Sair do quarto foi uma tarefa árdua, então jantamos por lá mesmo e nos atrasamos para a a******a do evento. O Extreme Fight Showdown ou XFS, como costumavam chamar, era gigantesco, maior do que qualquer campeonato de boxe que eu já havia participado.
O octógono ficava no centro da arena, e eu era incapaz de mensurar quantas pessoas preenchiam aquele lugar. As luzes, o clima, a agitação… Sentia-me em casa. Victor segurou minha mão enquanto andávamos para os nossos lugares, perto de onde a ação aconteceria.
O card preliminar — um conjunto de cinco lutas com aqueles que sonhavam melhorar sua posição no ranking — começara um pouco antes da nossa chegada. Sentamos a tempo de ver um russo peso-g**o ser nocauteado com um gancho de direita no queixo.
O vencedor foi anunciado com vigor pelo juiz, que levantou o braço do vencedor, a luva ainda manchada com o sangue do oponente. Urrei junto com a plateia. Eu precisava retornar ao ringue, sentia falta da adrenalina causada pela competição!
Luta após luta, eu e Victor analisávamos os movimentos de cada oponente. Era quase como aquela noite, meses atrás, quando Victor foi para a minha casa e mostrou alguns golpes interessantes usados por campeões. Ao vivo era muito mais empolgante. Além disso, no escuro do cinema, e sozinha com ele, eu provavelmente me distrairia com outras coisas.
— Ali, ele está se preparando para um uchi-mata… — Victor chamou minha atenção para o movimento que um lutador sueco fez, em um relativamente novato americano, O’Brian, ao travar o lutador pelas costas, usar o quadril de alavanca e levantar a perna para desequilibrar.
Observei o movimento, e como Victor havia previsto, o golpe foi aplicado, levando o oponente ao chão.
— O’Brian deveria ter travado a base e aplicado o tani otoshi como contragolpe — comentei, e Victor sorriu, sabendo que eu estava certa. — Ele precisa ficar de pé logo ou vai ser finaliza… — Não consegui terminar a frase, o confronto terminou com um mata-leão antes que se completasse três minutos do primeiro round.
— É tão estranho... — Victor disse, meio distraído, o olhar voltado para o perdedor, que tentava se levantar, ainda zonzo pela diminuição do fluxo sanguíneo para a cabeça. A plateia gritava agitadamente para o campeão.
— O que é estranho? — questionei.
— Passamos meses nos preparando, anos treinando, dedicamos nossas vidas e horas a um propósito: lutar — ele respondeu com ar de devaneio. — No final, não passa de apenas alguns segundos de glória esplendorosa ou fracasso total.
Ele tinha razão, já vira embates terminarem em menos de um minuto. Se fosse uma pessoa durona, poderia durar no máximo quinze. Uma carreira decidida em um ínfimo espaço de tempo. No entanto…
— No ringue, três minutos parecem uma eternidade. — Dei de ombros.
O tempo era relativo e tudo dependia do ponto de vista.
— Tem razão. — Ele se aproximou, me beijando perto da orelha. Sua barba de um dia fazia pequenas cócegas contra minha pele. — Acho que temos uns quinze ou vinte minutos antes de começar o card principal. Quer alguma coisa? Estou com sede.
Balancei a cabeça para cima e para baixo.
— Sim, uma água seria bom.
Ele se levantou, prometendo voltar logo. Fiquei observando o pessoal da limpeza higienizar o octógono para a o evento com os lutadores ranqueados. Alguém sentou ao meu lado, e eu estava prestes a avisar que o lugar estava ocupado, quando o som morreu no fundo da minha garganta.
Com um imponente porte físico, apesar da idade, Josh “The Decalion” Dreston estava voltado para mim, com olhos astutos traindo o sorriso amigável em seus lábios. O grande alemão! Rival eterno do meu pai, aquele que testemunhei a queda perante os socos do Machine Gun quando ainda era uma criança. E o vi cair de novo todas as vezes que pedia uma revanche.
— Boa noite, Diana. — Sua voz era cordial, um cavaleiro revestido de músculos e sagacidade.
