Narrado por Christian Junqueira
A manhã estava fresca, e o sol já despontava no horizonte quando desci para a cozinha. O cheiro de café recém-passado preenchia o ambiente, e Anastácia, como sempre, estava sentada na bancada, mexendo no celular.
— Bom dia, amor — ela disse, sorrindo ao me ver.
— Bom dia. Christopher já saiu? — perguntei, servindo-me de café.
Ela negou com a cabeça.
— Ele ainda está no quarto.
Suspirei. Christopher nunca fazia questão de tomar café da manhã comigo. Na verdade, fazia questão de evitar qualquer momento a sós comigo.
— Talvez você devesse tentar um novo jeito de se aproximar — Anastácia sugeriu.
— E qual seria?
Ela deu um sorriso misterioso.
— Por que você não descobre o que ele gosta de fazer? Algo que não envolva apenas perguntar sobre a escola?
Eu sabia que ela tinha razão, mas a verdade era que eu não sabia muito sobre os gostos do meu filho. Ele nunca falava sobre si mesmo comigo.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Christopher apareceu na cozinha.
Ele usava um moletom preto com o capuz sobre a cabeça e segurava o celular, aparentemente distraído. Anastácia foi a primeira a falar:
— Bom dia, Chris! Dormiu bem?
— Uhum — ele murmurou, pegando uma maçã da fruteira.
— Não vai comer nada além disso? — perguntei.
Ele me olhou de relance, como se analisasse se valia a pena responder.
— Não estou com fome.
A resposta padrão.
— Vai de ônibus hoje? — tentei puxar conversa.
— Sim.
— Eu posso te levar.
Ele riu, sem humor.
— Não precisa.
Ele já ia saindo quando vi algo preso no bolso lateral da mochila. Um caderno de desenho.
— Você desenha? — perguntei, surpreso.
Christopher congelou por um segundo, depois rapidamente enfiou o caderno na mochila.
— Não é nada.
Mas aquilo já foi o suficiente para me deixar curioso.
— Você nunca me contou que gostava de desenhar.
— Você nunca perguntou — ele rebateu, seco.
Antes que eu pudesse responder, ele saiu.
Fiquei ali, parado, tentando absorver aquela informação.
— Você sabia que ele desenhava? — perguntei a Anastácia.
— Sabia. Ele desenha muito bem, aliás.
Passei a mão no queixo, pensativo. Talvez aquele fosse um caminho para me aproximar dele.
(...)
Naquela tarde, resolvi chegar mais cedo do trabalho. Passei em uma livraria e comprei um sketchbook e um conjunto de lápis de desenho. Eu não sabia se Christopher aceitaria, mas era uma tentativa.
Quando cheguei em casa, Anastácia estava na sala, lendo.
— Oi, amor. — Ela olhou para o embrulho na minha mão. — O que é isso?
— Um presente para o Christopher.
Ela sorriu, surpresa.
— Você está tentando, isso é ótimo.
— Não sei se ele vai aceitar.
— Você nunca saberá se não tentar.
Respirei fundo e subi até o quarto dele. Bati duas vezes na porta e esperei.
Nenhuma resposta.
— Christopher?
Ouvi um suspiro do outro lado e, segundos depois, a porta se abriu. Ele estava de fones de ouvido, mas tirou um deles para me encarar.
— O que foi?
Estendi o embrulho para ele.
— Comprei algo para você.
Christopher franziu o cenho.
— Por quê?
— Porque eu quero.
Ele pegou o embrulho com hesitação e rasgou o papel devagar. Quando viu o sketchbook e os lápis, seus olhos se arregalaram por um segundo, mas ele rapidamente escondeu a reação.
— Hm... Valeu.
Eu sabia que aquilo era o máximo de gratidão que ele demonstraria.
— Eu queria ver alguns dos seus desenhos um dia — comentei.
Ele deu de ombros.
— Talvez.
Era um avanço.
Quando ele fechou a porta, me peguei sorrindo. Talvez, pela primeira vez, eu tivesse feito algo certo dessa vez.
(...)
Mais tarde naquela noite, eu estava na cozinha com Anastácia quando Christopher passou apressado pela sala.
— Aonde você vai? — perguntei.
Ele hesitou.
— Só dar uma volta.
— Quer que eu vá junto?
Ele riu.
— Não precisa.
Eu já deveria esperar essa resposta, mas, dessa vez, não me senti tão frustrado.
— Tudo bem, Pequeno Lobo.
Ele parou na porta e me olhou de lado.
— O quê?
Dei um meio sorriso.
— Pequeno Lobo. Você me lembra um lobo jovem, sempre na defensiva, mas cheio de força.
Ele ficou me encarando por alguns segundos, como se estivesse decidindo se achava aquilo i****a ou não.
