Minutos depois O clima mudou na hora.
O quarto parecia menor.
Mais quente.
Mais perigoso.
Penélope ainda estava encostada na parede, taça de vinho na mão, mas o sorriso tinha sumido um pouco. Não por culpa… por cálculo. Ela sabia exatamente o que aquela pergunta significava.
Eu dei um passo à frente.
— O que você fez fora daqui?
Alan cruzou os braços.
— Aonde você estava?
Dante já estava com aquele olhar fechado, o tipo que não perdoa resposta vaga.
Liam não falou nada… mas o silêncio dele era pressão suficiente pra quebrar qualquer um.
Ela respirou fundo.
— Buenos Aires.
— Tá. — eu cortei rápido. — E?
Ela deu de ombros.
— Visitei uns primos. Meu pai me apresentou um empresário lá… foi só isso.
Eu ri sem humor nenhum.
— “Só isso”?
Dante deu um passo.
— Penélope…
Ela levantou a mão na hora.
— O quê? Vocês queriam transparência, tô sendo transparente.
Alan apontou pra ela.
— Não tá.
Silêncio.
Ela ficou parada, encarando a gente como se estivesse decidindo até onde ia ceder.
Liam foi o primeiro a falar baixo:
— O que você tá omitindo?
Isso acertou.
Eu vi.
O leve tensionar do maxilar dela. O jeito que os dedos apertaram a taça por um segundo a mais.
Ela desviou o olhar.
Só por meio segundo.
Mas foi o bastante.
Eu já estava na frente dela de novo.
— Penélope.
Ela suspirou, cansada… ou fingindo.
— Vocês são insuportáveis.
— Responde. — Dante falou firme.
Ela riu de leve, mas sem alegria.
— Eu não tenho nada pra esconder.
Alan soltou uma risada curta.
— Mentira.
Silêncio pesado de novo.
E dessa vez… ela não respondeu na hora.
Isso foi pior que qualquer confissão.
Eu encostei mais perto, abaixando a voz.
— Você voltou diferente.
Ela finalmente me olhou.
— Eu sempre volto igual.
Liam se aproximou também.
— Não.
Ela engoliu seco.
E ali… o caos dela falhou por um segundo.
Só um.
Mas eu vi.
Ela baixou a taça devagar e passou por nós, indo até a janela.
— Meu pai me colocou em reuniões que eu não pedi — ela disse por fim. — Empresário, contrato, essas coisas.
Dante não acreditou nem por um segundo.
— E você acha que isso explica três meses sumida?
Ela virou rápido.
— Eu precisava de espaço.
Eu ri, agora sem controle.
— Espaço?
Alan apontou pra ela.
— Você some sem falar nada, Penélope.
Ela ergueu o queixo.
— Porque quando eu falo, vocês vão atrás.
Silêncio.
Porque era verdade.
E isso deixava tudo pior.
Liam falou baixo, perigoso:
— Então você foge da gente.
Ela abriu a boca… mas não respondeu.
Eu vi.
De novo.
E agora não era só tensão.
Era algo escondido.
Algo que ela não queria nomear.
Eu cheguei mais perto.
— Tem alguém lá.
Ela travou.
Só um segundo.
Mas travou.
Dante viu também.
Alan viu.
Liam também.
O quarto inteiro ficou pesado.
— Penélope… — eu falei mais baixo.
Ela respirou fundo.
— Não.
Mas foi fraco.
E quando ela diz “não” fraco…
significa sim.
Silêncio absoluto.
Eu encarei ela.
— Você não ficou com ninguém.
Ela desviou o olhar.
— Quase não é ficar.
Dante soltou um “c*****o” baixo, passando a mão na cabeça.
Alan riu sem humor nenhum.
— Tá me tirando, né?
Ela virou rápido.
— Ei, relaxa! Eu falei quase, não falei que fiquei!
Eu dei um passo.
— Aonde você tava, Penélope?
Ela ficou em silêncio por um segundo longo demais.