Ele ainda me deixava nervosa, como se mantivesse o poder de tirar tudo aquilo que meu pai lutou tanto para conquistar. Respirei fundo, sabendo que o Decalion jamais poderia fazer isso.
Ele nunca conseguiu quando ambos eram oponentes de ringue, imagina agora, que não tem nenhum poder.
— Boa noite, senhor Dreston — respondi. Ex-rival ou não, eu nunca era a primeira a atacar. Fora dos ringues. — Veio apreciar o show?
Ele se recostou na cadeira, ficando confortável no assento de Victor.
— Sim, mas eu sou primordialmente um homem de negócios.
— Achei que fosse um lutador aposentado — rebati.
O sorriso amistoso mudou para um completo, até se transformar em uma gargalhada. Meu nível de desconfiança atingiu um nível estratosférico. Nunca antes este homem veio falar comigo.
— Sou muitas coisas, dentre elas o responsável por um showdown especial. — Ele tirou um cartão timbrado da parte interna do terno. — E tenho uma proposta para você.
Showdown especial? Que p***a era aquilo?
— Não estou interessada, mas obrigada. — Relutante, aceitei o cartão.
— Eu ouvi rumores que você queria sair do boxe e até tinha contratado um treinador brasileiro. Quando te vi entrar com o Bersanni, soube que era verdade. — Ele cruzou os braços. — Estou enganado? Talvez esteja mais interessada em dormir com ele do que ser uma lutadora de artes mistas e...
— Se eu fosse você, tomaria muito cuidado com as suas próximas palavras — Victor disse em um tom mais alto do que o normal. Ele estava parado atrás de Dreston, e pela garrafa de água sendo amassada em seu punho, não se encontrava nada feliz.
Dreston se levantou e, perto de Victor, não parecia tão grande quanto eu me lembrava. Os dois homens se encararam por diversos segundos, um embate sem palavras. Decalion foi o primeiro a ceder e estendeu a mão para Victor.
— É um prazer finalmente conhecê-lo. — O judoca não moveu um músculo para retribuir o cumprimento, o que não intimidou o pugilista veterano. — Não precisa ficar nervoso, garoto. Como eu dizia para a Clark, tenho uma proposta de negócios, uma que envolve vocês dois.
Eu podia ver uma veia saltar na têmpora de Victor. Ele estava tão tranquilo perto de Dreston quanto eu.
— Não sou um garoto — Victor desviou o olhar para mim, e eu balancei a cabeça para os lados, mostrando que não estava interessada. Ele continuou a falar quando o apresentador do evento começou a anunciar o card principal: — Viemos assistir ao evento e nada mais.
Josh Dreston fez algo que jamais o vi fazer antes, se curvou levemente para cada um de nós:
— Como desejarem, mas se mudarem de ideia, não hesitem em me ligar.
Ele saiu, e Victor sentou ao meu lado. Aceitei a garrafa de água, tomando um gole imenso. As lutas recomeçaram, porém eu me sentia incapaz de prestar atenção. Minha mente estava concentrada em qual proposta o Decalion poderia ter.
— Você acha que era blefe? — Victor, pelo jeito, também não parava de pensar no velho lutador. — Eu te vi tensa e ouvi o que ele falou, fui logo sendo hostil.
Segurei sua mão.
— Não sei… Ele e meu pai não são oponentes há décadas, talvez a rixa agora só exista na minha cabeça. — Suspirei, passando o dedo pelo papel timbrado do cartão de Decalion. — Talvez eu só o esteja julgando, como fiz com você.
Victor deu de ombros, e terminamos de assistir o evento. Ainda comentávamos sobre as lutas e golpes, mas ambos sabíamos que nossas mentes estavam no estranho encontro com o alemão.
∞
Tentamos jogar pôquer e Black Jack, arriscamos a sorte nas roletas e máquinas caça-níquel, até nos perdemos um pouco na dança e doses de Martini ou uísque. Foi divertido, mas a verdade era que a gente desejava estar em outro lugar, um bem mais privado, porém tentávamos não ser como dois coelhos enlouquecidos por sexo.
