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1094 Palavras
Aquele dia parecia interminável. Fui levada às pressas para o hospital, o som da sirene ecoando em minha mente, misturando-se à dor e ao medo que pulsava em meu peito. A sala de emergência estava fria e impessoal, com o cheiro estéril de álcool e medicamentos preenchendo o ar. Enquanto aguardava ser avaliada, minha mente vagava entre lembranças fragmentadas do ocorrido e uma sensação inquietante de vulnerabilidade. Médicos e enfermeiros circulavam ao meu redor, cada um com passos apressados e vozes firmes. Eles fizeram exames e asseguraram que eu ficaria bem, mas o eco das palavras "por sorte, apenas uma contusão" não parecia suficiente para acalmar o turbilhão em minha cabeça. Passei algumas horas ali, monitorada de perto. As paredes brancas e sem vida pareciam sufocar meus pensamentos. Finalmente, uma enfermeira de olhar gentil aproximou-se e explicou que eu logo poderia ir para casa, mas havia um detalhe que não podia ser ignorado: para assinar minha alta, alguém da minha família ou um responsável precisaria vir ao hospital. A notícia caiu sobre mim como um peso. Não poderia simplesmente sair sozinha e voltar ao meu mundo. Era como se, naquele momento, a liberdade estivesse condicionada a um vínculo, a uma conexão que eu temia não ser forte o suficiente para me resgatar. Com o celular tremendo em minhas mãos, percorri a lista de contatos. Meu dedo hesitou antes de apertar o nome de Nolan Bruno, meu marido. Eu sabia o que esperar, mas ainda assim, a esperança insistia em me fazer tentar. A ligação chamou... uma vez, duas, três... Nada. Liguei novamente, e outra vez, cada toque prolongando a angústia. Ele não atendeu. Com o coração apertado e a mente lutando contra a realidade que eu já conhecia, decidi tentar mais uma vez. Mas então, enquanto caminhava pelo corredor do hospital, algo prendeu minha atenção. A poucos metros de onde eu estava, através da pequena a******a de uma porta entreaberta, avistei Nolan. Ele estava ali, mas não sozinho. Ao lado dele estava Nancy, seus gestos eram suaves, suas mãos seguravam as dela com uma ternura que parecia um golpe direto no meu peito. Minha respiração ficou pesada, e um nó se formou na minha garganta. Por um instante, senti como se o chão tivesse sumido sob meus pés. A realidade atingiu-me com força: como eu poderia esperar que ele viesse por mim, quando, no incêndio, ele sequer olhou para mim? Ele já tinha escolhido Nancy. No momento mais aterrorizante da minha vida, quando o fogo ameaçava consumir tudo, ele não hesitou. Ele correu para salvá-la, deixando-me para trás, esquecida. E agora, ali estava ele novamente, reafirmando a escolha que já havia feito. Cada gesto, cada olhar trocado entre eles era um lembrete c***l de que eu não era sua prioridade, talvez nunca tivesse sido. A dor rasgava meu peito, e uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto. Destruída por completo, voltei para o meu quarto, abraçando a solidão que me envolvia como um manto pesado. A esperança que insistia em lutar dentro de mim agora estava quebrada, espalhada em pedaços que eu sabia que nunca conseguiria juntar novamente. Com lágrimas nos olhos, decidi que não iria mais esperar em um hospital até que Nolan lembrasse da minha existência. O peso da solidão e da dor parecia sufocar meu peito a cada segundo. Era insuportável permanecer ali, imóvel, presa naquela espera que parecia não ter fim. Levantei-me, tremendo, e fui até o armário onde tinha guardado minhas roupas. O cheiro familiar de tecido limpo me trouxe uma breve sensação de normalidade em meio ao turbilhão de emoções que me consumia. Peguei minhas roupas, vesti-me rapidamente, tentando conter o nó na garganta que ameaçava me derrubar. Cada peça que coloquei parecia uma tentativa de me reconstituir, como se a simples ação de me vestir fosse um ritual para recuperar alguma dignidade perdida. Não queria mais ficar ali, aprisionada entre as paredes frias do hospital e a lembrança constante de um coração que parecia não se importar com minha presença. Saí do quarto com passos incertos, meus olhos marejados e meu coração pesado. A passagem pelo corredor foi um verdadeiro desafio, como se cada passo fosse uma despedida de tudo aquilo que tinha me prendido naquele lugar. A esperança, embora frágil, parecia ter se dissipado em meio ao vazio daquele cenário. Meus pés me conduziram até a saída, e eu respirei fundo ao sentir o ar frio e puro tocar meu rosto. Estava livre, ou pelo menos tentando estar. Eu precisava ir para casa. Um banho demorado e relaxante seria o único remédio para tentar apagar as marcas da humilhação que aquele dia havia me trazido. O sentimento era como se eu estivesse carregando uma sombra que insistia em se fixar em mim, uma mistura de vergonha, raiva e frustração. Mas sabia que precisava encontrar alguma maneira de me reconstruir, de me reerguer após aquela experiência tão dolorosa. O caminho até casa foi longo, mas silencioso. Cada pensamento parecia um sussurrar incessante que me lembrava do que havia acontecido, mas eu me obriguei a afastar tudo isso. Quando cheguei em casa, deixei tudo cair em um só movimento: minha bolsa, minhas chaves, minhas preocupações. Corri até o banheiro, ajustei a temperatura da água para quente e deixei que o som do chuveiro se tornasse um escudo contra as lembranças. O vapor me envolveu, e naquele momento eu me entreguei. Deixei que as lágrimas se misturassem com a água, limpando não apenas meu corpo, mas também a dor que tinha me marcado tão profundamente. Fiquei ali por um longo tempo, sem pressa, como se aquele banho fosse um espaço seguro onde eu pudesse reencontrar a mim mesma, longe de Nolan, longe das expectativas, longe do peso de um coração que parecia tão distante. Não sabia se conseguiria esquecer tudo aquilo, mas pelo menos estava decidida a tentar. O ato de me permitir ficar naquele espaço por alguns minutos, sem pensar, sem me preocupar, foi um pequeno alívio para uma alma cansada. Talvez fosse isso: um momento para recomeçar, mesmo que devagar. Saí do banheiro, envolvida em uma toalha macia, e dei um suspiro profundo. O peso nos ombros parecia menor, mas ainda havia muito a processar. Aquele dia tinha me mostrado que, por mais que quiséssemos que as coisas seguissem um caminho previsível, às vezes a vida nos surpreende com dores que nem imaginávamos ser capazes de suportar. No entanto, eu estava ali, viva, com a força suficiente para tentar novamente. E talvez fosse isso que importasse no final: encontrar coragem para recomeçar, mesmo quando tudo parecia perdido.
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