Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – Entre Contas e Sonhos
O despertador do celular tocou às cinco e meia da manhã.
Camila abriu um dos olhos, encarou a tela rachada e resmungou:
— Cinco minutinhos...
O aparelho caiu da cama e bateu no chão.
Ela suspirou.
— Nem meu celular acredita em descanso.
Levantou-se devagar do colchão de solteiro, esticando os braços acima da cabeça. O pequeno quarto m*l comportava a cama, um guarda-roupa antigo e uma penteadeira improvisada feita com uma tábua apoiada sobre dois caixotes.
A janela deixava entrar os primeiros raios de sol sobre o Conjunto Habitacional Esperança, onde ela morava desde criança.
Camila caminhou até o espelho.
Mesmo usando uma camiseta larga e um short velho, era impossível esconder sua beleza. Tinha vinte e cinco anos, quase um metro e setenta e cinco de altura, pele morena iluminada pelo sol, olhos verdes que chamavam atenção por onde passava e cabelos cacheados, longos e volumosos, que insistiam em acordar mais bagunçados que ela.
Seu corpo atraía olhares sem que precisasse fazer esforço. A cintura era fina, os s***s bem proporcionais e as pernas fortes denunciavam as longas caminhadas que fazia todos os dias porque nem sempre havia dinheiro para a passagem de ônibus.
Sorriu para o próprio reflexo.
— Bom dia, Camila... hoje você continua linda e continua pobre.
Deu uma piscadinha para o espelho.
— Mas uma coisa de cada vez.
Saiu do quarto sentindo o cheiro de café fresco.
Na pequena cozinha, sua mãe, Dona Sônia, organizava cuidadosamente três pedaços de pão sobre a mesa.
As olheiras denunciavam mais uma noite m*l dormida.
— Bom dia, filha.
Camila beijou sua testa.
— Dormiu?
— Um pouco.
— Mentira. Conheço essa cara de quem passou a madrugada fazendo conta.
Sônia tentou sorrir.
— As contas não fecham.
Camila pegou uma caneca de café.
— Um dia elas fecham. Nem que eu tenha que virar milionária.
— E como pretende fazer isso?
— Casando com um velho rico...
Fez uma pausa dramática.
— ...que esteja à beira da morte.
Os dois caíram na risada.
Nesse momento, Vinícius entrou na cozinha ainda sonolento.
Aos vinte anos, trabalhava como entregador durante o dia e estudava à noite. Era alto, magro e tinha o mesmo sorriso fácil da irmã.
— Bom dia.
— Bom dia nada — disse Camila. — Você ronca igual um trator.
— Inveja porque eu durmo.
Ela lhe deu um leve tapa no braço.
Apesar das brincadeiras, os três sabiam que a situação era delicada.
Depois que o pai abandonou a família para fugir com outra mulher, tudo desmoronou.
Além da dor da traição, ficaram as dívidas.
A casa financiada.
As contas atrasadas.
As cobranças.
Sônia fazia faxinas quando apareciam.
Camila passava de emprego em emprego.
Vinícius fazia qualquer serviço para ajudar.
Ainda assim, quase nunca o dinheiro era suficiente.
Camila olhou discretamente para um envelope escondido em cima da geladeira.
Mais uma conta vencida.
Mais uma ameaça de corte da energia.
Respirou fundo.
Não podia deixar a mãe perceber seu desespero.
Ela era a fortaleza daquela casa.
Mesmo quando sentia vontade de desabar.
— Hoje é o dia.
Sônia levantou os olhos.
— A entrevista?
Camila sorriu.
— Não. Hoje é o dia em que a sorte finalmente vai olhar para mim.
Vinícius cruzou os braços.
— Se a sorte estiver perdida e passar por aqui...
— Eu amarro ela dentro de casa.
Os três voltaram a rir.
Era assim que sobreviviam.
Transformando tragédias em piadas.
Encontrando força onde quase não existia esperança.
Depois do café, Camila vestiu sua melhor roupa: uma calça social preta comprada em um brechó, uma camisa branca impecavelmente passada e um blazer simples.
Calçou um salto já bastante gasto.
Pegou sua bolsa.
Antes de sair, abraçou a mãe.
— Vai dar certo.
Sônia acariciou seu rosto.
— Tenho orgulho da mulher que você se tornou.
Camila sentiu um nó na garganta.
Ela precisava que desse certo.
Não apenas por ela.
Mas por aquela família que nunca desistira de lutar.
Ao fechar a porta do pequeno apartamento, respirou fundo e encarou o céu.
Mal sabia que aquele seria o primeiro dia da maior transformação de sua vida.
Entre desafios, humilhações e escolhas difíceis, o destino estava prestes a colocá-la frente a frente com o homem que mudaria para sempre sua história.
E, embora ainda não soubesse, o verdadeiro teste de sua força nem sequer havia começado.