Capítulo 6 — Gravação

2636 Palavras
Entre Phoenix e Las Vegas, demoramos quase uma hora de avião. O aeroporto McCarran estava lotado, como sempre. Pessoas de todas as nacionalidades e idades, principalmente adultos, caminhavam de um lado ao outro pelas lojas iluminadas. Eu podia diferenciar cada grupo: o entusiasmo de quem estava chegando e o abatimento daqueles que partiam após o fim das férias. Havia também os casais apaixonados, recém-casados nas capelas espalhadas pela cidade. Esperava que, para estes, o que acontecesse em Vegas não ficasse só em Vegas. Por fim, os novatos, quem nunca estiveram na cidade do pecado antes. Eles olhavam ao redor embasbacados, em um misto de deslumbramento e excitação. E não tínhamos nem saído do aeroporto ainda! Victor se encaixava no último grupo. Meu patrocinador havia fornecido o valor das diárias do MGM Grand Hotel, onde aconteceria a luta de sábado, mas optei por ficar no Luxor, aquele em formato de uma enorme pirâmide, na Avenida Strip, a principal de Vegas. Era tão bom quanto o MGM, porém mais barato, sobrando assim mais dinheiro para o que realmente importava: máquinas caça-níquel e pôquer. O hotel, entretanto, tornou-se um problema. Como eu ia dividir o quarto com Derek, havia reservado apenas um com duas camas. E não tinha mais nenhum outro quarto vago no Luxor inteiro. Ainda resmungando baixo, coloquei a mala em cima do colchão. — Quer tomar banho primeiro, ou eu vou? — Victor perguntou. Ali, por causa do teto mais baixo, devido ao formato piramidal do hotel, ele parecia um gigante observando a rua pela janela. — Pode ir. Não pense nele tomando banho. Razões para não pensar nisso: Mila é minha melhor amiga, e eu não posso perder tempo com namoro. Ok! Separei a bolsa preta com o cinturão de ouro, uma réplica do original, já que o original ficava na confederação, e a medalha olímpica, ambos solicitados para a propaganda. Joguei-me na cama macia e fechei os olhos. Fazer o evento do patrocinador, assistir a luta e jogar no cassino. Um fim de semana tranquilo em Vegas. Seria moleza fazer tudo aquilo! No meio da tarde, após almoçar em um dos restaurantes do Luxor, encontramos o senhor McAvon. Ele comandava uma empresa de roupas esportivas, foi patrocinador do meu pai nos tempos de glória e meu desde o início da minha carreira. Um homem de quase setenta anos que amava demais sua empresa para pensar em aposentadoria. Gostava de acompanhar os detalhes das campanhas de marketing de perto. Mais do que um empresário, era um vendedor nato. Em seu costumeiro terno sob medida, ele nos recebeu no estúdio de gravação. Surpreendi-me ao vê-lo se apoiar em uma bengala, o corpo trêmulo e o aperto de mão sem firmeza. — Não sou mais o mesmo, minha querida… — ele disse, provavelmente ao notar os meus olhos se encherem de preocupação. Eu o conheci logo depois do vovô Dylan ter morrido, e, para mim, o senhor Edward McAvon sempre foi mais do que um patrocinador. Ele era um amigo. Sentia como se estivesse perdendo meu avô de novo, já que o conhecia desde os sete anos de idade. Abracei seu corpo magro com delicadeza e tentei não pensar em como minha avó estava quase tão frágil quanto ele. Não havia como afastar a preocupação em minha voz. — O senhor está se cuidando bem? — Claro! — ele respondeu com entusiasmo. — Não vai se livrar de mim tão fácil. A maquiadora chamou nossa atenção, precisava me arrumar para a gravação. Apresentei Victor a Edward e segui a mulher baixinha e de s***s fartos até o camarim, nos fundos do estúdio. Ela trabalhou por quase uma hora para que eu parecesse impecável, porém natural durante um treinamento. Como se eu usasse maquiagem para me exercitar! Meus cabelos foram amarrados em um r**o de cavalo e várias mechas úmidas foram jogadas propositalmente em meu rosto. Eu deveria