Capítulo II — Ecos do Que Nunca Foi Dito

696 Palavras
O frio daquele amanhecer parecia mais c***l do que nos dias anteriores. Você acordou antes do sol, sentindo um aperto estranho no peito — uma mistura de náusea leve, cansaço profundo e algo mais… algo que pulsava junto ao seu coração. A pequena casa rangia com o vento, e por um instante você permaneceu deitada, encarando o teto simples de madeira. — Está tudo bem… — murmurou para si mesma, levando a mão ao ventre. — Nós vamos ficar bem. Aquela frase se tornara um hábito. Um juramento silencioso. Levantou-se devagar, vestiu o vestido simples de lã e envolveu-se no manto já gasto. O espelho rachado devolveu um reflexo diferente do que você conhecia: mais pálida, mais magra… mas os olhos ainda carregavam a mesma ternura que, um dia, haviam buscado os dele. Theodor. Você respirou fundo. — Não pense nele. Mas o coração não obedecia. ⸻ No castelo do Norte, o duque despertava com uma inquietação que não sabia nomear. Theodor permaneceu sentado à beira da cama por longos minutos, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido no chão de pedra. — Dois anos… — murmurou para o vazio. Dois anos de uma presença silenciosa. De passos suaves pelos corredores. De um olhar que sempre o acompanhava, mesmo quando ele fingia não notar. Vestiu-se com movimentos automáticos e seguiu para o salão de desjejum. Ao entrar, algo o atingiu com força inesperada. A cadeira vazia. Ele fechou o punho lentamente. — Ridículo — resmungou. Mas, quando se sentou, percebeu que o silêncio já não era confortável. Era ensurdecedor. — Meu senhor — disse o conselheiro Heinrich, aproximando-se. — Há rumores na cidade. Theodor ergueu o olhar, atento. — Sobre o quê? — Sobre a antiga duquesa. O coração dele falhou por um breve segundo. — O que dizem? — perguntou, tentando manter a voz firme. — Que ela não retornou à pátria. Que permanece… escondida. — Escondida? — ele franziu o cenho. — Por quê? Heinrich hesitou. — Alguns dizem que ela partiu em desgraça. Outros… que carrega uma dor que não desejava mostrar à corte. Theodor afastou a cadeira com brusquidão. — Isso não é da minha conta. Mas assim que o conselheiro se retirou, ele permaneceu imóvel, encarando o fogo da lareira. — Não é da minha conta… — repetiu, mais baixo. E pela primeira vez, não acreditou nas próprias palavras. ⸻ Na cidade baixa, você caminhava lentamente pela rua coberta de neve fina, parando diante de uma pequena loja de tecidos. A dona, uma mulher mais velha de olhar gentil, sorriu ao vê-la. — Você está mais pálida hoje, minha querida. — É só o frio — respondeu, forçando um sorriso. A mulher inclinou a cabeça, observando-a com atenção. — Ou talvez seja cansaço demais para alguém tão jovem. Você desviou o olhar. — Às vezes… a vida pesa mais do que deveria. A mulher tocou sua mão com delicadeza. — Não carregue o mundo sozinha. Você quase chorou. ⸻ Naquela noite, sentada perto da pequena lareira, você retirou do bolso um objeto que nunca teve coragem de abandonar: um anel simples, mas elegante — o símbolo do casamento que jamais foi amor. — Você nunca me quis… — sussurrou. — Mas eu te amei o suficiente por nós dois. As lágrimas caíram silenciosas. — E ainda amo… mesmo sem querer. A mão voltou ao ventre, agora com mais firmeza. — Mas você nunca vai saber. ⸻ No castelo, Theodor caminhava pelos corredores escuros, como se fosse atraído por lembranças que evitara por tempo demais. Parou diante da antiga câmara que fora sua. Abriu a porta. O quarto estava vazio. Frio. Impessoal. — Por que você nunca reclamou? — perguntou ao silêncio. — Por que nunca me exigiu nada? A resposta veio apenas da memória. A sua voz, suave. “Enquanto eu puder ficar ao seu lado, isso basta.” Ele fechou os olhos com força. — Maldição… Algo começou a ruir dentro dele. Não era arrependimento completo. Ainda não. Mas era o começo da falta. E o amor… quando n****o por tempo demais, sempre encontra um caminho para voltar. Mesmo que tarde. Mesmo que carregando um segredo que mudaria tudo.
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