A casa estava em silêncio. Clara já dormia no quarto dela, abraçada à boneca nova que ganhou do Dante dias atrás. Eu terminei de lavar os dois copos que estavam na pia e fui apagar a luz da cozinha, os pés descalços no chão frio e a cabeça cheia. Ele estava no colchão, sem camisa, celular jogado ao lado, cigarro apagado no cinzeiro da janela. Me olhou com os olhos escuros de sempre, como se estivesse ali mas também em outro lugar. Deitei ao lado dele, puxando o lençol até a cintura. Não disse nada por um tempo. Só encostei o queixo no ombro dele, o cheiro da pele marcada pelo dia inteiro me invadindo sem pedir licença. Os olhos dele piscavam devagar, mas não era sono. Era peso. — Cansado? — perguntei baixo. — Uhum. Mais alguns segundos de silêncio. Então eu falei. Aquela pergunta que

