Capítulo V — O Segredo Que Tinha um Coração

662 Palavras
A dor não esperou amanhecer. Veio em ondas, fortes o suficiente para fazê-la dobrar o corpo sobre a mesa da cozinha, a respiração curta, os dedos cravados na madeira áspera. — Calma… por favor… — você sussurrou, sentindo o coração disparar. O medo tomou forma. Você sabia reconhecer aquele tipo de dor agora. Não era apenas cansaço. Não era apenas o frio. Era perigo. A mulher da loja de tecidos foi quem a encontrou minutos depois, pálida, trêmula, lutando para permanecer de pé. — Você precisa de ajuda agora! — disse ela, envolvendo-a com firmeza. — Não… eu não posso… — você tentou protestar. — Você n******e é ficar sozinha. A mulher saiu às pressas. E você soube, no fundo do peito, que o destino havia decidido por você. ⸻ Theodor estava em reunião quando foi interrompido. — Meu senhor — disse Heinrich, entrando sem cerimônia. — É urgente. — O que houve? — Ela. Uma pausa curta. — Está doente. Muito m*l. O mundo de Theodor parou. — Onde? — Na cidade baixa. Ele não disse mais nada. Apenas se levantou, o rosto endurecido pela decisão que não permitiria volta. ⸻ Quando abriu a porta da casa simples, encontrou você deitada, o rosto pálido, os lábios entreabertos em respirações curtas. — Meu Deus… — ele murmurou, aproximando-se. Você abriu os olhos ao sentir a presença dele. — Você não deveria estar aqui… — sussurrou. — Não me mande embora agora. Ele ajoelhou ao seu lado, segurando sua mão com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la. — Está doendo muito? — Um pouco… — você mentiu. Ele percebeu. — Chamei um médico. — Não! — sua voz saiu fraca, mas firme. — Ninguém. — Você n******e decidir isso sozinha. Você respirou fundo, as lágrimas escorrendo. — Eu já decidi muita coisa sozinha… O silêncio se estendeu entre vocês, pesado, até que você levou a mão ao ventre de forma instintiva. Os olhos dele seguiram o gesto. E então tudo se encaixou. — Não… — ele sussurrou, como se a palavra doesse. — Isso não é possível… Você virou o rosto, incapaz de encará-lo. — Quanto tempo? — perguntou ele, a voz rouca. Você fechou os olhos. — Desde antes de ir embora. O coração dele bateu forte demais. — Você estava grávida… quando eu disse que estava livre. Você assentiu em silêncio. Ele levou a mão ao rosto, como se o mundo tivesse ruído. — Por que você não me disse? — Porque você nunca me perguntou. Sua voz quebrou. — Porque eu não queria ouvir indiferença outra vez. — Ele… — Theodor engoliu em seco. — É meu? Você abriu os olhos, finalmente encarando-o. — Só poderia ser. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era vazio. Era cheio demais. Ele colocou a mão sobre o ventre com extremo cuidado, como se pedisse permissão. — Posso…? Você hesitou… e então assentiu. Quando a mão dele tocou sua pele, algo mudou no ar. — Eu vou ser pai… — murmurou, atônito. Uma lágrima escapou dos olhos dele. — Eu te expulsei… e você carregava meu filho. — Não me expulse. — você sussurrou. — Só… não me machuque mais. Ele se aproximou, a testa tocando a sua. — Eu falhei com você. A voz dele tremeu. — E falhei com ele. — O amor n******e nascer da culpa — você disse, com dor. — Eu não quero piedade. — Não é piedade. Ele segurou seu rosto com delicadeza. — É medo de perder o que eu quase destruí. As lágrimas caíram dos dois. — Eu não sei amar direito — ele confessou. — Mas eu quero aprender. Por vocês. Você fechou os olhos, dividida. — E se for tarde demais? Ele respirou fundo. — Então passarei o resto da vida tentando merecer vocês. Do lado de fora, a neve começou a cair lentamente. Não como um presságio de frio. Mas como um recomeço.
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