos eu tô pensando? — murmurei, balançando a cabeça. — Foco, Heitor. Você não é assim.
Outro gole. O gelo rachou contra o vidro, como se zombasse de mim. Engoli fundo, querendo que a bebida queimasse dela pra fora de mim. Mas não queimava. Só grudava mais.
— Que merda eu tô fazendo? — murmurei, os dedos afundando no cabelo. — Foco, Heitor. Você não repete f**a.
Mas o corpo inteiro ardia desmentindo minha boca.
E, no fundo, eu sabia: se Antonela era uma dívida... então eu jamais ia querer que ela fosse paga.
****
Assim que voltei para a sala de jantar, a respiração presa no peito, quase esperando encontrá-la ali — sentada no meu sofá, me esperando, pronta para ouvir eu dizer qualquer merda — só havia vazio.
O silêncio me recebeu como um soco.
Mas a visão foi o que me destruiu: a mesa ainda bagunçada, um copo tombado, talheres caídos, a cadeira afastada.
O cenário da nossa f**a.
Meu corpo reagiu de imediato. Maldição. Consegui vê-la de novo: estendida ali, o cabelo espalhado, a boca aberta num gemido que ainda queimava na minha cabeça. A raiva veio na mesma medida que o desejo, um nó sufocante no meio do peito. Bati o punho contra a beira da mesa, furioso comigo mesmo por imaginar, por querer outra vez, por não conseguir tirar o gosto dela da minha boca.
Subi para o quarto com passos pesados, arranquei a roupa e deixei a água fria despencar sobre minha pele, como se pudesse me purgar. Mas nem o gelo conseguiu apagar o fogo.
Me joguei na cama, o peito arfando, a mente presa no mesmo maldito ciclo.
— Não vai ter outra vez... — sussurrei para o teto escuro. — Como ela disse... a dívida tá paga.
Fechei os olhos, mas a mentira ardeu como ferro quente.
Essa dívida nunca vai ser paga. Nem em mil mesas. Nem em mil noites.
Me virei de um lado para o outro, o sono longe, zombando de mim.
Quando olhei o relógio, marcava cinco da manhã. Levantei.
Fui direto para a academia. Precisava treinar até apagar qualquer lembrança dela.
Mal encostei nos pesos e já estava socando ferro como um condenado. Repetição atrás de repetição, até o corpo gritar de exausto. Mas a mente... a mente seguia dela. Sempre dela.
Voltei encharcado de suor, tomei um banho, vesti o terno como uma armadura e desci para o café.
Mas cada gole tinha gosto de maldição.