Pré-visualização gratuita O Ritmo frenético da Rotina de Radassa.
O ar condicionado da diretoria da Avelar & Associados rugia em um zumbido constante, mas nem o frio artificial conseguia suavizar o calor daquela manhã de terça-feira. Na mesa de Radassa, três telas cintilavam em uma sincronia caótica. À esquerda, uma planilha de projeções orçamentárias com mais de quatrocentas linhas; ao centro, a apresentação em slides que seria entregue ao conselho em menos de vinte minutos; à direita, uma cascata ininterrupta de notificações do Slack, e-mails urgentes e mensagens no w******p.
Radassa nem olhava para a xícara de café já frio ao lado do teclado. Seus dedos voavam pelas teclas em um ritmo metrenômico, corrigindo índices contratuais enquanto ajustava com o ombro o telefone celular preso à orelha.
— Não, Marcelo, o fechamento do terceiro trimestre não pode passar das seis da tarde — ela dizia, a voz firme, sem perder o tom aveludado, mas carregada de uma autoridade implacável. — Se o jurídico não validar a cláusula de rescisão até o meio-dia, nós perdemos a janela de assinatura e a fusão entra em risco. Cobra o parecer do Dr. Henrique agora.
Ela desligou sem esperar pela tréplica. Suspirou fundo, alinhando a postura na cadeira de couro. O terno azul-marinho impecável, o cabelo alinhado em um coque baixo e a maquiagem sóbria eram sua armadura diária. Para o mercado corporativo, Radassa era uma força da natureza; para quem olhava de perto, era alguém equilibrando pratos no topo de um mastro em plena tempestade.
A porta de vidro fosco da sala deslizou suavemente. Susan entrou sem bater, segurando duas xícaras fumegantes de café recém-passado e uma pasta de couro preta debaixo do braço.
A presença de Susan era o único elemento capaz de desacelerar o ritmo cardíaco de Radassa naquele edifício de trinta andares. A cumplicidade entre as duas não havia sido construída em manuais de recursos humanos, mas no fogo cruzado de reestruturações da empresa, madrugadas em claro revisando balanços e na capacidade única que tinham de ler os pensamentos uma da outra apenas pelo franzir de sobrancelhas.
— Você está respirando ou esqueceu como faz isso também? — Susan colocou a xícara de porcelana na área livre da mesa, afastando delicadamente a xícara fria.
Radassa soltou o mouse e cobriu o rosto com as mãos por três segundos, um privilégio que só se permitia diante de Susan.
— Acho que esqueci no momento em que abri os olhos às cinco da manhã e vi dezesseis e-mails com a marcação "ALTÍSSIMA PRIORIDADE" — murmurou Radassa, baixando as mãos e sorrindo fraco. — O conselho vai nos massacrar se os números da operação do sul não baterem.
— Os números batem porque fomos nós duas que revisamos ontem às dez da noite — Susan respondeu com uma calma magnética. Ela se encostou na borda da mesa, cruzando os braços. — O parecer do Henrique já está no seu e-mail. Eu passei na sala dele há dez minutos, peguei a assinatura física e mandei digitalizar. O Marcelo não precisa surtar, e você não precisa ter um colapso antes do almoço.
Radassa olhou para a amiga, um misto de alívio e admiração nos olhos.
— O que eu faria sem você, Susan?
— Continuaria sendo brilhante, mas provavelmente com uma úlcera — brincou Susan, piscando. — Beba o café. Temos sete minutos até a diretoria ocupar a sala de reuniões A. Eu já ordenei os relatórios dos conselheiros e alinhei o discurso com o CEO. Você entra com os dados pesados, eu faço a ponte estratégica. Como sempre.
— Como sempre — assentiu Radassa, pegando a xícara quente e sentindo o aroma encorpado reanimar seus sentidos.
Trabalhar lado a lado com Susan era ter a certeza de que nenhuma rasteira corporativa a pegaria de surpresa. Susan era o porto seguro na rotina frenética de Radassa; a pessoa que sabia exatamente quando intervir em uma reunião tensa com uma pergunta certeira, ou quando apenas colocar uma garrafa de água na mesa e sinalizar para que ela respirasse.
A reunião do conselho foi uma batalha tática de duas horas. Trens de perguntas afiadas foram arremessados pelos diretores tradicionais, mas Radassa e Susan operaram como uma engrenagem perfeita. Onde Radassa apresentava métricas irrefutáveis e projeções cirúrgicas, Susan costurava a narrativa corporativa, blindando a equipe e antecipando as objeções antes mesmo que fossem formuladas. Ao final da sessão, a fusão fora aprovada por unanimidade.
De volta ao corredor executivo, os passos das duas ecoavam em sintonia sobre o piso de mármore.
— Conseguimos — disse Radassa, desabotoando o primeiro botão do blazer assim que cruzaram a porta da antessala. — Aquela pergunta do Roberto sobre a margem EBITDA quase me fez perder a paciência.
— Mas você não perdeu — Susan sorriu, ajeitando uma mecha do próprio cabelo. — E a forma como você desmontou o argumento dele com o gráfico comparativo foi uma obra de arte. Adoro ver os conselheiros velhos engolindo a própria prepotência.
— Só deu certo porque você entrou no momento exato mudando o foco para o ganho de escala — Radassa encostou-se no batente da porta da sua sala, olhando para a parceira com gratidão genuína. — Vá almoçar, Susan. Você merece no mínimo duas horas de pausa.
— Vou tentar — disse Susan, o sorriso diminuindo ligeiramente enquanto o olhar baixava para a tela do próprio celular, que vibrava discretamente no bolso do casaco. — Mas antes... preciso dar uma palavra com o Sebastian.
A menção ao nome do filho fez o tom de Susan mudar imperceptivelmente. A executiva impecável e inabalável deu espaço para a mãe cujo coração parecia permanentemente dividido entre o peso do mundo corporativo e o abismo invisível que a separava das angústias do filho.
Radassa percebeu a mudança de ar imediatamente. Tocou o braço de Susan com carinho.
— Vá para a sua sala. Pegue o tempo que precisar. O resto da tarde está sob controle.
Susan agradeceu com um aceno de cabeça silencioso e caminhou até o seu escritório no final do corredor. Entrou, trancou a porta de vidro e acionou a película de privacidade que tornou o vidro opaco. O silêncio da sala pareceu subitamente pesado.
Ela caminhou até a grande janela panorâmica que revelava o horizonte de arranha-céus da cidade. Respirou fundo, buscando a voz firme que usara durante toda a manhã, e discou o número de Sebastian.
O telefone tocou uma, duas, três vezes. Quando ela achou que cairia na caixa de mensagem, a ligação foi atendida. O ruído abafado do outro lado denunciava um quarto fechado, com o som distante do vento ou de uma música baixa.
— Alô? — a voz de Sebastian surgiu, rouca, arrastada, densa de uma fadiga que não vinha do trabalho físico, mas do cansaço da alma.
— Sebastian? Meu amor... é a mamãe — Susan começou, o tom maternal transbordando, sem o tom imperativo do escritório. — Como você está? Conseguiu dormir um pouco?
Houve um silêncio prolongado do outro lado. Susan podia ouvir a respiração pesada do filho.
— Estou... empurrando, mãe. Como sempre — respondeu Sebastian, soltando um riso seco e sem energia. — Por que a pergunta? Aconteceu alguma coisa ou é só a sua checagem de rotina no meio da sua agenda lotada?
Susan sentiu uma pontada no peito, mas engoliu o abalo. Conhecia as defesas do filho.
— Não é checagem de rotina, Sebastian. É cuidado. Eu tentei falar com você ontem à noite e você não me respondeu. Fiquei preocupada. Você tomou os remédios nos horários certos? Comeu alguma coisa hoje?
— Mãe, por favor — a voz de Sebastian subiu um tom, carregada de uma irritação contida. — Eu tenho vinte e poucos anos, não sou uma criança que precisa de uma planilha para saber se comeu ou se tomou pílulas. Sim, eu comi. Sim, eu estou vivo. Isso responde ao seu questionário?
— Não se afaste de mim assim, meu filho — implorou Susan, aproximando-se do vidro da janela e apoiando uma das mãos nele. — Eu só quero saber como você está se sentindo. A sua voz está tão distante... parece que você está a quilômetros de mim, mesmo estando na mesma cidade. O que está acontecendo nessa sua cabeça hoje?
Um suspiro profundo e doloroso ecoou da linha de Sebastian. O tom defensivo começou a ruir, dando lugar a uma vulnerabilidade crua.
— O que está acontecendo é que eu não aguento mais, mãe — desabafou ele, a voz embargada. — Eu acordo e sinto um peso no peito que não me deixa levantar. Você olha para o mundo e vê metas, prazos, coisas para conquistar. Eu olho para o mundo e só vejo um barulho ensurdecedor que não faz sentido nenhum. Eu tento se encaixar, tento fazer o que você espera de mim, mas parece que estou sempre afundando.
— Querido... você não tem que provar nada para mim nem para ninguém — disse Susan, as lágrimas finalmente se acumulando nos seus olhos, a postura ereta de executiva desmoronando na solitude da sala. — Tudo o que eu quero é ver você bem, ver você feliz. Se o mundo parece pesado agora, nós podemos desacelerar. O que você precisa? Quer que eu vá até aí? Eu posso cancelar o restante dos meus compromissos da tarde, peço para a Radassa assumir e estou na sua casa em trinta minutos.
— Não! Não vem, mãe, por favor — pediu ele, quase em pânico. — Se você vier aqui com esse seu olhar de compaixão e desespero, eu vou me sentir ainda mais culpado. Culpado por não ser o filho forte que você merece, culpado por fazer você parar a sua vida perfeita para cuidar de um cara que nem sabe o que quer da própria vida!
