Victor Bersanni era um campeão nacional de judô quando conheceu a prima da sobrinha do cunhado do amigo de seu sensei. A garota tinha uns dezoito anos e ficaria uma semana no Rio de Janeiro antes de passar as férias no nordeste. Era algo normal vir um lutador de fora para um treino especial em um dos mais proeminentes dojos de judô da cidade maravilhosa.
O que impressionou Victor em relação à novata não era sua força ou agilidade, mas sim o local no qual ela tinha aperfeiçoado tais habilidades: a academia Machine Gun. Eles saíram para uma volta pelo calçadão de Copacabana após o treino. Victor queria saber mais sobre as pessoas que admirava à distância, vislumbres de terras estrangeiras e uma vida diferente. As luzes da cidade e dos postes iluminavam a areia amarelada e os prédios das mais variadas cores. O vento refrescante balançava as folhas dos coqueiros e fazia Mila Mathias se encolher em sua blusa fina.
Ela sorriu, envergonhada por não ter trazido um casaco, e agradeceu quando Victor ofereceu o seu. Achava que o “Rio quarenta graus” valia para todas as épocas do ano, se esquecendo que poderia fazer bastante frio, principalmente à noite. Mila o olhou de soslaio, o rapaz era bonito. Muito bonito. O porte atlético, os olhos expressivos e os cabelos quase dourados encantariam qualquer um que pusesse os olhos nele.
Exceto ela.
Quatro anos antes, quando ainda era praticamente uma menina, seu coração havia sido arrebatado. Depois que conhecera Derek Clark, todos os outros eram comparados a ele. Victor, por mais lindo que fosse, era alto demais, sem os olhos azuis como o céu e o cabelo da cor errada. Ele não era Derek. Ninguém era. Como o seu amor nunca a tinha visto de forma romântica, estava casado e com uma filha linda, Mila se dedicou ao esporte, curando o coração partido ao quebrar o rosto de outros.
Ela gostava de Victor, entretanto. Havia uma aura cercando o judoca que a deixava confortável. Era como se uma parte primitiva sua soubesse, por instinto, que ele era uma boa pessoa. O tipo de homem que jamais se forçaria a uma mulher. Victor era um defensor, um herói sem a necessidade de usar máscara e capa.
E quando ele a questionou com curiosidade sobre os Clark, ela, que geralmente resguardava a privacidade da família que a acolheu como amiga, revelou mais do que pretendia. Contou anedotas e outras histórias engraçadas, peculiaridades que não eram noticiadas nos programas de televisão. A vida de uma família unida pelo amor e por esporte.
Ele sorvia cada gota de informação como um bêbado em abstinência. Era fã desde pequeno do Machine Gun e, por conseguinte, admirava sua filha. Para Victor, eles eram como astros da televisão, vistos através de uma tela, inalcançáveis. Até Mila Mathias humanizá-los, pessoas de carne e osso, cheios de vida.
Victor Bersanni estava encantado com aquelas histórias que enchiam seu imaginário.
Anos depois daquele passeio na praia com Mila, ele m*l lembrava de Diana Clark, Machine Gun e nem mesmo do dojo. Estava tão afundado na autopiedade, que evitava tudo dos tempos de glória. Até seus ídolos. Por um tempo, seu refúgio era estudar e malhar, porém não adiantava mais. Estava formado, com um diploma emoldurado na parede e as anilhas de ferro no chão. Junto com a medalha, perdera a bolsa-atleta e os patrocinadores. O dinheiro começava a acabar, e o que ele tinha talvez não fosse suficiente para montar a academia que desejava e nem se sustentar enquanto ela não rendesse dinheiro.
Além do mais, Victor não tinha certeza se haveria alunos interessados em aprender algo com ele. Todos tinham virado as costas. O único que não virou, seu sensei, Victor precisou se afastar. Não queria sujar o seu amado e renomado antigo dojo. Não sabia o que fazer, até que uma ligação o mostrou que tinha uma luz no fim do túnel que sua vida se transformara.
Mila Mathias não esquecera dele.
Nos Estados Unidos, Victor encontrou uma segunda chance, um recomeço. Algo o perturbava, contudo. Diana Clark achava que era capaz de esconder seu desprezo, mas estava enganada. Todas as vezes que ela baixava a guarda e era amigável com Victor, algo dentro da garota mudava, como se um interruptor tivesse sido apagado, e ela ficava fria e distante. Às vezes, Victor enxergava desejo em seus olhos azuis, mas eram momentos raros e passageiros.
