Capítulo 4

1152 Palavras
Narrado por Christian Junqueira O escritório estava silencioso naquela manhã. Eu gostava de chegar cedo, antes do restante da equipe, para organizar o dia sem interrupções. Passei os olhos pelo calendário eletrônico na tela, verificando as reuniões e pendências. Às oito em ponto, a porta da minha sala se abriu sem que eu autorizasse. Só uma pessoa tinha esse nível de ousadia. — Junqueira — Rodolfo entrou com seu típico ar de superioridade, jogando um sorriso falso na minha direção. — Como vai o pai do ano? Minha paciência já começou a diminuir antes mesmo que ele terminasse a frase. — Diga logo o que quer, Rodolfo. Ele se jogou na poltrona à minha frente como se a empresa fosse dele. O que, para minha infelicidade, era parcialmente verdade. Rodolfo era um dos sócios e fazia questão de lembrar a todos disso sempre que podia. — Só queria conversar — disse, com falsa inocência. — Soube que você está se esforçando para ser um bom pai agora. Interessante, considerando que abandonou seu filho por treze anos. Minha mandíbula travou. Rodolfo sempre foi um i****a, mas trazer Christopher para essa conversa? Isso era um novo nível de provocação. — Cuidado com o que fala — minha voz saiu fria. Ele riu, se inclinando para frente. — Falei alguma mentira? Vamos lá, Christian, todos sabem da história. Você teve um filho e largou a criança para os avós criarem. Agora, do nada, quer bancar o paizão? Meus punhos se fecharam sob a mesa. Eu podia sentir o sangue pulsando em minhas têmporas. — O que acontece na minha vida pessoal não te diz respeito. — Mas é claro que diz. — Ele sorriu. — Afinal, sua imagem afeta a empresa. Você sabe como as pessoas adoram um escândalo, não é? Eu me levantei devagar. Não porque queria parecer calmo, mas porque, se continuasse sentado, talvez perdesse o controle. — Engraçado você se preocupar com a imagem da empresa — disse, cruzando os braços. — Isso vindo do homem que quase colocou tudo a perder por desviar dinheiro de um contrato milionário. Rodolfo perdeu o sorriso por um breve momento, mas logo recuperou sua máscara de arrogância. — Isso nunca foi provado. — Não foi por falta de provas — retruquei. — Apenas porque eu não queria um escândalo na empresa. O silêncio se estendeu por um segundo. Ele sabia que eu estava certo. — Você não me intimida, Junqueira. — Nem você a mim, Rodolfo. Agora, se não tiver nada importante para tratar, pode sair da minha sala. Tenho trabalho de verdade para fazer. Ele ficou me encarando, tentando encontrar alguma fraqueza. Mas, no final, se levantou, ajeitou a gravata e saiu sem dizer mais nada. Soltei um longo suspiro quando fiquei sozinho. Esse tipo de coisa me lembrava por que eu odiava a maior parte das pessoas no mundo dos negócios. Mas então, sem querer, me peguei pensando em Christopher. Odiava admitir, mas talvez Rodolfo tivesse tocado em algo que eu tentava ignorar. Por muito tempo, eu realmente não estive presente. Mas agora, eu estava tentando. E ninguém, muito menos um i*****l como Rodolfo, iria me dizer o contrário. Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso da conversa com Rodolfo ainda pairando sobre mim. Não deveria me afetar ele era um i****a, um oportunista que adorava cutucar onde doía. Mas, de alguma forma, as palavras dele continuavam ressoando na minha mente. Treze anos. Não importava o quanto eu tentasse justificar, os fatos eram inegáveis. Christopher cresceu sem mim. Ele teve que aprender a viver sem um pai porque eu não soube lidar com a perda de Carolina. Respirei fundo e apertei um botão no telefone da mesa. — Camila, cancele minhas reuniões da manhã. — Tem certeza, senhor? Tem uma conferência importante com investidores às dez. Fechei os olhos por um momento. — Mantenha essa. Cancele o resto. — Certo. Soltei o botão e me recostei na cadeira. Peguei o celular e, antes que pudesse pensar demais, digitei uma mensagem para Christopher. Eu: Você está na escola? O status de “digitando…” apareceu e sumiu algumas vezes antes da resposta vir. Christopher: Óbvio. Onde mais estaria? Sorri de leve. Eu: Só perguntei. Como está seu dia? Christopher: Normal. Por quê? O fato de ele sequer responder já era um avanço. Alguns meses atrás, qualquer mensagem minha teria sido ignorada. Eu: Sem motivo. Só queria saber. Dessa vez, demorou mais para a resposta vir. Christopher: Tá… valeu, eu acho. Guardei o celular, me sentindo um pouco menos sufocado. A reunião com os investidores correu como esperado. Eu estava no controle, como sempre. Apresentei os números, defendi nossas estratégias e finalizei sem dar margem para questionamentos. — Excelente trabalho, Christian — disse um dos investidores ao final da apresentação. — A empresa está sólida como sempre. Agradeci com um aceno discreto e saí da sala, já preparando meu retorno ao escritório. Mas Rodolfo estava esperando do lado de fora, encostado na parede com aquele maldito sorriso de sempre. — Impressionante, Junqueira. Você fala com os investidores como se estivesse no controle absoluto. Parei na porta do elevador e o encarei de lado. — Porque estou. Ele riu, balançando a cabeça. — Sei que você me odeia, mas vou te dar um conselho. Essa coisa de brincar de paizinho pode parecer bonita agora, mas não demora até que comece a interferir nos negócios. O elevador chegou. — Não perca seu tempo, Rodolfo — murmurei, entrando. Mas ele segurou a porta. — Sabe qual é o problema, Christian? Você tenta fugir do passado, mas ele sempre encontra uma forma de voltar. Meu olhar se estreitou. — Se tem algo a dizer, diga logo. Ele sorriu, satisfeito por ter minha atenção. — Apenas estou curioso para ver quanto tempo essa sua fase paternal vai durar. Porque, no fim das contas, algumas pessoas simplesmente não nasceram para ser pais. O elevador começou a fechar, e eu o deixei falar sozinho. Mas, no fundo, aquela frase ficou comigo. Cheguei em casa mais cedo do que o habitual. Deixei a pasta no escritório e fui direto para a cozinha. Encontrei Anastácia cortando frutas, cantarolando uma música qualquer. — Você está de folga hoje? — ela brincou ao me ver. — Resolvi sair mais cedo. Ela se aproximou e me deu um beijo leve. — Algum motivo específico? Pensei em Rodolfo, na conversa na empresa, na forma como Christopher respondeu minhas mensagens. — Só… queria estar aqui. Ela sorriu de leve. — Christopher ainda não chegou. Mas se quiser, posso te ajudar a cozinhar algo para o jantar. Não era uma má ideia. Eu ainda estava aprendendo a me aproximar do meu filho, e talvez começar com coisas simples fosse o melhor caminho. — Vamos fazer hambúrguer caseiro — sugeri. — Ele vai gostar — Anastácia disse, animada. E, pela primeira vez no dia, senti que estava no caminho certo.
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