Capítulo 9 — Por ele

2802 Palavras
Há alguns momentos na vida em que a gente se pergunta como tudo pode afundar tão rápido e fica pensando qual foi o seu primeiro erro. Através da janela, encarei o local onde Victor esteve pela última vez antes de desaparecer nas ruas de Vegas, torcendo para que aquele pequeno ponto na calçada me desse a solução para os meus problemas. Teria sido quando falei demais no primeiro dia dele na Academia? Ou em algum treino? Quando o convidei para viajar só comigo? Não… E não foi ontem à noite também. Talvez tenha acontecido quase dois anos antes, do outro lado do oceano, em outro continente... Eu não podia continuar me enganando e fingindo que não o conhecia. Sem pensar duas vezes, calcei meus tênis, vesti a primeira roupa que encontrei e saí correndo, precisava encontrá-lo! Não havia desculpas para o quanto eu o julguei baseada apenas em um único erro. Entretanto eu ia pedir seu perdão. Faria o que fosse preciso. Mesmo que ele não quisesse mais nada comigo, pessoalmente ou profissionalmente. Era o mínimo que eu poderia fazer. No caminho, liguei para Mila e fiz um resumo do que aconteceu. Nunca a vi tão revoltada comigo. Primeiro por não ter falado das minhas desconfianças sobre a relação dela com Victor e, depois, por ter dito tudo que falei para ele. Em meio à bronca, pedi que tentasse descobrir aonde ele tinha ido. Eu estava apostando no aeroporto, mas suas malas permaneciam no quarto, e ele tinha seguido a pé pela Strip. Parei no ponto da calçada em que estive observando momentos antes. Era quase a hora do almoço, e as ruas estavam lotadas de pessoas indo e vindo. Encontrar Victor seria como buscar uma agulha no palheiro. Os famosos cassinos pareciam amontoados, próximos e quase sufocantes, um ao lado do outro na famosa avenida. Mas era apenas uma ilusão causada por seus tamanhos grandiosos. Continuei andando, quase atropelando as pessoas que estavam paradas, observando os shows gratuitos ao ar livre ou qualquer outro entretenimento que Vegas pudesse oferecer. Opções não faltavam, e Victor poderia estar em qualquer uma delas. As horas passaram com a culpa me corroendo. Talvez eu devesse ter ficado no hotel, ele poderia ter voltado, e eu não saberia. Contudo não conseguia permanecer entre os lençóis, que ainda estavam impregnados com o nosso cheiro. Sentada no bar de um dos cassinos — não me dei ao trabalho de observar qual —, pensei no passado, nas olimpíadas. Era ali que tudo havia começado. Victor não atendeu minhas ligações, e Mila não me passou nenhuma notícia dele. Talvez, entretanto, ele ouvisse uma mensagem de voz. Encarei sua foto sorridente no celular, respirei fundo antes de apertar o botão do microfone e comecei a falar: — Você não quer conversar comigo e talvez delete esta mensagem antes de ouvi-la por completo, mas peço que não o faça. Apenas me escute. Eu estava lá, Victor, nas olimpíadas, quando você ganhou a medalha. A sua luta foi um dia antes da minha, eu estava muito ansiosa e com receio, sabia que a minha oponente era forte e tinha mais experiência que eu. Ela já era medalhista olímpica, e eu fiquei nervosa. Engoli em seco e soltei o dedo, vendo o pequeno círculo verde girar enquanto o áudio carregava. Aquela era uma confissão que eu não havia feito a ninguém. Papai, Derek, Mila, nem mesmo o meu imprestável namorado na época, Noah… Ninguém sabia disso, dos meus medos. Voltei minha atenção para o líquido vermelho em meu copo, vendo o gelo boiar no suco de cranberry enquanto lembrava daquele dia e contava um resumo para Victor. — Nas últimas semanas de olimpíadas, me sentia angustiada no calor sufocante daquela cidade litorânea. Era abafado, como se estivesse em uma panela de pressão. Muito diferente do calor seco do Arizona! O suor ensopava minha pele, fazendo meus cabelos grudarem no pescoço. Faltava menos de vinte e quatro horas para a luta pela medalha, e o técnico da seleção de boxe me mandou descansar. Enquanto enviava as mensagens de voz para Victor, lembrei-me com clareza daquela dia: Como não haveria treino, deveria permanecer na concentração. No entanto, avisei que ia passar a tarde com meu pai, que estava hospedado em um hotel próximo. Eu realmente ia, porém desisti. Queria ficar sozinha. Em vez disso, comprei um dos últimos ingressos para assistir a disputa da medalha de ouro de judô. Sentei na arquibancada do enorme ginásio, entre centenas de pessoas das mais diversas nacionalidades. Quando cheguei, a disputa pelo bronze ocorria no enorme tatame azul. Respirei fundo, soltando o ar pelos pulmões. Esqueci do calor, do suor e da apreensão. Aquele era o meu ambiente, onde eu me sentia em casa, junto com os torcedores e sua vibração. Não importava muito com quem ganhasse, eu estava lá, gritando com a plateia. Durante o intervalo, desci para comprar água e foi quando meus olhos se cruzaram com um homem de quimono. Foi só um breve segundo, o suficiente para ver como ele ficava lindo em sua concentração. Não havia traço de receio ou determinação em suas feições, apenas uma calma de quem tinha convicção da vitória. O homem se virou, e eu pude ver a bandeira do Brasil com o nome Bersanni nas costas do quimono. Tinha certeza que ele não havia me notado, provavelmente não percebia nada ao seu redor, estando focado apenas na luta que se seguiria. Voltei para a arquibancada e, na disputa pelo ouro, havia um favorito: o lutador brasileiro de olhos penetrantes. Fiquei encantada com a fluidez que ele lutava, parecia uma dança de passos ensaiados. Eu já tinha vontade de participar de uma luta mista, sair da minha zona de conforto do boxe. Ver aquele homem no tatame fez com que algo dentro de mim despertasse. Meu sorriso foi imenso no momento da vitória dele. Era como se a vitória tivesse sido minha. A minha admiração por ele se transformou em decepção quando soube dos primeiros rumores sobre o doping, antes mesmo de Victor ter perdido oficialmente a medalha. Meu coração se encheu com um irracional e avassalador sentimento de traição ao ver a imagem do ídolo se estilhaçar perante mim. A pessoa que me acalmou um dia antes da competição mais importante da minha vida estava sendo apedrejada, e eu fui mais uma a lançar pedras. E continuei a fazê-lo por tanto tempo, que parecia natural e certo. Apesar dos meses convivendo junto e sabendo que além do evento que culminou na perda de medalha, Victor nunca mostrou nenhum sinal de desonestidade. É difícil confiar em um estranho que traiu aquilo que eu defendo. Eu sempre deduzi o tipo de homem que ele era e não me permiti enxergar além disso. A ele, nunca dei o benefício da dúvida. O símbolo ao lado das minhas mensagens de voz enviadas para Victor começaram a acender, um a um, tornando-se azuis. Ele estava ouvindo. A última vez que fiquei com o coração tão acelerado de ansiedade foi quando os juízes estavam decidindo quem ganhara uma das minhas lutas. A expectativa só aumentou quando ele começou a gravar a própria mensagem. E como se o destino desejasse que a minha vida tivesse trilha sonora, uma música de Elton John passou a ser tocada em alto-falantes na rua. Quando finalmente chegou aquilo que eu esperava, coloquei o telefone junto ao ouvido para escutar a grave voz de Victor. — Não sei o que pensar de sua mensagem, você me surpreendeu. Talvez a gente devesse… — Sua voz foi cortada pelo início da música Your Song. Ele tentou falar algo a mais, porém eu não conseguia entender. A mesma canção que eu ouvia baixinho, ele estava escutando em um volume alto. Procurei o robusto barman e praticamente me joguei em cima do balcão para chamar sua atenção. Eu deveria parecer uma louca desvairada, perguntando de onde vinha a música. Ele me olhou meio de esguelha e explicou que era do Bellagio. Claro que era de lá! Corri para o lado de fora e, um quarteirão à frente, o imponente Bellagio se sobressaía ao lado dos demais hotéis, com suas fontes de águas dançantes, reunindo uma multidão ao seu redor. Lindo, porém um problema. Por que em Vegas tudo precisa ser tão grandioso? Ele poderia estar em qualquer lugar