Viagem

457 Palavras
A reunião com Silvia durou mais do que eu esperava. Quando a porta da sala finalmente se abriu, já era quase o fim da tarde. Eu estava mergulhada em uma planilha, mas levantei o olhar automaticamente quando eles saíram. Ela ainda conversava com Khalil, com a mesma postura segura. Meu pai os acompanhava, falando sobre prazos e ajustes. Eu tentei não prestar atenção, mas era impossível ignorar. Poucos minutos depois, Silvia se despediu. — Qualquer atualização, me avisem — disse ela. — Claro — respondeu meu pai. Ela apertou a mão dele, depois a de Khalil, e saiu com passos firmes. O escritório voltou ao ritmo normal, mas o clima ainda parecia diferente. Meu pai voltou para a sala e me chamou. — Maitê, venha aqui. Levantei e entrei. Khalil ainda estava lá. Meu coração acelerou levemente. — Precisamos resolver uma questão da empresa pessoalmente — disse meu pai. — Algumas assinaturas e ajustes que não podem esperar. — Onde? — perguntei. — Em São Paulo. A informação veio direta. — Quando? — Amanhã cedo. Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar. — Eu vou? — Sim. Olhei para ele. — Você vai com o Khalil. O silêncio caiu. Pesado. Meu pai continuou, como se fosse algo completamente natural. — Eu tenho outra reunião importante aqui. Ele já vai, então vocês resolvem juntos. Senti o coração bater mais forte. — Só nós dois? — Sim. É rápido. Vocês vão, resolvem e voltam no mesmo dia. Olhei rapidamente para Khalil. Ele permanecia calmo. Impecável. Como se aquilo fosse apenas parte do trabalho. — Tudo bem? — perguntou meu pai. Assenti. — Tudo. Mas por dentro… Nada estava completamente tranquilo. — O voo é cedo — continuou ele. — Sete da manhã. Khalil passa para te buscar. Meu coração deu um salto. — Ele não precisa— — É mais prático — interrompeu meu pai. Khalil finalmente falou. — Posso passar. A voz veio calma. Sem hesitação. Assenti. — Certo. Meu pai parecia satisfeito. — Então está resolvido. Saí da sala tentando manter a expressão neutra, mas sentindo uma mistura estranha de expectativa e tensão. Voltei para minha mesa e organizei os papéis, mas minha mente já estava em outro lugar. Viagem. Sozinha. Com ele. Respirei fundo. Não era nada demais. Era trabalho. Apenas trabalho. Mas meu corpo não parecia acreditar nisso. No fim do expediente, arrumei minhas coisas. Khalil se aproximou da minha mesa. — Te pego às seis — disse ele. — Certo. — Leve apenas o necessário. Voltamos no mesmo dia. — Tudo bem. Houve um pequeno silêncio. — Boa noite, Maitê. — Boa noite. Ele saiu. E eu fiquei ali, sentindo que, pela primeira vez desde que tudo começou… Algo estava prestes a mudar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR