Dorian Vince
Desci da moto, ajustando os nós dos dedos com um estalo discreto, e caminhei em direção à academia de artes marciais. O cheiro de suor e couro surrado pairava no ar, misturando-se ao som dos golpes secos contra os sacos de pancada. Passei os olhos pelo ambiente, observando cada movimento dos lutadores enquanto seguia até o fundo, onde Cassian me esperava.
Ao me ver, seu rosto se iluminou em um raro sorriso. Ele avançou com passos firmes e me puxou para um abraço forte, acompanhado daqueles tapas nas costas que só um irmão de guerra sabe dar.
— Que bom te ver, Vince.
— Digo o mesmo, irmão.
Cassian recuou, cruzando os braços sobre o peito.
— E então? Como está a vida em Nova York?
Soltei um suspiro, desviando o olhar por um instante.
— Indo. Por enquanto. — Cruzei os braços, cerrando o maxilar. — Mas você sabe que essa cidade nunca foi pra mim. Estou aqui até conseguirmos limpar nossos nomes.
O semblante de Cassian esfriou. A realidade pesava sobre nós. Ele assentiu lentamente.
— Inclusive… consegui um informante. — Ele fez uma pausa, medindo minhas reações. — Vou encontrá-lo no fim de semana.
Ergui uma sobrancelha, sentindo a adrenalina correr nas veias. Uma pista. Um passo mais perto da verdade.
— Ótimo. Quero todos os detalhes.
Cassian sorriu de canto.
— Sempre.
Antes que pudéssemos continuar a conversa, o telefone de Cassian tocou. Ele enfiou a mão no bolso, puxou o celular e abriu um sorriso satisfeito antes de atender.
— Hola, hermano. — O tom animado e descontraído entregava que a conversa era em espanhol.
Observei em silêncio, já acostumado com isso. Quando o conheci no alistamento, me lembro de vê-lo falando uma língua que, na época, não reconheci de imediato. Depois descobri que seus avós eram mexicanos e haviam se mudado para os EUA anos atrás, mantendo vivas as raízes da família.
Convivendo com ele desde os dezoito anos, acabei pegando um pouco do idioma. Não era fluente, mas entendia o suficiente para captar o essencial de suas conversas. E essa, em particular, me pareceu interessante.
Pela seriedade em seu olhar e o tom preciso das respostas, deduzi que se tratava de um trabalho. Assim que desligou, Cassian ergueu o rosto para mim com um sorriso predador.
— Outro pacote. Dessa vez, vou com você.
Cruzei os braços, curioso.
— Quem é a "vítima" da vez?
Cassian deslizou o dedo pela tela do celular, lendo as informações.
— Um maldito estuprådor. Pegou a garota errada na saída de uma boate… — Ele fez uma pausa breve. — A filha de um senador. A menina estava de viagem e sofreu o abusö. O pai está oferecendo cem mil pela cabeça dele.
Cem mil dólares? Caralhø.
— Mexeu com a garota errada mesmo… — murmurei.
— E tem mais… — Cassian ergueu o olhar. — O desgraçado é líder de uma gangue.
— Não vai ser fácil, mas pegamos ele. — Minha voz saiu firme, sem hesitação.
Cassian assentiu, um brilho predador no olhar. Ficamos ali por mais alguns minutos, analisando os detalhes do serviço, discutindo estratégias, possibilidades. Cada peça precisava estar no lugar antes de fazermos qualquer movimento.
Depois, decidi que era hora de treinar. Manter o corpo afiado era tão essencial quanto manter a mira firme. Passei algumas horas no tatame, alternando golpes rápidos e precisos com Cassian, testando limites, aprimorando reflexos. Cada impacto, cada esquiva, fortalecia não só os músculos, mas também a mente.
Quando terminamos, trocamos um aperto de mão firme.
— Até breve. — Ele disse com um sorriso de canto. — Juízo!
— É o que eu mais tenho!
Subi na moto e segui para casa. A cidade ainda pulsava, o asfalto refletindo as luzes de neon dos prédios e placas comerciais. O ronco do motor era um som familiar, quase um lembrete de que eu ainda estava ali, respirando.
Ao chegar no prédio, estacionei no meu espaço habitual, retirei o capacete e subi para meu andar. O corredor estava silencioso, apenas o zumbido distante de uma TV ligada em algum apartamento quebrava a calmaria.
Girei a chave na fechadura, empurrei a porta e entrei no meu refúgio. Fechei atrás de mim, deixando o peso do mundo lá fora. Segui direto para o quarto, onde, sobre a mesa de cabeceira, um baseado já me esperava.
Peguei-o entre os dedos, acendi e traguei lentamente, sentindo a fumaça preencher meus pulmões. O efeito veio rápido, relaxando os músculos tensos.
No silêncio do apartamento, sozinho com meus pensamentos, a única certeza era que a noite ainda estava longe
Saí para a sacada, a brisa da noite trazendo um alívio momentâneo enquanto tragava o baseado. A fumaça se misturava ao ar, e eu aproveitei a vista da cidade, até sentir algo diferente—um arrepio sutil na pele, uma sensação de estar sendo observado.
Virei o rosto e encontrei aqueles olhos castanhos fixos em mim.
Minha querida vizinha estava ali, sentada na varanda, um copo de vinho equilibrado entre os dedos e um olhar de tigresa preso em mim. O vestido curto abraçava seu corpo, revelando coxäs nualäs que pareciam convidar o olhar, e droga… eu queria que aquele tecido subisse um pouco mais.
Ela não desviava o olhar. Nem eu.
Me encostei na grade, mantendo os olhos nos dela enquanto levava o cigarro até os lábios. Ela acompanhou o movimento, erguendo a taça de vinho e tomando um gole lento, como se cada gesto fosse calculado para provocar.
A tensão no ar se adensou, elétrica.
Então, como se soubesse exatamente o efeito que tinha sobre mim, ela cruzou as pernas com uma calma absurda. O vestido subiu o suficiente para que meu olhar fosse direto para sua pele exposta. Segundos. Foi o tempo que perdi nessa merda de distração.
O riso dela veio baixo, divertido. Satisfeito.
Ela havia ganhado na troca de olhares.
Porrä.
— Stella! — Uma voz feminina chamou de dentro do apartamento. — Seu celular tá tocando!
Stella. Então esse era o nome dela...
Ela se levantou devagar, sem pressa alguma, um sorriso convencido brincando nos lábios. Antes de desaparecer para dentro, jogou o cabelo para o lado, me olhou de novo e piscou.
Filha da putå gostosä.
Soltei um longo suspiro, sentindo meu sangue se acumular exatamente onde eu não precisava agora. Aquela maldita troca de olhares tinha me deixado atiçado, e a pior parte? Ela sabia disso.