O dia seguiu normalmente.
Ou pelo menos era o que deveria ter sido.
Os documentos continuavam chegando, os prazos se acumulavam e meu pai parecia satisfeito com o meu desempenho. Eu me mantinha ocupada, mergulhada em tarefas que exigiam atenção, organização, responsabilidade.
Mas, mesmo assim…
Algo me distraía.
Não era barulho.
Não era cansaço.
Era ausência.
Khalil não voltou ao escritório naquele dia.
Nem no seguinte.
E aquilo não deveria importar.
Ele tinha compromissos, viagens, reuniões externas. Era normal. Mas, de alguma forma, a rotina parecia diferente sem a presença dele. Mais vazia. Mais mecânica.
Eu me peguei olhando para a porta algumas vezes.
Ridículo.
Balancei a cabeça e voltei aos papéis.
No meio da tarde, fui até a copa pegar um café. Duas funcionárias conversavam perto da máquina, e eu parei sem querer ao ouvir o nome dele.
— Ele passou aqui mais cedo? — perguntou uma.
— Não. Acho que só amanhã — respondeu a outra. — Quando ele aparece, o clima muda.
— Verdade. Ele é tão… reservado.
— E bonito — disse a primeira, rindo baixo.
Fingi não ouvir.
Mas ouvi.
— Dizem que ele nunca se envolve com ninguém — continuou a segunda.
— Sério?
— Sim. Pelo menos nunca viram. Ele é focado demais.
Peguei o café e saí antes que percebessem minha presença.
Por algum motivo, aquilo ficou na minha cabeça.
Nunca se envolve.
Voltei para minha mesa e tentei trabalhar, mas a frase insistia em aparecer. Eu não sabia exatamente por que me importava. Não deveria me importar.
Talvez fosse curiosidade.
Ou talvez…
Não.
Afastei o pensamento.
O restante do dia passou mais lento. Quando finalmente saí do escritório, senti o cansaço mais forte. Não físico, mas mental. Como se eu tivesse passado o dia inteiro tentando ignorar algo.
Em casa, subi direto para o quarto. Larguei a bolsa sobre a cama e me joguei ao lado dela, encarando o teto.
O silêncio era confortável.
Mas também fazia pensar demais.
Fechei os olhos por um momento e, involuntariamente, lembrei da cena na academia. O movimento dos músculos, a respiração controlada, o calor do ambiente. Meu corpo reagiu de novo, leve, rápido.
Abri os olhos.
— Para com isso, Maitê — murmurei.
Era absurdo.
Eu não podia ficar assim.
Levantei e fui até a janela. A noite caía lentamente, e as luzes da cidade começavam a aparecer. Cruzei os braços, tentando organizar os pensamentos.
Talvez eu estivesse confundindo tudo.
Talvez fosse apenas admiração.
Talvez fosse o contraste entre ele e tudo o que eu já tinha conhecido.
Ou talvez fosse simplesmente…
Desejo.
A palavra surgiu e me fez engolir em seco.
Não.
Eu não queria pensar nisso.
Respirei fundo e me afastei da janela. Peguei o celular, pensando em me distrair, mas nenhuma mensagem parecia interessante. Nada chamava minha atenção.
Era estranho.
Eu estava acostumada a ter sempre algo acontecendo, alguém falando, algum plano. Agora, parecia que tudo estava mais silencioso.
Mais interno.
E, de alguma forma, isso me deixava inquieta.
Deitei novamente, fechando os olhos.
A imagem dele voltou.
Sem esforço.
Sem convite.
E, pela primeira vez, percebi com clareza:
Eu não sentia falta apenas da presença dele.
Sentia falta da forma como ele me fazia prestar atenção.
Da forma como ele falava.
Da calma.
Da segurança.
Abri os olhos de novo, frustrada.
Aquilo estava indo longe demais.
Mas, mesmo assim…
Eu sabia.
A ausência dele tinha criado um espaço.
E esse espaço só tornava tudo mais intenso.