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1116 Palavras
Depois do banho relaxante, que pensei que iria me ajudar a me sentir melhor, fui até a cozinha fazer algo para comer e preparar uma grande xícara de chá de camomila. O vapor quente e suave do chá parecia querer acalmar a tempestade que insistia em se formar dentro de mim. Cada movimento era automático, uma tentativa de preencher o vazio com uma rotina simples e reconfortante, mas algo na cozinha parecia estar adormecido, esperando o momento certo para me assombrar. Foi então que meus olhos caíram sobre uma foto. Estava ali, em meio a um cantinho na prateleira, guardada como uma lembrança qualquer. Era uma foto antiga, capturada no dia do meu casamento com Nolan. Olhei para aquela imagem e me senti paralisar por um momento. Aquele sorriso, aquele olhar, aquele sentimento que um dia havia sido tão puro e forte... Tudo voltou, e eu me perdi. Meus olhos se fixaram na foto como se tentassem buscar uma resposta em cada pixel, mas só encontrei memórias que me martelavam cada vez mais. --- Três anos antes... Eu estava completamente eufórica com a ideia de me casar com Nolan. O mundo parecia perfeito naquele momento, tudo planejado, tudo certo, tudo organizado para que eu tivesse a vida que sempre sonhei. Nolan era tudo para mim — um homem gentil, inteligente, lindo por fora e por dentro. Nossos corações pareciam estar em sintonia desde o primeiro olhar. As famílias se gostavam, se entendiam e, assim, acreditava-se que aquela união seria o início de uma linda aliança. Eu estava apaixonada e o casamento parecia o destino natural das coisas. Uma celebração do amor, da confiança e da promessa de uma vida inteira juntos. Era o que eu acreditava. E então, naquele dia, ao assinar os planos e selar tudo, eu nem hesitei em dizer sim. Sim, eu me casaria com Nolan. Sim, eu estava pronta para começar um futuro ao seu lado. Porém, o destino tinha um plano diferente para mim. Nolan não parecia tão animado com a ideia. Não da mesma forma que eu. Ele não tinha o mesmo brilho nos olhos, não compartilhava da mesma confiança que eu carregava no peito. Aos poucos, ele começou a se afastar, como se estivesse desconfortável com a situação toda. Não demorou muito para que eu descobrisse que ele tinha um receio, um pensamento que me cortou profundamente: ele acreditava que eu havia aceitado me casar com ele apenas por causa da situação financeira delicada da minha família. Para ele, eu era apenas uma interesseira disfarçada de romântica. Lembro-me claramente daquele dia, a sensação exata de estar em um corredor vazio, enquanto o coração parecia querer se desintegrar. Fui até ele com a esperança de desarmar qualquer dúvida, de provar que meu sentimento era real, que meu amor vinha de um lugar verdadeiro, puro e sem segundas intenções. Queria sentar com ele, conversar, abrir meu coração, como sempre fiz. Mas, ao me aproximar, ele me ignorou. Ignorou minhas palavras, ignorou minha presença. Era como se eu fosse uma sombra, algo sem importância. Foi uma dor indescritível. Eu tentei, em vão, buscar alguma explicação. Cada palavra que ele não me deu, cada olhar que desviava, se tornava uma ferida. Não bastava estar apaixonada, não bastava querer construir uma vida ao seu lado — o que eu sentia parecia ser em vão, pois Nolan parecia não querer nem mesmo olhar nos meus olhos. A confiança que tinha se escondeu em um canto obscuro do meu coração, e a dúvida plantou raízes que nunca mais sairiam. Seria eu mesmo culpada? Seria minha intenção tão frágil que ele conseguiu transformá-la em algo egoísta e c***l? A sensação de rejeição foi como um veneno invisível, um sussurrar constante que me fazia questionar tudo, até mesmo a mim mesma. E naquele dia, ao notar que ele me ignorou sem uma palavra, eu me senti perdida, como se tudo ao meu redor tivesse desmoronado. Eu levei minha xícara até a sala, sentando-me no sofá com a foto em minhas mãos. O chá estava quente, mas meu coração estava muito mais. A cada gole, eu sentia o peso da realidade, e aquele sentimento amargo parecia me sufocar. Não era apenas uma questão de amor, mas uma questão de questionamentos, de revirar memórias e pensar sobre onde eu havia falhado. Será que tudo poderia ter sido diferente se eu tivesse lutado? Se eu tivesse sido mais clara, se eu tivesse sido mais forte? Foi quando ouvi a porta se abrir. O som da chave girando e o ranger leve da madeira batendo foi suficiente para me fazer pular no sofá, sentindo meu coração acelerar. Não era hora para ele chegar, não era hora para aquele encontro. Mas ele estava ali. Nolan entrou em casa com aquele olhar firme, que eu conhecia bem. Sua postura era reta, seus olhos afiados e sua expressão impassível. Ele percebeu minha presença no sofá quase imediatamente. Seus olhos se fixaram em mim, e a voz firme e direta cortou o silêncio: — O que você está fazendo aqui a essa hora? — perguntou ele, com aquele tom que soava mais como um desafio do que uma simples pergunta. — Por acaso quer controlar a hora em que eu chego em casa? Fiquei imóvel. Cada palavra parecia pesar como chumbo em meu peito. Meu coração disparou, e a xícara de chá quase caiu das minhas mãos. A forma como ele me perguntou, como se eu fosse uma intrusa em minha própria casa, me deixou sem ar. Eu podia sentir o julgamento em cada sílaba, a desconfiança, a frieza. Ele parecia tão distante, tão inalcançável, que meu coração se despedaçou mais uma vez. Era como se ele soubesse exatamente o que eu estava sentindo, mas se recusasse a mostrar qualquer tipo de compreensão. Tentei formular alguma resposta, mas minha voz parecia presa. Cada palavra que poderia sair estava bloqueada, sufocada pela dor que parecia estar voltando com força total. Eu deveria ter uma resposta, deveria defender meu espaço, minha presença, mas estava tão abalada que só consegui ficar em silêncio, olhando-o. Ele suspirou, observando-me de péssima maneira, e a atmosfera na sala ficou ainda mais pesada. — Se quiser saber, não estou fazendo nada além de tentar seguir meu dia — murmurei, minha voz quase imperceptível. — Mas se você quiser que eu vá embora, é só dizer. Meus olhos se fixaram no chão. Ele ficou parado por um momento, a expressão dura, antes de se afastar para o outro lado da sala. O clima na casa parecia impossível de se corrigir, e eu me senti menor, como se cada esperança que eu tivesse um dia tivesse morrido naquele instante. O que seria de nós agora?
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