Ao menos eu tentava, já que me sentia um tanto viciada em Victor, em seu cheiro, na sagacidade, o beijo apaixonante, corpo de atleta e em como ele fazia eu me sentir desejada. Quando suas mãos encontravam minha pele. A forma como Victor me tocava era quase uma reverência, como se eu fosse especial. Preciosa para ele.
— A quem estamos enganando? — Abracei Victor por trás, enquanto ele acionava mais uma vez a alavanca da máquina engolidora de dinheiro. — Vamos logo para o hotel!
No visor do caça-níquel, as diversas frutas desenhadas começaram a rodar. Victor pousou sua mão em cima da minha e a apertou de leve.
— Ainda bem! Estava quase abrindo falência… — Ele se virou para me beijar quando o barulho de diversas moedas caindo chamou nossa atenção.
Victor tinha acertado o jackpot, pena que era em uma máquina que não pagava muito. A expressão de felicidade dele, entretanto, era de quem tinha acabado de ficar milionário.
— Eu ganhei alguma coisa? Nunca ganho nada fora do ringue! — Victor exclamou enquanto enchia os bolsos com suas preciosas pratas. Comecei a ajudá-lo, jogando tudo dentro da minha bolsa, mas não conseguia parar de rir do seu entusiasmo. Ele me puxou pela cintura e beijou o meu pescoço. — Pode escolher o que quiser, tenho tantas moedas quanto o tio Patinhas! Quer ir a um show ou torrar tudo no cassino? Talvez fazer aquele passeio panorâmico de helicóptero pela cidade? O céu é um limite de trezentos dólares em moedas de dez cents.
Passei os braços ao redor do seu pescoço, o prêmio momentaneamente esquecido.
— Só o que quero é você.
O brilho no olhar dele era mais intenso do que segundos antes, quando ganhou no caça-níquel.
— A mim, você tem… E de graça — declarou.
Voltamos para o hotel ainda rindo de suas piadas sobre riqueza e assim que entramos no saguão do Luxor um estranho, vestindo um terno preto bem cortado, nos abordou. Seus cabelos penteados à perfeição e roupa formal conferiam a ele um ar de empresário, mas parecia muito jovem, m*l tinha completado vinte anos. Olheiras avermelhadas e uma certa palidez denunciavam o quanto ele desejava dormir.
— Diana Clark? — Sua voz era firme e escondia bem o cansaço da aparência. — Tenho um documento que deve ser entregue à senhorita em mãos.
Ele abriu a maleta de couro marrom e de lá tirou um grosso envelope pardo. Olhei desconfiada, já imaginando quem seria o remetente.
— Você trabalha para o Decalion? — questionei, irritada.
O homem era persistente e chato.
— Sim, senhorita. — Ele fez uma pequena mensura. — Comecei mês passado, tem sido uma honra.
Suspirei pesadamente, me recusando a pegar a encomenda.
— Eu já avisei ao seu chefe que não estou interessada em sua proposta.
O sorriso morreu no rosto do rapaz, dando lugar a um semblante consternado. Ele abriu e fechou a boca, sem saber o que falar. Seguido de conformismo, o abatimento nublou suas feições, e, cabisbaixo, ele fez menção de guardar o envelope dentro da pasta. A mão de Victor, que não tinha saído da minha cintura, deu um leve apertão. Quando o encarei, ele apontou com a cabeça para o envelope, me incentivando a aceitar. Ora, que lutador de coração mole! Podia ver pela sua expressão que Victor estava com pena do jovem.
Eu também estava, porém minha vontade de ficar longe do Decalion era maior. No entanto, o garoto podia perder o emprego. Assim estendi a mão.
— Me dê a droga do envelope, mas diga ao seu patrão que minha resposta é não.
Ele, com mãos trêmulas, agradeceu efusivamente, antes de me passar a papelada e sair do hotel como se estivesse pegando fogo, provavelmente com medo de que eu mudasse de ideia.