no meio da multidão de espectadores! Tinha que pensar com clareza… Se não consegui entender sua mensagem direito, ele deveria estar perto da fonte. Recomecei a correr, quase empurrando as pessoas à minha frente. Eu só precisava de um pouco de sorte. Os jatos de água dançavam de um lado ao outro em sincronia com a bela canção romântica, e em um golpe de sorte, vi os castanhos e curtos cabelos se sobressaindo na multidão, devido à altura de Victor. E como se ele pudesse sentir minha presença, Victor se virou no momento em que Elton John cantava pelos alto-falantes sobre como a vida era maravilhosa quando a pessoa amada estava no mundo. Por um longo segundo, não soube o que fazer. Até ele abrir um sorriso mais luminoso do que todas as luzes de Vegas juntas. Joguei-me em seus braços, depois a gente poderia conversar. Naquele momento, eu só queria sentir o sabor dos lábios de Victor mais uma vez.   ∞   Se um artista pintasse um quadro meu naquele momento, ele retrataria uma mulher de vinte e poucos anos esparramada em um quarto de hotel com um lençol branco cobrindo parcialmente sua nudez, deixando os s***s à mostra. Mas, acima de tudo, retrataria a satisfação estampada na face. Victor sentou ao meu lado, os dedos frios por causa do copo gelado de água que estava segurando momentos antes escorregaram pela minha pele quente, deixando um provocante rastro por onde passava. — Você é linda. — Sua mão sorrateira continuava a descer pela minha barriga até alcançar a borda do lençol. Victor o puxou para cima, cobrindo meu corpo até a altura dos meus ombros. — Mas a gente precisa conversar, e se eu continuar te vendo assim, não vou resistir. Sorri, sabendo que ele estava completamente certo. O crepúsculo havia vindo e ido, as estrelas e a lua iluminavam a noite de Vegas, e ainda estávamos trancados no quarto do Luxor. Poucas horas antes, quando nos beijamos em frente às águas dançantes, decidimos ir diretamente para o hotel. Precisávamos de um lugar privativo para conversar. Quando passamos pela porta, entretanto, voltamos a ser corpo e sensação. A conversa já havia sido adiada por três rounds de sexo selvagem, e ainda teríamos que sair para assistir à luta. Sentei-me e vesti a camisa de Victor, que eu praticamente havia arrancado do seu corpo. — Sim, precisamos — respondi, mas não sabia por onde começar. Victor acariciou a lateral do meu rosto, colocando uma mecha errante de cabelo atrás da minha orelha, e seus lábios tocaram os meus em um beijo casto. Um gesto carinhoso antes de uma conversa séria. — Tudo aquilo que você falou é verdade? — ele perguntou, incerto. — Sim. — Encarei seus olhos, querendo mostrar que cada palavra emitida por mim era sincera. — Você foi marcante em um momento crucial da minha vida e nem fazia ideia. Sei que fui uma canalha nos últimos meses, porém estava sendo irracional. A testa de Victor franziu, mostrando um leve vinco entre os olhos. — Por que nunca disse nada, para mim ou para Mila? Você era um dos principais assuntos que eu conversava com Mila, queria te entender e quebrar esta animosidade entre nós, mas ela apenas insistia que você não era assim. Tantas coisas que deveriam ter sido feitas e não fiz... Eu não tinha um motivo plausível para explicar o meu silêncio em relação a Bersanni. Acredito que tenha sido um conjunto de decisões; primeiro para esconder minha escapada nas olimpíadas, depois por causa do doping. Ou sei lá... Não fazia ideia. — Eu tinha namorado na época, e a conexão inexplicável que senti por você me deixou… — Dei de ombros. — Com vergonha. Como se eu o tivesse traindo. O que é um completo absurdo, quando você nem notou minha presença. E depois, quando o doping surgiu, a admiração se tornou raiva. Desculpa… Victor se aproximou, apoiando as costas contra a cabeceira da cama. Eu me sentei mais perto, junto ao seu peito, em busca do seu calor. Ele passou um braço ao meu redor e beijou meus cabelos. — Não precisa se desculpar, não foi a única a ficar com raiva. Você me tratou muito bem perto de alguns que