Capítulo VI — Sangue, Coroa e Promessas

734 Palavras
O retorno ao castelo não foi silencioso. Quando Theodor decidiu levá-la de volta ao Norte, envolta em mantos grossos e protegida do frio e dos olhares, ele sabia: não era apenas uma decisão pessoal. Era uma declaração de guerra à própria corte. Você atravessou os portões com o coração acelerado, sentindo o peso daquelas muralhas que um dia chamara de lar — e depois, de prisão. — Eles vão odiar isso — você murmurou, a mão apoiada no ventre já visivelmente arredondado. Theodor caminhava ao seu lado, firme, mas atento a cada passo seu. — Que odeiem. Baixou a voz. — Desta vez, eu fico. Você o olhou, surpresa. — Não diga coisas que n******e garantir. Ele parou no meio do pátio, ignorando os olhares curiosos dos servos. — Eu já te perdi uma vez. Segurou sua mão. — Não vou repetir o erro. ⸻ A primeira reunião da corte foi tudo o que você temia. Os nobres ocupavam seus lugares, os olhares cortantes, os murmúrios venenosos. Quando você entrou, o salão silenciou. — Isso é inaceitável! — exclamou Lorde Wulfric, levantando-se. — Uma mulher repudiada retorna grávida e espera ser aceita? Seu corpo enrijeceu. Theodor avançou um passo. — Sente-se. A voz dele ecoou firme. — Ela não é repudiada. É a mãe do meu herdeiro. O salão explodiu em vozes. — Herdeiro?! — Sem anúncio oficial? — Isso enfraquece alianças! Você sentiu o ar faltar. — Basta! — Theodor ergueu a mão. — Meu filho não é um erro político. — Mas é um risco! — insistiu Wulfric. — Há casas que não aceitarão isso. Há quem queira essa criança morta antes mesmo de nascer. O silêncio caiu como uma lâmina. Theodor virou-se lentamente para você. — Ninguém tocará nela. O olhar dele escureceu. — Nem no meu filho. Naquela noite, a guarda foi dobrada. E as ameaças começaram. ⸻ Cartas anônimas surgiram. Avisos velados. Promessas de sangue. Você passou a dormir pouco, acordando assustada a cada ruído. E foi em uma dessas madrugadas que Theodor a encontrou sentada na cama, os olhos marejados. — Eles nunca vão nos deixar em paz — você disse, a voz fraca. — Talvez eu não devesse ter voltado. Ele sentou ao seu lado, com cuidado. — Olhe para mim. Você obedeceu. — Eu passei a vida inteira protegendo terras, títulos e poder. Respirou fundo. — E falhei em proteger o que importava. Ele pousou a mão sobre o ventre. — Mas não vou falhar agora. Você chorou em silêncio, encostando a testa no ombro dele. — Eu ainda tenho medo de confiar. — Eu sei. Ele não a pressionou. — Confie um dia de cada vez. E pela primeira vez… você acreditou que isso poderia ser possível. ⸻ O caos veio antes do esperado. Era madrugada quando a dor começou — violenta, urgente, impossível de ignorar. — Theodor… — você chamou, ofegante. — Está acontecendo. Ele despertou no mesmo instante. — Chame o médico! — ordenou aos guardas. — Agora! O castelo virou um formigueiro em pânico. No meio da confusão, um grito ecoou do pátio. O som de metal contra metal. Um ataque. — Eles estão tentando entrar! — gritou um soldado. Theodor segurou sua mão com força. — Olhe para mim. A voz dele tremia. — Você não vai morrer. Ouviu? — E se— — a dor a interrompeu. — Não. — ele encostou a testa na sua. — Eu não vou perder vocês. Do lado de fora, espadas se chocavam. Gritos. Caos. Dentro do quarto, você gritava com a força de quem lutava pela própria vida. — Empurre! — ordenou a parteira. Você sentiu o mundo se rasgar… e então— Um choro. Forte. Vivo. — É um menino — anunciou a parteira, sorrindo entre lágrimas. Theodor caiu de joelhos ao lado da cama. — Meu filho… — a voz dele falhou. Colocaram o bebê em seus braços. Você olhou para aquela pequena vida, exausta, emocionada. — Ele tem seus olhos — você sussurrou. Theodor riu e chorou ao mesmo tempo. — E sua força. Do lado de fora, o ataque foi contido. Dentro daquele quarto, algo foi finalmente reconstruído. Ele se inclinou e beijou sua testa. — Eu juro. A voz firme, solene. — Nenhuma coroa será mais importante do que vocês. Você fechou os olhos, sentindo o bebê respirar contra o peito. O inverno, enfim, começava a ceder.
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