— Tanto faz — murmurou, saindo.
Mas eu vi.
Antes de sair, um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios dele.
E, naquele momento, soube que estava no caminho certo.
Depois que Christopher saiu, fiquei parado na cozinha, olhando para a porta como se esperasse que ele voltasse e perguntasse mais sobre o apelido. Mas, claro, isso não aconteceu.
— Pequeno Lobo? — Anastácia repetiu, rindo.
Dei de ombros.
— Achei que combinava.
Ela se aproximou e enlaçou meus braços.
— Eu achei perfeito. E, pelo jeito, ele gostou.
— Ele saiu sem reclamar — comentei.
— O que, vindo do Christopher, é um progresso gigantesco — ela brincou.
Sorri, mas no fundo sabia que ainda tínhamos um longo caminho pela frente.
(...)
O relógio já marcava dez da noite quando ouvi a porta se abrir e Christopher entrar. Ele estava com o cabelo bagunçado, a roupa um pouco suja e segurava um skate debaixo do braço.
Ele me olhou rapidamente e hesitou, como se estivesse decidindo se falaria alguma coisa.
— Se eu disser boa noite, você vai fazer um discurso? — perguntou, meio debochado.
— Não — respondi. — Mas eu posso perguntar como foi seu rolê.
Christopher bufou, mas de um jeito menos defensivo do que de costume.
— Normal. Só andei um pouco de skate.
— E onde você costuma ir?
— Na pista ali perto do centro — respondeu, depois de uma pausa. — Às vezes encontro uns amigos lá.
A menção a amigos me surpreendeu. Christopher nunca falava sobre eles.
— Que bom — comentei. — Você sempre gostou de andar de skate?
Ele balançou a cabeça.
— Comecei quando ainda morava com os meus avós. Mas faz pouco tempo que ando mais sério.
Fiquei curioso.
— E por que decidiu andar mais agora?
Ele deu de ombros, evitando me encarar.
— Só porque sim.
Percebi que ele não queria prolongar a conversa, então apenas assenti.
— Bom, só não volte muito tarde, como hoje Pequeno Lobo.
Ele parou por um segundo, como se quisesse responder algo, mas apenas revirou os olhos de leve e foi para o quarto.
Ainda assim, havia algo diferente nele. Talvez, pela primeira vez, Christopher não estivesse tão fechado.
Nos dias seguintes, as coisas entre nós continuaram na mesma dinâmica. Ele ainda evitava muito contato, mas agora não fugia completamente. Às vezes, eu o via rabiscando no caderno de desenho, outras vezes saía com o skate sem dizer muita coisa.
Foi então que decidi que, se Christopher não ia até mim, eu iria até ele.
E foi assim que, em um sábado à tarde, estacionei o carro perto da pista de skate que ele mencionara e fui até lá.
Christopher estava lá, claro, deslizando sobre as rampas com facilidade, vestindo um moletom preto e fones de ouvido.
Fiquei observando por um tempo. Ele realmente era bom.
Alguns outros garotos estavam por ali também, mas foi quando Christopher percebeu minha presença que a cena mudou.
Ele travou no meio do movimento, perdeu o equilíbrio e, por pouco, não caiu.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, assim que se aproximou.
— Vim ver você andar — respondi, como se fosse óbvio.
Ele franziu o cenho.
— Desde quando você se importa com skate?
— Desde que descobri que meu filho gosta disso.
Christopher ficou me olhando, desconfiado, como se tentasse entender qual era a pegadinha.
— Se quiser, posso ir embora — acrescentei.
Ele olhou em volta, claramente constrangido, mas, no fim, apenas bufou e voltou a subir na rampa.
Fiquei ali, observando, sem dizer nada.
Depois de um tempo, ele veio até mim novamente, parecendo menos desconfortável.
— Então? — perguntou, cruzando os braços. — O que achou?
— Você é muito bom.
Ele deu de ombros, mas vi um pequeno sorriso surgir.
— É legal.
— Você pensa em compete ou algo assim algum dia?
— Não... Só ando por diversão.
Houve uma pausa. Então ele suspirou e olhou para mim.
— Você quer tentar?
Pisquei, surpreso.
— Eu?
— É — ele disse, balançando a cabeça. — Mas deixa pra lá, você deve ser péssimo nisso.
Ele me desafiou de propósito.
— Me dá esse skate.
Christopher ergueu a sobrancelha, mas jogou o skate na minha direção.
Subi nele, tentando manter o equilíbrio. Há anos eu não tentava nada parecido.
Dei o primeiro impulso e... imediatamente quase caí.
Christopher riu alto.
— Meu Deus, você é horrível!
Anastácia ficaria feliz de saber que, pela primeira vez, eu ouvi a risada do meu filho.