Capítulo 03

1247 Palavras
O quarto é maior do que qualquer lugar onde já dormi. Não apenas grande — imenso. Alto demais. Silencioso demais. Perfeito demais. Camas assim não são feitas para descanso. São feitas para domínio. Fecho a porta atrás de mim com cuidado, como se o simples som da fechadura pudesse chamar atenção indesejada. Por alguns segundos, permaneço encostada na madeira fria, tentando recuperar o fôlego que parece ter ficado preso no escritório lá embaixo. Matteo não está aqui. Ainda. Mesmo assim, a presença dele está em todo lugar. No cheiro amadeirado que paira no ar, discreto, mas impossível de ignorar. Na organização impecável de cada objeto, como se nada pudesse estar fora de controle. No silêncio pesado que não conforta — apenas observa. Meus olhos percorrem o quarto devagar. As cortinas grossas escondem parte da luz da cidade. A cama ocupa o centro do espaço como um trono disfarçado. Há uma poltrona escura próxima à janela, uma mesa lateral com um único livro fechado, um tapete macio que abafa qualquer som de passos. Tudo aqui parece calculado. Pensado. Controlado. Tudo aqui grita que eu não pertenço… e, ao mesmo tempo, que agora pertenço demais. Solto o ar lentamente e me afasto da porta. Cada passo parece ecoar dentro do meu próprio peito, mesmo sem fazer barulho algum. Caminho até a janela quase sem perceber, atraída pela única coisa que ainda parece real: o mundo lá fora. A vista é alta. Muito alta. Lá embaixo, homens armados patrulham o terreno como sombras treinadas. Movimentos precisos. Olhares atentos. Nenhuma distração. Não há saída. A constatação não vem com pânico. Vem com uma calma estranha. Pesada. Porque, no fundo, eu já sabia. Nunca houve saída. Meus dedos tocam o vidro frio. Por um instante, fecho os olhos e tento lembrar como era respirar sem sentir esse peso constante no peito. Tento lembrar quem eu era antes de hoje. A memória parece distante demais. Ouço a porta abrir. Meu corpo reage antes que minha mente consiga acompanhar. Os ombros enrijecem. A respiração prende. O coração dispara. Não preciso me virar para saber que é ele. — Não precisava esperar acordada — a voz dele vem calma demais, como se estivéssemos falando sobre algo comum. Simples. Cotidiano. Como se nada disso fosse uma prisão com paredes bonitas. Viro devagar. Matteo está sem o paletó. A camisa preta aberta no primeiro botão, as mangas levemente ajustadas nos antebraços. A postura relaxada contrasta com tudo o que ele provoca ao redor. Relaxado. Controlado. Perigoso. Ele fecha a porta atrás de si com um movimento discreto. O clique suave parece mais alto do que deveria. — Este também é meu quarto — digo, antes que o silêncio me engula. Forço firmeza na voz. — Ou não? A pergunta sai mais vulnerável do que eu gostaria. Ele me observa por alguns segundos sem responder. O olhar percorre meu rosto como se procurasse algo específico. Como se avaliasse cada reação antes de decidir qual peça mover no jogo. — Ainda não — responde, por fim. Duas palavras. Simples. Carregadas de significado demais. Meu estômago se contrai sem permissão. Ele começa a se aproximar. Cada passo reduz o espaço entre nós… e aumenta a consciência que tenho do meu próprio corpo. Do som do meu coração. Do ar entrando difícil nos pulmões. Quando ele para, está perto o suficiente para que eu sinta o calor da presença dele, mesmo sem contato. — Hoje é sobre limites — continua, a voz baixa, estável. — E sobre você entender onde está. Ergo o queixo um pouco mais, usando a última reserva de orgulho que ainda tenho. — Eu sei exatamente onde estou — respondo. — Presa. Por um instante, acho que fui longe demais. Mas