E então falou, mais baixo:
— Estava em Buenos Aires… visitando meus primos.
Mas ninguém mais estava ouvindo isso.
Porque agora a pergunta era outra.
Quem estava com ela lá.
E por que ela não estava dizendo.
Entao O ar mudou na hora.
Não era mais só tensão.
Era limite.
Penélope largou a taça na mesa com força suficiente pra fazer o vidro bater e girou de frente pra nós, os olhos verdes agora acesos de irritação real.
— Eu estava chateada com vocês. Queria ficar longe.
Eu dei uma risada curta, sem humor.
— Ah, então ia pra cama de outro e?
Foi automático. Raiva. Ciúme. Controle perdido.
Mas eu vi o efeito na hora.
O olhar dela endureceu.
— Ei.
A voz dela cortou o quarto.
Fina. Direta.
Perigosa do jeito dela.
— Baixa o tom pra falar comigo.
Silêncio.
Alan passou a mão no rosto, já percebendo que a linha tinha sido cruzada dos dois lados.
Dante ficou imóvel, mandíbula travada.
Liam respirou fundo, mas não interrompeu.
Eu ainda estava com o sangue quente.
— Você some por três meses e volta dizendo “quase”—
— Eu não quero brigar mais! — ela cortou, mais alto agora. — Vocês parecem que estão querendo isso p***a… que chatice!
Silêncio pesado.
Ela passou a mão no cabelo, frustrada, andando dois passos pelo quarto como se precisasse de espaço dentro do próprio caos.
— Eu fui embora porque eu tava irritada, porque eu precisava respirar longe de vocês… longe dessa loucura toda!
Ela virou pra gente de novo.
— E vocês fazem o quê? Me recebem assim? Me interrogando como se eu fosse um problema?
Dante deu um passo à frente.
— Você some sem explicação, Penélope.
— E vocês acham que eu não sei disso? — ela respondeu na hora. — Eu sei! Eu sei exatamente o que eu faço com vocês!
Alan soltou um riso curto.
— Então por que faz?
Ela travou por meio segundo.
Só meio segundo.
Mas eu vi.
E aquilo me atingiu mais forte do que qualquer resposta agressiva.
Liam falou baixo, firme:
— Você não respondeu a pergunta dele.
Ela fechou os olhos por um instante.
Respirou.
Quando abriu, a voz saiu mais baixa… menos ataque, mais verdade.
— Porque vocês me sufocam.
Silêncio.
— E eu não sei ser de outro jeito quando sinto isso.
Isso quebrou o ritmo.
Dante relaxou um pouco, mas ainda tenso.
Alan desviou o olhar.
Eu… fiquei olhando pra ela.
Porque ali não tinha provocação.
Nem jogo.
Só ela.
E o caos dela tentando não se afogar.
Eu passei a mão no rosto, mais baixo agora:
— A gente não quer te sufocar.
Ela riu sem humor.
— Mas sufoca.
Silêncio longo.
Liam se aproximou devagar.
— E você acha que fugir resolve?
Ela baixou o olhar.
— Eu achei que sim.
Eu dei um passo mais perto dela.
— E resolveu?
Ela ficou quieta.
E a resposta veio sem palavras.
Não resolveu.
Só piorou tudo.
Dante falou mais baixo:
— Você acha que a gente ia deixar isso barato?
Ela levantou os olhos.
— Vocês nunca deixam nada barato.
Alan cruzou os braços.
— E você ainda volta do mesmo jeito… achando que pode apagar tudo.
Ela abriu a boca… fechou.
E dessa vez a voz saiu mais cansada:
— Eu não sei fazer diferente com vocês.
Silêncio.
Eu cheguei mais perto, mais calmo agora.
— Então não faz sozinha.
Ela me olhou.
E pela primeira vez naquela noite… não tinha guerra ali.
Só confusão.
Só ela… tentando não perder a gente enquanto tentava se proteger da gente ao mesmo tempo.