ser uma lutadora linda, treinando para vencer com a nova linha de roupas esportivas McAvon. O tênis rosa e as polainas brancas combinavam com o macaquinho de lycra curto nas mesmas cores, indo até o meio das coxas. Ele era cavado dos dois lados, e na cintura deixava à mostra minha tatuagem de rosa. A peça demarcava meu porte atlético. Forte, porém feminina. Eu sempre treinava com roupas fornecidas pelo patrocinador, fazia parte do contrato, mas a maioria era composta de shorts, tops e camisetas regatas folgadas. Os cabelos sempre bem presos ou trançados e bandagens elásticas nos punhos. A mulher riu quando falei isso, dizendo que aqui era showbiz, não luta de verdade. Quando voltei para o set, Victor conversava à vontade com o McAvon, os dois sentados em cadeiras de plástico, ao lado de um pequeno ringue montado para a filmagem. A conversa animada parou ao me verem entrar. Os lábios do meu treinador se entreabriram de leve, como se ele não pudesse conter o suspiro que escapou. Ed, astuto como era, segurou minha mão, puxando-me para perto: — Ela está linda, não é? — ele questionou, sugestivo. Tinha certeza que havia um consenso entre as pessoas na terceira idade: servir de cupido inconveniente sempre que possível. — Ela sempre está linda — os olhos de Victor queimavam nos meus de um modo que nunca havia observado antes. O diretor da propaganda, um homem barbudo de meia-idade, que usava uma camiseta de um seriado antigo, provavelmente dirigido por ele, começou a ladrar ordens para o ajudante de câmera. Subi ao ringue, e as luzes do teto se apagaram, mantendo apenas os holofotes em mim. Eu deveria lutar com um oponente invisível, fazendo jabs sequenciais no ar e em direção à câmera. Depois, em uma visão mais ampla, eu estaria parada com o cinturão de ouro e a medalha olímpica. Victor e Edward acompanhavam o resultado junto ao diretor, em uma pequena televisão. A câmera me circulava, pegando ângulos diversos do meu corpo. Após repetir o movimento umas cinquenta vezes, o diretor parecia bem satisfeito. Já os outros dois... — Está faltando algo — McAvon comentou, incerto. — O que você acha, Victor? Meu treinador sentenciou: — Na minha humilde opinião, parece uma modelo fingindo ser uma lutadora. Fingindo ser lutadora? Pulei do ringue, aproximando-me dele com raiva. Fingindo? Eu sou uma lutadora! — Como é? — perguntei, cada palavra revestida de aço. — Um terço dos seus cabelos está caindo pelo rosto, isso nunca aconteceu antes. Por quê? Porque nenhuma lutadora que se preze deixaria fios de cabelo atrapalhando a visão. Esmurrar o ar não tem impacto, literalmente. Você tem força e agilidade, Diana! Isso seria melhor aproveitado em um alvo sólido. Suas mãos estão sem bandagens. Mesmo em um treino, um soco sem proteção poderia fraturar seus ossos. A roupa... — ele me olhou de cima a baixo e engoliu seco. — Não tenho do que falar… Minha raiva murchou, ele estava coberto de razão. Eu avisara aqueles mesmos pontos para a maquiadora! Entretanto aceitei sua desculpa de showbiz. — Eu poderia convencer um leigo — virei-me para Ed —, mas uma pessoa que tenha um mínimo de noção, vai achar a propaganda artificial. McAvon nos observava com atenção. Seu trêmulo dedo batendo no queixo, maquinando alguma ideia na cabeça de gênio. O sorriso felino em seu rosto me deixaria desconfiada, se não confiasse plenamente nele. — Pago dois mil dólares — ele vasculhou o bolso do terno e mostrou dois pedaços de papéis retangulares — e mais dois tickets para o show do Ricky Martin se você subir no ringue agora. A proposta não foi feita para mim. Foi para o Victor. — O senhor não vai me querer em sua propaganda. — Victor foi categórico. Todo o relaxamento e ar de riso desapareceram de seu semblante enquanto ele explicava o motivo com certo distanciamento para o meu patrocinador. — Perdi a medalha olímpica por causa de doping. McAvon o observava com atenção, e eu também. Victor não costumava falar sobre seu problema com esteroides. Era um tabu jamais citado na academia, exceto por cochichos entre alunos e por mim, no dia em que ele chegou. Victor aceitava com tanta calma a sua penalidade... Um fardo carregado com resignação. — Os tolos vivem de passado, rapaz! — McAvon retorquiu. — E uma boa polêmica com o slogan certo pode render um lucro muito maior. Se estiver tudo bem por você, Diana. Dei de ombros, a presença de Victor não faria diferença alguma… Meia hora depois, estava mordendo minha língua. Um Victor sem camisa, com água borrifada em seu peito nu para parecer gotas de suor e com um short vermelho me circulava no ringue. O ambiente era diferente do nosso treino usual, não havia um grosso quimono de tecido trançado para esconder o homem por trás do treinador. E ali era o meu território, não um tatame no chão. Para um judoca, ele até tinha um bom posicionamento de pugilista. — Já treinou boxe? — perguntei, baixinho, uma vez que o diretor disse para ficarmos à vontade. — Apenas por diversão. — Ele testou a distância entre nós com um jab de direita. Não precisava de um espelho para saber quão predatório meu sorriso estava. Era a minha oportunidade de dar o troco nele por todas vezes que me derrubou. — Ótimo, não seria justo de outro modo — disse e ataquei. Jabs curtos para nos aproximar, Victor desviava como podia, mas não era rápido suficiente. Ele tentou me acertar também, porém sua postura era inadequada, com a guarda baixa, digna de um iniciante. Aqui é boxe, e eu mando! Afastei, circulando meu alvo. O canto de sua boca se levantou em um esboço de sorriso. Ele estava gostando daquilo tanto quanto eu. A Pata do Sul — meu famoso soco de esquerda — encontraria um novo lar na cara de Victor e… — Corta! — o diretor gritou. — Preciso que ele avance mais. Nós dois estávamos muito próximos e ofegantes. Lutar sempre me excitava, e pelo brilho no olhar de Victor, ele também estava empolgado. Foi quando tive uma ideia! Ele era o mestre no judô, e eu no boxe, o ponto forte de um era a fraqueza do outro, e isto tornava as coisas mais interessantes. — A gente pode fazer uma luta mista? — sugeri. — Não ficar restrito ao boxe? McAvon levantou uma sobrancelha: — Vocês podem? Virei-me para Victor, questionando se ele concordava. Um aceno de cabeça foi a sua resposta. As luzes esmaeceram, a penumbra sendo cortada pelos holofotes em nós. Nós nos tornamos presa e predador, em busca de vantagem, do ataque perfeito. Sua guarda continuava baixa, Victor podia saber dar um murro, mas não tinha técnica. Se já socou alguém, foi fora do ringue. Mesmo sem técnica no boxe, eu sabia o quanto ele era bom no judô, além de ser muito maior e mais forte do que eu. Para ganhar, eu precisava derrubá-lo de maneira rápida e certeira. Nós circulamos um ao outro, e voltei a usar jabs rápidos para medir a nossa distância. Precisava ser o ideal para um cruzado, mas não perto o suficiente para ele me agarrar. Avancei de forma agressiva, ele iria recuar e tudo acabaria em menos de um minuto! O mundo, contudo, balançou por um segundo, e eu ouvia um zunido no lado direito do ouvido. p**a merda! Victor se moveu muito rápido para o seu grande corpo, mostrando a agilidade de campeão. Eu não sabia de onde tinha vindo o chute em minha cabeça, porém estava feliz por não ter beijado a lona. Aquele era truque que Victor me ensinaria depois! Recuei com cautela. A luta poderia ser encenada para as outras pessoas presentes, mas não para nós dois. E ele me pagaria por aquele chute dos infernos! Sentindo o gostinho da vitória, Victor se empolgou, desferindo socos aleatórios e desconexos. Era fácil desviar deles, um dia eu