apenas um canto da boca dele se ergue. Não chega a ser um sorriso. É algo menor. Mais perigoso. — Errado. — Ele inclina levemente a cabeça. — Você está protegida. Existe uma diferença enorme. Uma risada quase escapa de mim, mas morre antes de nascer. — Proteção não deveria doer tanto. O olhar dele escurece. A mudança é rápida. Sutil. Mas eu vejo. Algo passa por trás do controle perfeito. Algo que ele não pretendia mostrar. E então desaparece. Como se nunca tivesse existido. O silêncio cresce entre nós, denso o suficiente para tocar. Não sei quanto tempo ficamos assim — segundos, talvez. Ou minutos disfarçados. Ele estende a mão na minha direção. O gesto não é brusco. Não é ameaçador. Mas também não é gentil. Hesito. Cada parte de mim grita para não dar esse passo. Para não aceitar nada que venha dele. Para não facilitar o domínio que já parece inevitável. — Venha — diz. Uma ordem suave. Ainda assim… uma ordem. — Não vou tocá-la. As palavras deveriam tranquilizar. Não tranquilizam. Mesmo assim… eu obedeço. Não sei se é medo. Cansaço. Ou algo mais confuso, que ainda não consigo nomear. Dou um passo. Depois outro. Até parar a poucos centímetros dele. Matteo passa por mim sem encostar, caminhando até a cama com a tranquilidade de quem sempre pertenceu a todos os espaços que ocupa. Senta-se na beirada, apoiando os antebraços nas pernas, relaxado demais para um homem que controla tudo ao redor. O contraste me desorienta. — Tire o casaco. Meu estômago se fecha imediatamente. — Isso não fazia parte do acordo. — Faz parte de você aprender a confiar em mim — responde, sem me encarar. — Ou pelo menos fingir. Respiro fundo. O ar entra tremido. Sai pior. Por alguns segundos, fico imóvel, lutando uma batalha silenciosa que ninguém vê. Então, com movimentos lentos, deslizo o casaco pelos ombros. O tecido cai pesado demais para algo tão leve. Quando ele toca o chão, sinto o olhar dele nas minhas costas. Não há toque. Nenhuma aproximação. Mas a presença está ali. Quente. Atenta. Pesada. Minha pele reage como se houvesse contato mesmo sem haver. O silêncio se estende outra vez. Diferente dos anteriores. Menos hostil… e, por isso mesmo, mais confuso. — Boa noite, Lívia — ele diz por fim. A voz voltou a ser neutra. Fechada. Como se nada tivesse acontecido. — Amanhã começa sua nova vida. Nova vida. As palavras ecoam dentro de mim com um peso estranho. Não parecem promessa. Parecem aviso. Ele se levanta. O movimento é simples, mas minha atenção acompanha cada detalhe sem que eu consiga impedir. O modo como ele ajusta discretamente a manga da camisa. A postura reta. A calma absoluta. Ele caminha até a porta. Não olha para trás. A mão gira a maçaneta. A porta se abre. E então ele sai. O clique suave do fechamento parece definitivo demais. O silêncio que sobra é… diferente. Maior. Mais vazio. Quase frio. Fico parada no mesmo lugar, sem saber exatamente o que fazer agora que estou sozinha. Meu corpo ainda está tenso, como se esperasse que ele voltasse a qualquer segundo. Mas ele não volta. Os segundos passam devagar. Depois os minutos. O quarto continua imóvel ao meu redor, perfeito demais, silencioso demais. Seguro o ar… e só então percebo. O que mais me assusta não é a prisão. Não é o controle. Não é o medo constante. É outra coisa. Algo pequeno. Confuso. Inaceitável. O quanto meu corpo percebeu a ausência dele. O quanto o silêncio parece… mais frio sem sua presença. Fecho os olhos com força, tentando empurrar esse pensamento para longe antes que crie raízes. Porque, se eu começar a confundir medo com qualquer outra coisa… então estarei realmente perdida.
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