Pré-visualização gratuita Capítulo 1: Homem Morto
Henry não sabe amar, desaprendeu sobre o amor na infância, no dia em que perdeu os seus pais. Ele conhece sobre os desejos do corpo, e quanto a isso sempre cuidou para satisfazê-los. Mulher alguma o rejeitou, mas também mulher nenhuma retornou para a sua cama. Quando um homem como ele, com quase dois metros de altura, ombros largos e muito forte, decide tomar uma mulher sem amor, sem carinho, sem romance, apenas dominado pelo instinto, o que resta no final, é sempre uma mulher quebrada.
Primeiro Encontro
Henry
A noite estava fria e chovia. Retirei a camisa com cuidado, o tecido fino havia grudado nas minhas costas, e o atrito era absurdamente doloroso. Minha pele retorcida por causa das queimaduras que sofri durante o acidente de helicóptero não havia cicatrizado completamente, apesar do tempo. O cuidado com compressas de ervas medicinais, em um lugar esquecido por Deus, não ajudou muito. Mesmo assim, sou grato às pessoas que salvaram a minha vida.
Muita coisa aconteceu nas últimas horas desde que acordei e Max foi me buscar. Consegui driblar a mídia, mas sei que não será por muito tempo. Tenho que voltar ao trabalho, não posso permitir que o império que levei anos para construir vire cinzas.
Quando parei em frente à minha antiga casa, vi que a luz da sala estava acesa. Caminhei pelo jardim para ter uma visão melhor e pela ampla janela de vidro, vi uma jovem muito loira, usando uma saia jeans curta, uma camiseta branca simples e descalça. No colo, ela balançava uma manta rosa. Não dava para ver o bebê, mas Madeleine andava de um lado para o outro, sorrindo para o pacote em seus braços.
— Madeleine… — sussurrei o seu nome testando o som nos meus lábios.
Era a primeira vez que eu a via, pelo menos eu tentava me agarrar à ideia de que nunca havia tocado naquela mulher, mas eu estava confuso.
Temi estar alucinando. Nunca fui muito normal, sei disso, mas nunca duvidei das minhas próprias memórias antes. Será que o acidente me fez esquecer? Ou fiquei louco de vez?
Quando Max me contou sobre a garota e me mostrou uma foto, por mais incrível que pareça, eu não fiquei surpreso.
Durante o período que fiquei desacordado, Madeleine foi minha companhia. A imagem de uma mulher que mais parecia um anjo, tamanha a sua beleza e perfeição, era uma presença constante em minha mente perturbada.
Nunca desejei tanto uma mulher como desejei aquela que estava agora na sala da minha casa. A mulher que me roubou...
Madeleine
Depois que Catarina nasceu, tudo mudou em minha vida. Assinei uma quantidade enorme de papéis enquanto ouvia o advogado falar sobre propriedades, empresas, galpões e uma infinidade de coisas que agora me pertenciam.
Instalei-me na casa mais afastada do centro da cidade, não queria ser incomodada. Por meses, tive minha vida revirada por jornalistas que queriam informações sobre meu suposto passado amoroso com Henry, mas não havia nada para ser encontrado. Eu nunca estive com aquele homem.
Fui conhecer a faculdade onde iria cursar Ciências Biomédicas quando me meti entre um grupo de estudantes que estava saindo em excursão e acabei em um laboratório de última geração. Minha curiosidade aguçada me colocou em uma sala onde eu definitivamente não deveria ter entrado. Mas, por um instante, achei que a vida estava me dando uma chance.
Roubei a amostra biológica de um homem que havia acabado de ser declarado morto e que, segundo o noticiário, não possuía herdeiros. Eu sabia que estava fazendo algo muito errado, mas estava desesperada e acreditei que o motivo justificava, agora já não tenho tanta certeza.
Quando procurei minha mãe para que ela abandonasse meu pai e viesse morar comigo, recebi um tapa tão forte que quase caí, só me mantive firme porque estava com minha filha nos braços. Ela me bateu e me chamou de nomes terríveis. Preferia continuar vivendo com o marido violento a ir embora com a filha “promíscua”.
Catarina finalmente pegou no sono, eu segui para o quarto e a coloquei no berço, mesmo sabendo que bastaria ela perceber que não estava mais no meu colo para começar a chorar. Torci para ter tempo suficiente para um banho rápido.
Retirei as roupas ainda no quarto, o chuveiro daquele banheiro não esquentava, então segui completamente nua em busca de um chuveiro quente.
A casa era enorme, com muitos cômodos, e eu ainda me perdia ao percorrer o segundo andar, então desci as escadas. O banheiro de visitas do térreo não era o maior, mas pelo menos tinha certeza de que a água era quente e com o frio que fazia, um banho quente era tudo o que eu precisava.
Ouvi um barulho muito perto de mim e parei no lugar, assustada. Olhei em volta, mas não vi nada, o único som constante era o da chuva forte caindo do lado de fora. Já estava na porta do banheiro quando uma voz grossa, marcada por uma rouquidão grave, ecoou atrás de mim:
— Está perdida, Madeleine?
Virei-me para encarar o dono daquela voz. Se eu tivesse algum problema cardíaco, com certeza não resistiria.
O homem diante de mim era uma visão perturbadora.
Ele estava completamente encharcado, era grande, e tinha tatuagens nas mãos. A camisa molhada estava jogada sobre o ombro, o tórax despido estava marcado por cicatrizes, a calça pesava por causa da água, revelando uma linha fina de pelos.
Um homem belo, porém seus olhos eram puro perigo.
O rosto estava parcialmente coberto pelos fios escuros do cabelo molhado, mesmo assim era impossível de confundir.
— Henry? — Uma rajada de vento atingiu meu corpo e eu tremi de frio e medo. Estava tão assustada que m*l registrei o fato de que estava completamente nua.
— O que está fazendo aqui? — A pergunta escapou débilmente da minha boca enquanto minha mente rodava, minhas pernas já não sustentavam meu peso e a visão nublada trouxe um estranho conforto. Ele não era real. Era só minha mente cansada me pregando uma peça.
— Esta é a minha casa, amor...
Senti a mão firme de Henry me agarrar antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, minha visão escureceu completamente e eu fui amparada por um corpo rijo e frio, exatamente como deveria ser o corpo de um homem morto.