Victor era capaz de perceber quando Diana se lembrava de que ele era indigno.
O tempo passou, e ele estava acostumado a pensar em Diana no silêncio do seu apartamento. Antes a admirava como filha do Machine Gun e pugilista de respeito, mas logo não pôde negar que estava fascinado por ela. Victor a desejava como um homem deseja uma mulher. Ele queria senti-la, fazê-la gemer e se deliciar com o seu corpo.
Resignado ao seu destino de desejar, mas jamais ter, Victor procurava respostas nas garrafas de cachaça. A primeira tinha sido um presente de Mila. Ela comprara em uma loja de sua prima, que vendia apenas produtos brasileiros. Foi seu presente de boas-vindas: uma sacola parda com um litro de cachaça e um quilo de feijão ensacado, nada da porcaria enlatada que vendia nos supermercados americanos.
Ele estava na terceira garrafa, consumidas ao longo de quatro meses, um recorde para alguém disciplinado como Victor, quando percebeu que talvez o desejo que Diana arduamente tentava esconder pudesse se tornar algo mais. Vegas foi a oportunidade perfeita, não havia melhor lugar para quebrar barreiras do que a cidade do pecado.
O primeiro dia em Las Vegas foi maravilhoso: lutar com Diana, vê-la relaxada e brincalhona, depois quase ciumenta com a garçonete, apoiando-se nele sem receio, antes da tirolesa. E no show... Ah, o show! Victor achou que enlouqueceria se a visse rebolar por mais tempo. E quando ela dançou sensualmente com outro homem, seu sangue ferveu. Ele precisava beijá-la, mesmo que fosse demitido depois. Naquele instante, a necessidade se sobrepôs à sensatez.
Ela estava embriagada, e ele também, ambos intoxicados de álcool e luxúria. Uma paixão avassaladora os impulsionando por mais e mais. A noite inteira ele a venerou com seu corpo e, ao acordar, estava feliz, observando-a dormir tranquilamente. Pela primeira vez, percebeu que em nenhum momento do dia anterior Diana o havia olhado com asco.
Victor estava feliz, e o fantasma do doping, exorcizado de seu coração.
Ele saiu do banheiro para encontrar o quarto vazio. Ela tinha ido embora, junto com sua esperança de uma vida sem sombras. Quando voltou, Victor não suportou o arrependimento e a vergonha no olhar de Diana. Era o fim.
Victor não poderia voltar a fingir. Ele estava apaixonado por Diana Clark, um sentimento muito maior do que a admiração de fã que ele sentira pela Red Rose. Não conseguiria mais treiná-la, seria impossível tocá-la e não se torturar com o desejo latente. Por isso ele partiu. Suas pernas o levaram para o mais longe que podiam. Até que a fonte do Bellagio chamou sua atenção, a calmaria das águas antes do espetáculo dançante, em oposição à ebulição confusa de pensamentos que Victor se tornara. E lá ele ficou, um brasileiro em solo americano, desempregado e com um futuro sem rumo.
Ele seguiria em frente e mudaria de novo, como já fizera antes. Talvez até abandonasse a ideia de ser um treinador, Victor passava a crer que ninguém jamais o respeitaria. Mas o que faria da sua vida? Judô era o que ele conhecia. O velho desejo pela luta voltava a crescer em seu peito, em uma ânsia por mais do que levar os outros à vitória.
Ele, que venceu tantas vezes, sentia-se como um perdedor. Victor não gostava de se sentir assim, não era de sua natureza.
A vibração do seu celular o despertou dos devaneios. Diana. Áudios grandes. Victor debateu se deveria ou não ouvir. Seriam ofensas ou desculpas esfarrapadas, e ele não tinha certeza de qual seria pior.
A curiosidade o venceu, no entanto, e ouviu o inesperado: Diana Clark se importava com Victor Bersanni mais do que tinha demonstrado e por muito mais tempo do que alguém jamais desconfiara. Eles eram como dois lados de uma mesma moeda, divididos e unidos pela honra, glória, esporte, desejo e prazer.
Quando as águas da fonte se elevaram em sua dança sincronizada, Victor entendeu o que Elton John queria dizer naquela música.
A vida era maravilhosa agora que Diana estava em seu mundo.