Incomodo

510 Palavras
O resto da manhã passou arrastado. As palavras do meu pai ainda ecoavam na minha mente, misturadas com a lembrança do comportamento distante de Khalil. Eu tentava focar nos documentos, mas cada vez que ouvia passos no corredor, meu olhar se levantava automaticamente. Quando ele finalmente chegou, foi quase imperceptível. Sem alarde. Sem chamar atenção. Mas o ambiente mudou. Ele cumprimentou algumas pessoas, trocou poucas palavras com meu pai e seguiu para a sala de reuniões. Eu fingi continuar trabalhando, mas senti aquela presença silenciosa como se fosse algo físico. Alguns minutos depois, a recepcionista apareceu. — Doutor Álvaro, a senhora já chegou. Meu pai se levantou. — Pode encaminhar. Eu não prestei atenção no início. Continuei revisando uma planilha, tentando ignorar a curiosidade. Até ouvir a porta abrir e uma voz feminina entrar no ambiente. — Prazer em revê-lo. Levantei o olhar sem perceber. Ela era elegante. Alta. Cabelos castanhos presos de forma impecável. Vestia um conjunto claro, sofisticado, com postura segura. Não parecia nervosa, nem tímida. Parecia… confortável. Ela cumprimentou meu pai e então virou-se para Khalil. — Khalil. O nome dele saiu com naturalidade. Ele se levantou. — Silvia. O tom foi calmo. Formal. Mas havia familiaridade. Meu estômago apertou levemente. Ela se aproximou e apertou a mão dele, demorando um segundo a mais do que o necessário. Nada exagerado. Nada explícito. Mas eu percebi. Eles se sentaram. Meu pai começou a explicar algo sobre a empresa, mas eu não conseguia me concentrar completamente. Meu olhar voltava, involuntário, para a forma como eles interagiam. Ela falava com segurança. Ele escutava. Ela sorria. Ele respondia com calma. Nada fora do lugar. Nada íntimo. Mas algo dentro de mim reagia. Estranho. Desconfortável. Eu não gostava da sensação. — Maitê. Levantei o olhar. Meu pai me chamava. — Traga aquela pasta, por favor. Levantei e fui até a mesa. Ao me aproximar, percebi o perfume dela, leve e sofisticado. Entreguei a pasta e me afastei. — Esta é minha filha — disse meu pai. Ela me olhou. — Prazer, Maitê. — Prazer. O sorriso dela era educado, mas seguro. — Já está trabalhando com vocês? — Estou auxiliando no processo. Ela assentiu. — Ótimo. É um projeto importante. Voltei para minha mesa, tentando ignorar a sensação incômoda. Continuei digitando, mas minha atenção estava dividida. Ela e Khalil conversavam sobre detalhes técnicos. Ele se inclinava levemente para ouvir, respondia com objetividade, e eu me pegava observando cada gesto. Ridículo. Eu não tinha motivo nenhum. Mas ainda assim… Algo apertava no peito. Depois de alguns minutos, eles se levantaram para ir até a sala de reuniões. Passaram perto da minha mesa, e por um segundo, Khalil me olhou. Breve. Calmo. Distante. E continuou. A porta se fechou. Eu respirei fundo, percebendo que estava mais tensa do que deveria. Passei a mão pelo cabelo, tentando me concentrar. Não fazia sentido. Ela era apenas uma parceira de negócios. Nada mais. Mas, mesmo assim… Eu me senti incomodada. E, pela primeira vez, reconheci a sensação com clareza: Era ciúme. Leve. Silencioso. Mas impossível de ignorar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR