Capítulo 7 — Made in Brasil

2621 Palavras
Quando finalmente fomos liberados das gravações, já estava escuro do lado de fora, e eu estava faminta. Pelo ronco alto do estômago de Victor, não era a única. — Vamos jantar? — perguntei, já abrindo o aplicativo do mapa no celular para escolher o local. — Mila fez uma reserva para mim, disse que eu precisava comer lá. — Ele deu de ombros. — É um local de comida brasileira, mas a gente pode ir para outro lugar, se você quiser. Eu já tinha comido em churrascarias brasileiras antes e sabia quão delicioso poderia ser. Aceitei sem pensar duas vezes. Não era na Strip, a rua principal de Vegas, então pegamos um Uber para chegar mais rápido. O Texas di Brazil tinha uma fila de espera até para aqueles com reserva. Era um restaurante enorme, com a fachada decorada com grandes retângulos de borda preta e fundo bege e iluminada por holofotes. Demorou uns vinte minutos para a hostess nos receber, indicando o caminho. Ela era muito atenciosa, porém quando reconheceu Victor, ficou atenciosa até demais. Eu adoraria saber o que conversavam entre risos e gracejos, mas eles estavam bem à vontade em sua língua materna, e eu não entendia nada. — Eles têm um serviço de buffet vegetariano self-service e o rodízio de carnes, como no Brasil! — Victor exclamou, animado, quando a hostess se afastou. Seu rosto se iluminou de empolgação. — Sente muita falta do Brasil? — questionei, querendo conhecer mais dele. Um simpático garçom bilíngue nos trouxe pratos e uma mesinha circular, onde o espeto do churrasco era apoiado e a carne cortada na hora. Eu achava tão estranho e saboroso ao mesmo tempo, já que meu conceito de churrasco era salsicha e hambúrguer assado no quintal de casa. Nós nos servimos de arroz e legumes no grande balcão de mármore e porcelana, que ficava no centro, indo de ponta à ponta do restaurante. Vasos de flores e candelabros pendiam de um teto pintado de vermelho e com vigas de madeira à mostra. Victor respondeu minha pergunta apenas depois de termos voltado à mesa: — Sinto muita falta de lá, dos meus amigos, principalmente do meu sensei. Ele era como um segundo pai para mim. Um sorriso despontava no canto de sua boca, parecia ter muito carinho pelo homem, apesar de nunca ter falado nele antes. Na verdade, eu que nunca havia perguntado. Jamais procurei conhecer quem era Bersanni até aquele momento. — Ele sabia do doping? — Eu me arrependi da pergunta assim que ela escapou da boca. Victor cerrou os lábios em uma linha fina, mas por sorte fui salva do momento constrangedor quando um garçom apareceu com um enorme espeto de ferro cheio de carne. O homem nos serviu dois cortes finos para cada, e a expressão fechada de Victor desapareceu assim que ele cortou um pedaço e levou um garfo com arroz, feijão e carne à boca. Eu estava presenciando um orgasmo gastronômico. Victor fechou os olhos e mastigou com prazer, um pequeno “hummm” escapou de sua boca, com deleite. — Quer um momento a sós com sua comida? — Tentei não rir, mas falhei. Quando provei o meu pedaço, compreendi o motivo da comoção. Era macio e suculento. — Desculpe, a comida de vocês é boa, mas não é como a nossa. — Ele passou o polegar no canto da boca e lambeu. De repente, senti sede. Pedimos caipirinha, uma bebida muito forte, com limão, que lembrava os mojitos e que era mais servida em restaurantes brasileiros. Victor voltou a falar quando o garçom se afastou da mesa: — Respondendo à sua pergunta, o meu sensei foi um dos poucos a me compreender e a não julgar. Estava tão distraída com a refeição, que havia esquecido da pergunta constrangedora. Era a primeira vez depois de tanto tempo que ele respondia a uma pergunta direta sobre o passado. Seus olhos concentrados nos meus me desafiavam a continuar. — Você parece bem em relação a isso… — Eu nunca recuava diante de um desafio. — O que você esperava? — Ele largou o garfo, me observando. — Eu fiz besteira e assumi as consequências, simples assim. Nunca era simples assim, sempre havia algo a mais. O fornecedor do esteroide, o tipo usado, o motivo e até a contestação do exame… Mas nada disso saiu na mídia. Era, no mínimo, suspeito. — Alguém te obrigou a usar? — perguntei enquanto o garçom colocava o copo longo cheio de líquido transparente, gelo e limão. Provei um gole, e a bebida desceu queimando pela garganta. Com minha alimentação regrada, beber não era algo que eu fizesse com frequência. — Estamos em Vegas e você quer falar sobre drogas? A gente pode conversar sobre coisas chatas ou beber, comer e ir assistir ao show que a hostess indicou — Victor sentenciou. — Ah, então era sobre isso a conversa? Indicações de lugares para ir? Achei que estavam se conhecendo ou marcando um encontro… — Eu me calei antes de falar demais. Victor inclinou a cabeça para o lado, uma sobrancelha levantada: — Por que eu sairia com ela se estou aqui com você? — Ela é muito bonita… — A conversa estava seguindo um rumo inesperado quando tomei um gole grande da bebida e meus olhos lacrimejaram. Uau! Eu estava esperando um: “você também é” para massagear meu ego, porém a atenção de Victor havia retornado ao prato. Não o enchi mais de perguntas, terminamos a refeição conversando sobre McAvon e a luta do dia seguinte, em quem achávamos que sairia vencedor. Depois do jantar delicioso, partimos para o tal show recomendado pela garçonete. Quando eu vinha a Vegas, geralmente ficava no rua principal, onde os turistas se aglomeravam entre shows, lutas e cassinos. Eu não ia na antiga Vegas há muito tempo. A Freemont Street ficava no centro da cidade, e era o local dos cassinos originais, mais antigos, porém igualmente grandiosos. A rua iluminada por milhares de letreiros multicoloridos, no melhor estilo de Vegas, estava lotada e possuía um teto de LED que se estendia por sete quadras, ao ar livre e gratuito. Um show de rock passava no telão acima de nossas cabeças. A música nos envolvia, e algumas pessoas mais audaciosas andavam de tirolesa perto do teto. Qualquer lugar era um bom lugar para assistir ao espetáculo de cores e luzes. Victor estava encantado, e logo ele correu para a tirolesa, querendo ir também. Eu o segui, o álcool de três caipirinhas me fazendo esquecer o leve medo de altura. Curtimos o show enquanto esperávamos na fila, meu pescoço doía de olhar para cima. Victor se aproximou mais, e eu terminei apoiando minha cabeça em seu ombro, as costas contra o seu peito duro. A música, o álcool, o clima e as bilhões de luzes não eram tão inebriantes quanto o cheiro e o calor de Victor. Eu me perdi na sensação do subir e descer de seu peito, a cada respiração tomada. Suas mãos se apoiaram em minha cintura, os dedos enterrando em minha pele. Senti o mesmo quando estávamos no ringue, uma necessidade de ter sua pele sob os meus dedos, de colocar a mão em seus cabelos e unir nossas bocas. Ele se inclinou, os lábios quase tocando minha orelha, e a respiração provocando meus nervos sensíveis: — É a nossa vez… Não sei se era impressão minha ou se as mãos em minha cintura demoraram mais do que o necessário. Inebriada, subi na tirolesa. Victor, um desconhecido e eu descemos amarrados por cordas. Estiquei os braços, gritando alto, com as pernas balançando no ar, e tentando alcançar o luminoso teto. Quando olhei para o lado, Victor não prestava atenção no show acima ou nas pessoas abaixo, ele só tinha olhos para mim. Por que a vida precisava ser tão injusta? Todo homem bonito deveria ser também honesto. Assim, as mulheres poderiam se apaixonar sem medo de ter o coração partido. E caras como Victor Bersanni, que um dia foram perfeitos, não deveriam ser tão atraentes. Uma barriga rechonchuda ou talvez uma meia careca que tentava esconder com poucos fios restantes de cabelo para combinar com a carreira decadente. Então seria mais fácil se manter afastada e indiferente. Descemos da tirolesa, e o fôlego ainda estava preso em meus pulmões. Minha mente embriagada só conseguia pensar no calor do corpo de Victor me envolvendo quando ainda estávamos na fila. Ele, por sua vez, se concentrava em soltar as amarras de sua cintura enquanto uma simpática mulher me ajudava com a minha. — Cassino? — Eu o convidei. Tinha duas opções: ir para o cassino e apostar dinheiro até o álcool sair do meu corpo e eu ser capaz de pensar claramente, ou permanecer ali e apostar a minha boa convivência com Victor, após eu atacá-lo em público. Ele franziu o cenho e verificou a hora no relógio: — Tem certeza? Vamos perder os ingressos que o McAvon me deu se não voltarmos para a Strip agora. Se em um show de rock em ambiente aberto e iluminado eu não conseguia escapar do magnetismo de Victor, como seria em um local fechado e com uma música mais quente? As luzes acima de nós mudaram, o show acabou, e o telão mostrou arabescos aleatórios com o horário da próxima apresentação. Não havia desculpas, como perder ingressos caros que foram parte do pagamento de Victor pela propaganda? Sorri e pedi um copo de água no restaurante mais próximo, precisava tirar a tequila do meu corpo.   ∞   Ah, f**a-se! Eu tentei, juro que tentei! Tentei ser uma pessoa centrada, focada apenas no trabalho, na luta e nos treinos. Por anos fui assim. Não tive rebeldia na adolescência, não quando liberava toda a raiva e estresse de garota jovem nos ringues. Boa filha, boa irmã e boa esportista. Mas eu estava em Vegas com um homem lindo ao meu lado, vendo outro maravilhoso rebolando e cantando em cima do palco, me falando sobre “viver a vida louca”. Aceitei mais um dos tubetes de tequila oferecidos gratuitamente. Pois é… Minha determinação de fazer o álcool sair do meu sistema evaporou assim que entramos na casa de show e vi a tequila em finos tubos de ensaio multicoloridos sendo distribuídos por garçonetes de collant preto. Apesar de algumas pessoas estarem sentadas em mesas ou nos bancos à beira do bar, a maioria não conseguia ficar parada. Inclusive eu. Victor parecia um guarda-costas, com seus enormes braços cruzados e a presença sólida atrás de mim. O sorriso no canto dos lábios e a cabeça balançando para cima e para baixo, em uma tentativa de acompanhar o ritmo, eram as únicas indicações de que ele curtia o show. Eu, por outro lado, balançava os meus quadris, deixando a voz de Ricky Martin me guiar. Antes de me tornar uma lutadora profissional, mamãe me colocou em aulas de dança. Eu deveria ter algum talento — além de saber esmurrar pessoas —, para mostrar ao público em concursos de miss. Não que eu tenha concordado em participar de algum. Com a grande influência latina em Phoenix, a minha professora era especialista em salsa e dança mariachi, as primeiras que aprendi. Passos de balé nunca me conquistaram, eu gostava de mais movimento e agitação. O calor fez o meu pescoço suar, e eu, de olhos fechados, levantei os cabelos com uma das mãos. Senti uma respiração em minha nuca e percebi que Victor estava mais perto. Porém, quando abri os olhos, havia um homem em frente a mim. De corpo esguio e um sorriso fácil no rosto, ele estendeu a mão e falou em um sotaque carregado: — Uma bela dama não deveria dançar sozinha. — Ele olhou para Victor, que realmente estava muito próximo. — Se o seu namorado não se importar. — Não sou o namorado dela — Victor respondeu antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Ele tinha razão, porém eu podia sentir como seus olhos não perdiam um único movimento meu, apesar de não fazer nada a respeito. E eu queria que ele fizesse. Ansiava pelo seu toque, mas Victor era tão controlado! Um homem no comando de suas funções. Aceitei a mão do desconhecido, afinal um pouco de provocação não faria m*l a ninguém… Além disso, provocação ou não, eu queria me divertir. O homem — Ferdinando — era um dançarino de belos olhos azuis e cabelos longos e funcionário do cassino. Assim como as garotas distribuindo tequila, sua função era garantir a diversão dos convidados VIP. Olhei para a pulseira rosa neon, que eu pensara ser apenas para facilitar nossa entrada, sem precisar de filas e dar acesso às mesas na área superior. Deveria ter imaginado que os ingressos do Senhor McAvon não seriam comuns. Eu amava Vegas! Eles pensavam em tudo! O homem me rodopiou, mostrando sua habilidade como condutor. Em suas mãos, voltei a ser bailarina, girando e dançando sem parar. Eu não me divertia assim desde a minha festa de comemoração após as olimpíadas, quando fui a um bar mexicano com meus amigos. Assim como fazia no ringue, me esqueci de Victor ou das pessoas ao meu redor, me concentrando apenas em meu parceiro. Balancei os braços, os ombros e os quadris, e ele me girou e inclinou até eu quase tocar o chão. Uma música acabava, outra começava e ainda estávamos embalados um no outro. Ferdinando era muito profissional e não tentou nada inapropriado. Na terceira canção, ele parou e se curvou, agradecendo a dança. Uma bandeja, com os tubos de tequila presos a um pequeno carrossel de madeira, pairou em frente a mim. Peguei um e sorri para a robusta loira, virando um deles e já devolvendo o tubo vazio antes que ela pudesse partir. Mãos fortes seguraram minha cintura com um pouco mais de possessividade do que quando me apoiei em seu dono mais cedo, durante o show na Freemont Street. Victor se inclinou, o rosto em minha orelha. — Não tenho palavras para definir como foi assistir você dançando... — Sua voz era como um sussurro rouco, dizendo um segredo só para mim. A música agitada deu lugar a uma mais romântica.  Virei-me para ele, passando os braços ao redor do seu pescoço. Tentei me mover ao ritmo da canção, mas por ser uma balada mais lenta, nós praticamente apenas balançávamos para um lado e para outro. Notei que Victor ficava com o corpo mais relaxado no tatame do que na pista de dança. — Pensei que todo brasileiro soubesse dançar… — Eu o provoquei. — Nem todos nascem com samba no pé. — Uma das suas mãos subiram pelas minhas costas, deixando um rastro quente que ia da minha cintura até a nuca, onde seu dedo fazia círculos lentos em minha pele, por baixo dos meus cabelos. — Talvez seja por isso que me mandaram embora do Brasil. Eu ri, era a primeira vez que ouvia uma piada — ou, ao menos, a tentativa de uma — de Victor. Seus olhos fitaram os meus lábios, e ele me puxou para mais perto ainda, a ponto do meu tronco encostar em seu peito. Tão perto, que quando eu olhava para cima, e ele para baixo, respirávamos o mesmo ar. — A televisão americana pode estar errada sobre o Brasil, mas tem uma coisa sobre os Estados Unidos que aparece em diversos filmes e que é verdade. — O quê? — Seus olhos brilharam de curiosidade. Eu me estiquei e foi a vez dos meus lábios tocarem sua orelha. Podia sentir cada ponto onde os nossos corpos se uniam e m*l conseguia me controlar. — O que acontece em Vegas, fica em Vegas.  
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