Na manhã seguinte, eu acordei com a sensação estranha de que algo tinha mudado.
Não era algo concreto.
Não tinha acontecido nada de fato.
Mas havia um peso leve no ar, como se meu corpo estivesse tentando me avisar de alguma coisa antes mesmo da minha mente entender.
Talvez fosse a lembrança da noite anterior.
Talvez fosse a forma como eu tinha observado Khalil.
Ou talvez fosse apenas expectativa.
Desci para o café tentando afastar aqueles pensamentos. Meu pai já estava sentado à mesa, lendo algumas mensagens no celular.
— Bom dia — murmurei.
— Bom dia — respondeu ele, sem levantar os olhos. — Hoje você vai direto comigo. Temos reunião às dez.
Assenti.
— Com quem?
— Khalil.
Meu coração reagiu.
Pequeno.
Rápido.
Involuntário.
Tomei o café em silêncio, tentando não demonstrar nada. A conversa foi breve, e logo saímos. Durante o trajeto, fiquei olhando pela janela, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse a expectativa estranha que crescia dentro de mim.
Quando chegamos ao escritório, o movimento já estava intenso. Pessoas entrando e saindo, vozes baixas, telefones tocando. Tudo normal.
Tudo igual.
Mas, por dentro, eu não me sentia igual.
Entramos no escritório do meu pai, e ele pediu para eu organizar alguns documentos enquanto aguardávamos. Fiz isso com atenção, tentando me manter ocupada.
Até a batida na porta.
Meu corpo reagiu antes.
— Entre — disse meu pai.
Khalil entrou.
Como sempre.
Elegante.
Seguro.
Mas algo estava diferente.
Não era visível para qualquer pessoa.
Mas eu percebi.
Ele cumprimentou meu pai primeiro.
— Álvaro.
— Khalil.
Depois, o olhar dele veio até mim.
Breve.
Educado.
Distante.
— Maitê.
— Bom dia.
E só.
Nada além disso.
Nenhuma pausa.
Nenhuma atenção prolongada.
Nada.
Ele se sentou e começou a falar diretamente sobre a empresa, prazos, ajustes necessários. Eu acompanhei, anotando tudo, mas uma parte de mim estava… observando.
Algo tinha mudado.
Ele não me olhava da mesma forma.
Não havia aquela atenção silenciosa.
Aquela presença.
Era apenas profissional.
Correto.
Frio.
E, inesperadamente…
Aquilo me incomodou.
Continuei escrevendo, mas minha concentração já não era a mesma. Minha mente voltava para a noite anterior, para o momento na academia, para o jeito como ele tinha me observado.
Talvez eu tivesse imaginado.
Talvez não tivesse significado nada.
Talvez…
— Maitê.
Levantei o olhar.
Meu pai falava comigo.
— Você anotou o prazo da autorização?
— Sim.
— Mostre para o Khalil.
Me levantei e me aproximei da mesa, entregando a folha. Ele pegou, analisou rapidamente.
— Está correto.
A resposta foi curta.
Sem nada além disso.
Sem olhar prolongado.
Sem comentário.
Dei um passo para trás.
E foi nesse instante que percebi.
Ele estava mantendo distância.
Deliberadamente.
Como se tivesse colocado uma barreira invisível entre nós.
A reunião continuou, mas para mim o tempo passou mais lento. Cada resposta dele era objetiva, cada gesto controlado, cada olhar rápido demais.
Nada errado.
Mas diferente.
Quando a reunião terminou, ele se levantou.
— Qualquer atualização, me avisem.
— Claro — respondeu meu pai.
Khalil pegou a pasta e se virou para sair. Por um segundo, pensei que ele fosse dizer algo… qualquer coisa.
Mas não disse.
Apenas assentiu levemente.
E saiu.
A porta se fechou.
O silêncio ficou no escritório.
Continuei olhando para a mesa por alguns segundos.
— Você organizou bem — disse meu pai, satisfeito. — Está indo bem.
— Obrigada.
Mas minha mente estava em outro lugar.
Terminei as anotações e voltei para minha mesa. O resto da manhã passou rápido, mas algo dentro de mim continuava inquieto.
Por quê?
Por que aquilo me incomodava tanto?
Era exatamente o que deveria ser.
Profissional.
Distante.
Correto.
Então por que parecia… errado?
Passei a mão pelo cabelo, tentando afastar a sensação.
Talvez fosse só impressão.
Talvez eu estivesse exagerando.
Talvez…
Mas, no fundo, eu sabia.
Ele tinha mudado.
E, sem perceber…
Eu senti falta do que existia antes.