No elevador, o silêncio imperava, como se eu segurasse alguma bomba-relógio prestes a explodir. Pelas horas seguintes, lemos e relemos cada linha escrita naqueles papéis. O sol raiou, levando a noite embora e trazendo os nossos últimos momentos em Vegas.
Estava na hora de voltar para casa, e eu me sentia incapaz de encontrar outros motivos para dizer não ao Decalion, além de não confiar nele.
Ao contrário do meu pai, que depois da aposentadoria se estabeleceu no Arizona e lá ficou, Josh “The Decalion” Dreston continuou perto das grandes ligas e trabalhou em alguns eventos, na maioria das vezes como comentarista. Com sua boa aparência, fama e ótima lábia, o XFS o convidou para o seu novo programa televisivo, o Rookie Fight Showdown, ou RFS. Um reality show com lutadoras que nunca estiveram em uma liga de arte marcial mista.
No programa de televisão, cada lutadora poderia levar sua própria equipe técnica, além de treinar com alguns especialistas convidados. Eu precisaria me mudar para Nova Iorque ou ficar indo para lá com uma frequência imensa. Seríamos pagas de acordo com a quantidade de semanas que conseguíssemos nos manter dentro do show, passando pelas etapas eliminatórias.
E o prêmio? Um contrato milionário com a XFS, além do reconhecimento, marketing e porcentagem em todos os produtos envolvendo a marca. Chegava a salivar com a quantidade de patrocinadores interessados em ter o meu nome atrelado a sua marca durante o programa. Não tinha opção mais perfeita! Eu poderia lutar e treinar, sem ficar tanto tempo longe de competições oficiais.
Victor me passou a carta escrita na torta caligrafia do Decalion.
Diana, minha história com seu pai é passado. Da minha parte, não tenho nada contra ele ou qualquer m****o da sua família. Entretanto ter você no programa causaria um certo burburinho na imprensa. Tenho acompanhado à distância a sua carreira e sei do que você é capaz. Essa é uma ótima oportunidade, imagine a filha do Machine Gun no programa do Decalion! Você seria uma estrela maior do que já é.
Seja esperta e pense melhor antes de me falar não. Se não for por você, pense na oportunidade que isto pode ser para o Bersanni e para o restante da sua equipe. Aguardo sua decisão final.
Josh Dreston.
— Quanto você confia na sinceridade desse cara? — Victor questionou.
Dei de ombros, exausta, após a noite insone. Até horas antes, a taxa de confiança nele era praticamente nula. Minha absoluta certeza de sua má intenção esvaía a cada segundo. Ter Diana Clark no show realmente chamaria a atenção, e marketing gratuito sempre seria bom.
E ainda tinha o Victor… No envelope havia também um contrato para ele atuar como técnico do programa, com um salário muito maior do que o oferecido por nós na academia.
Em rede nacional — e internacional —, eu e Victor lançaríamos nossas novas carreiras como lutadora de artes mistas e treinador de judô, respectivamente. Era quase bom demais para ser verdade.
— Não sei, preciso da opinião do meu pai… — finalmente respondi a pergunta. Engoli em seco um bolo que se formou na garganta antes de voltar a falar: — Mesmo que eu não vá, você deveria ir como treinador do show. É um dinheiro que não podemos pagar, fora a visibilidade para a sua carreira e…
Victor se ajoelhou na cama, ao meu lado. Suas mãos foram para cada lateral do meu rosto, e eu me vi perdida na profundeza de seus olhos.
— Pouco me importa a fama ou o dinheiro! Vim para os Estados Unidos por sua causa, acha que iria te abandonar na primeira oportunidade? Principalmente depois dos dias que tivemos aqui em Vegas?
Eu queria dizer que não. Berrar a plenos pulmões o quanto desejava que se eu ficasse em Phoenix, ele permanecesse lá comigo. Contudo seria injusto e egoísta tal pedido.
— Não quero te prender a mim… — Minha voz m*l passava de um fio fino.
Em seu rosto surgiu um sorriso enorme, capaz de espantar o aperto em meu coração.
— Tarde demais, já estou preso a você. Mas sou um prisioneiro voluntário.