se diziam amigos, ou até mesmo fãs. Quer saber quantas pessoas acham que te conhecem? Faça alguma besteira, e vários surgirão para apontar o dedo e xingar. Sempre enfrentei esse problema de cabeça erguida, não podia permitir que as pessoas pisassem ainda mais em mim. — Victor suspirou, como se o cansaço de meses anteriores o tivesse atingido. — Você foi a primeira que me fez verdadeiramente desejar ser capaz de mudar o passado. Virei-me para ele e sentei em suas coxas, colocando uma perna de cada lado do seu quadril. A expressão de Victor era serena quando envolvi meus braços ao redor do seu pescoço e beijei seus lábios com delicadeza. Ele subiu as mãos pelas minhas costas nuas, prendendo meu corpo junto ao seu. Encostei minha testa à dele, e ficamos assim, abraçados e em silêncio. Não havia o que ser dito. Ambos tínhamos errado e decepcionado um ao outro, só poderíamos aprender com nossos enganos e seguir em frente, ou nunca funcionaríamos. Um dúvida, entretanto, permanecia em minha mente: por quê? Por que ele usou esteroides? — Eu gostaria de ter te reconhecido — Victor quebrou o silêncio. — Talvez uma parte de mim tenha visto você, mas estava concentrado demais na luta para de fato prestar atenção em qualquer outra coisa. Beijei seu rosto, deitando minha cabeça em seu ombro forte. — Como você saberia quem eu era? — questionei. — Eu era mais conhecida aqui nos Estados Unidos, principalmente no Arizona. Geralmente associada ao nome do meu pai quando faziam alguma reportagem sobre boxe. Meu nome passou a ser mais divulgado depois das olimpíadas. Do movimento quase preguiçoso que as mãos de Victor faziam em minhas costas, elas passaram a apertar meu quadril e coxas, subindo em provocação pelo meu abdômen até os s***s. Um suspiro escapou de mim ante a sensação de seus dedos pinçando meus m*****s intumescidos. Victor tinha um sorriso maroto no canto dos lábios, os olhos, porém, me observavam como um gavião. — Quando criança, eu era um fã do seu pai e queria ser boxeador como ele! Mas perto de onde eu morava tinha um projeto que ensinava judô para crianças carentes. Então acabei fazendo judô. Alguns anos atrás estava passando um especial sobre boxe na televisão e tinha uma entrevista com seu pai, ele falou de você com tanto amor e orgulho… Passei a seguir sua carreira, na maioria da vezes pelo site do Machine Gun ou por vídeos no YouTube. — Victor movimentou o quadril, e antes que eu percebesse, ele tinha me dado um golpe. Eu estava com as costas no colchão, e aquele homem maravilhoso estava sobre mim. — Antes de você achar que era minha fã — ele enfatizou a palavra com ar de riso —, eu já era o seu por muitos anos. Sem palavras. Era como eu me sentia. — Foi por isso que você veio para o Arizona? — Minha voz era quase um sussurro. Sentia o coração apertar enquanto aguardava a resposta. — Eu precisava sair do Brasil, mas, sim… Se fosse outro lugar e não a Academia Machine Gun, provavelmente não teria vindo para tão longe de tudo que me era familiar. Aquilo era insano! Talvez eu não estivesse tão louca quando imaginei uma conexão entre nós naquela quente tarde de sábado, anos atrás. O mundo era vasto e ao mesmo tempo tão pequeno. Quais eram as chances de o acaso nos unir assim? Minhas pernas o envolveram, e eu puxei Victor para baixo, de encontro a mim. Podia sentir sua dureza através do short fino. Mordi os lábios, encarando o único acessório presente em meu corpo: o relógio. Droga! Teríamos que nos apressar, ou perderíamos o início da luta. Foi a minha vez de aplicar um golpe e inverter nossa posição. Em tempo recorde, joguei Victor contra a cama, arranquei seu short e já estava rasgando o pacote de camisinha com os dentes. Ele riu da minha pressa, entretanto o riso morreu quando deslizei sobre sua extensão, sentindo-o me penetrar por completo. Entre gemidos e suspiros nossos corpos se fundiram, e eu mostrei para Victor o quanto estava feliz por ele ter decidido se mudar para o Arizona.      
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