— Não fale isso! Nunca mais diga isso! — Susan exclamou, a voz trêmula pela emoção. — A minha vida não é perfeita e nada do que eu faço naquele escritório tem qualquer valor se você não estiver bem! Você é a minha prioridade, Sebastian. Sempre foi. Se eu trabalho tanto, se eu corro tanto, é porque eu queria construir um mundo onde você tivesse segurança, onde nada te faltasse...
— Mas faltou você, mãe! — interrompeu Sebastian, e a palavra veio como uma lâmina afiada, cortando o ar da sala executiva. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Sebastian respirou fundo, tentando conter o choro antes de continuar, a voz falhando. — Faltou você estar presente sem estar pensando na próxima reunião. Faltou você me ouvir sem tentar 'resolver o meu problema' como se eu fosse um projeto da sua empresa. Eu não sou um problema para ser resolvido com uma estratégia ou uma consulta médica cara, mãe. Eu só queria a minha mãe... sem o telefone tocando do lado.
Susan fechou os olhos. As lágrimas escorreram livremente pelo seu rosto, borrando a maquiagem impecável. A dor daquela verdade crua atingiu o centro da sua alma. Todas as vitórias corporativas, os elogios do conselho e os bônus milionários pareceram poeira insignificante diante do abismo que se abrira na relação com o filho.
— Me desculpa... — sussurrou Susan, com a voz quebrada, sentando-se na poltrona da sua mesa e cobrindo a testa com a mão. — Me desculpa, Sebastian. Você tem toda a razão. Eu me escondi atrás do trabalho, achando que prover era o mesmo que amar. Eu falhei com você. Me perdoa... por favor, me perdoa.
Do outro lado da linha, o tom de Sebastian suavizou ao perceber o choro genuíno da mãe. A raiva que alimentava sua armadura se esvaiu, deixando apenas o cansaço mútuo.
— Eu não estou dizendo isso para te ferir, mãe — disse ele, baixinho. — Eu sei que você me ama. Sei que você faz tudo o que pode. É só que... às vezes eu me sinto muito sozinho. E ver você tão forte, tão inabalável em tudo o que faz, me faz sentir ainda mais fraco.
— Você não é fraco, meu amor — disse Susan, limpando o rosto com um lenço de papel, buscando forças na profundeza do seu ser para ser o pilar de que o filho precisava naquele instante, mas sem as máscaras do mundo corporativo. — Reconhecer a própria dor exige uma coragem imensa. Eu posso ter errado no passado ao não estar tão presente quanto você precisava, mas eu estou aqui agora. Não como a diretora da Avelar, não como a mulher atarefada. Apenas como a sua mãe. E eu não vou a lugar nenhum.
— Eu só quero que essa sensação vá embora, mãe... — confessou ele, a voz voltando a ser a de um garoto assustado. — Essa sensação de que nada do que eu faço tem sentido.
— Ela vai passar, Sebastian. Eu te prometo que vai. Mas nós precisamos atravessar isso juntos. Sem cobranças, sem prazos, sem expectativas. Apenas um dia de cada vez. Você aceita almoçar comigo hoje? Sem falarmos de futuro, sem falarmos de trabalho. Só nós dois?
Houve uma pausa longa do outro lado da linha. Susan segurou o fôlego, o coração batendo no peito como se aguardasse o veredito mais importante de sua vida.
— ...Tudo bem — respondeu Sebastian, soltando um suspiro longo. — Pode vir. Mas traz aquela torta de maçã da padaria perto do seu prédio. A que você comprava quando eu era pequeno.
Um sorriso rasgou o rosto banhado de lágrimas de Susan.
— Eu levo. Levo a torta inteira. Chego aí em trinta minutos, meu filho.
— Tá bom, mãe. Traz chave, eu não quero me levantar para abrir a porta agora.
— Pode deixar. Eu te amo, Sebastian.
— ...Também te amo, mãe.
A ligação foi encerrada. Susan permaneceu sentada por alguns instantes, o telefone colado ao peito, absorvendo o impacto de cada palavra dita naquela conversa. O ritmo frenético da empresa continuava do outro lado da porta — pessoas correndo, telefones tocando, prazos mudando —, mas para Susan, o tempo havia parado.
Ela se levantou, caminhou até o banheiro privativo do seu escritório, lavou o rosto com água fria e refez a maquiagem. A dor ainda estava lá, mas agora acompanhada de uma clareza absoluta sobre o que realmente importava.
Antes de sair, mandou uma mensagem rápida para Radassa: "Saindo para cuidar do Sebastian. Reunião das 15h é sua. Obrigado por ser meu porto seguro."
Segundos depois, a resposta de Radassa chegou: "Vá sem olhar para trás. Ele precisa de você. Eu seguro o mundo aqui até você voltar."
Susan pegou sua bolsa, a chave do carro e saiu, deixando para trás o ritmo frenético do mundo corporativo para resgatar o que havia de mais precioso na sua vida.