o ensinaria a lutar. Enquanto pensava nisso, entretanto, não percebi seu passo a mais em minha direção. Perto… Victor estava perto demais. Antes que eu pudesse me afastar, ele fez um clinch, uma mão em minhas costas e a outra imobilizando meu braço esquerdo. Ah, droga! Isso não! Podia sentir seu quadril se encaixando na lateral, pronto para me projetar ao chão. Mil contragolpes passavam pela minha cabeça, mas nenhum se encaixava na situação atual. “Se você não conseguir se livrar do clinch, aproxime-se mais...”, Victor disse uma vez, “A ponto do seu adversário não ser capaz de aplicar o golpe, e depois você se solta.” Lembrei-me de sua aula e o abracei pela cintura, colando nossos p****s e barrigas. Suas costas — úmidas de suor e da água borrifada — estavam deslizantes, e eu o apertei com mais força. A única barreira entre a parte superior do nosso corpo era a minha fina roupa desenhada pelo patrocinador. Ele não soltaria de mim, tinha mais chances no clinch do que afastado. Passei meus cotovelos por sua barriga e empurrei com força seu tronco, garantindo que o antebraço direito acertasse sua garganta. Victor não teve outra opção a não ser recuar. Eu não podia bobear de novo. Decidida, avancei com diretos de direita e esquerda, que Victor defendia como podia, meio atrapalhado. Um dos diretos, contudo, acertou o seu queixo, fazendo-o cambalear. Era a oportunidade de ouro! E ninguém pararia a Pata do Sul daquela vez, o cruzado de esquerda o atingiu em cheio, levando um atordoado Victor ao chão. Não satisfeita — e porque o diretor permanecia calado — montei nele, sentada em seu abdômen. Mais alguns socos, e ele não acordaria tão cedo. Levantei o punho fechado e desci — como ele havia feito comigo semanas atrás — parando tão perto de seu rosto, que eu podia sentir o calor emanando de sua pele. Eu não podia acreditar! E nem Victor, se considerar seus incrédulos olhos arregalados. Satisfação dominou suas feições, finalmente eu o tinha dominado, e ele estava feliz por isto, pela aluna que começava a aprender. Eu me encontrava extasiada, dominada por um prazer incrível. Naquela posição, montada em cima dele, queria encurtar a distância entre nós, saber se seus lábios tinham o sabor tão doce quanto o gosto da vitória. Como se pudesse ler meus pensamentos, Victor inclinou-se para frente, ainda grogue do meu soco. Minha mente estava dominada pelo homem em meus braços. Os aplausos de McAvon seguidos ao “corta” do diretor quebraram a magia. Afastei-me de Victor como se sua pele fosse fogo. Esse era um jogo perigoso, e me envolver com Victor era colocar o coração e a carreira em uma balança, correndo o risco de ver os dois despencarem em um abismo sem fim. Não havia espaço ou tempo para erros. Mas e se Victor não fosse um erro? Uma mão forte segurou meu cotovelo: — Eles estão chamando a gente para as fotos — o homem que perturbava minha mente falou. Fotos? Com Victor, num desfile de roupas de academia? Eu deveria ter planejado melhor antes de aceitar a sugestão de McAvon. As três horas seguintes foram uma sucessão de toques e pele contra pele: ele sentado com uma anilha de ferro, eu em pé, um braço em seu ombro; Victor segurando protetores, e eu fingindo atacar; nós dois apoiados um no outro, de costas e de frente, entre tantas outras poses imaginadas pelo fotógrafo. Pior ainda eram as individuais, quando eu, protegida nos bastidores da sessão, podia observá-lo livremente, ou com nossas posições invertidas, e eu não parava de sentir seus olhos em mim. Teria que dividir um quarto de hotel com ele e, pelos ingressos entregues por McAvon, ainda teria um show para ir. Honestamente, eu estava desesperada. Não porque temia me divertir com ele… Mas porque meu corpo implorava por isto!  
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