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1148 Palavras
Nolan subiu as escadas da nossa casa correndo, deixando-me para trás como sempre fazia. Mais uma vez, fiquei ali, parada, encarando o vazio, sentindo o peso da indiferença dele esmagar o pouco que restava do nosso casamento. A cada passo apressado que ele dava, parecia que algo em mim se quebrava mais um pouco. Por que ele não me vê? A pergunta ecoava na minha cabeça como uma acusação, mas, desta vez, eu não estava disposta a aceitar o silêncio como resposta. Olhei para o reflexo no espelho ao lado da escada, analisando cada detalhe da mulher que eu era. Eu sabia que era linda, desejável. Morena, com cabelos longos e lisos que deslizavam pelos ombros, corpo magro, mas com curvas que chamavam atenção onde quer que eu fosse. Meus olhos, que antes carregavam orgulho, agora só refletiam frustração e uma pontinha de desespero. Eu sou interessante. Eu sou gostosa. Como Nolan podia ser tão cego? Não era possível que ele não sentisse nada por mim, que ele não me desejasse nem por um segundo. A raiva misturada com um desejo de mudança me fez tomar uma atitude que eu nunca teria coragem de fazer em outros tempos. Se ele não vinha até mim, eu iria até ele. Respirei fundo e subi as escadas com passos determinados. O som do chuveiro ligado me guiou até o quarto, onde uma leve névoa de vapor escapava pela porta entreaberta do banheiro. Meu coração batia rápido, mas minha decisão era firme. Sem hesitar, comecei a tirar minhas roupas. Primeiro a blusa, depois a calça, até que tudo estivesse espalhado pelo chão. O ar fresco arrepiava minha pele, mas não era frio que eu sentia — era uma mistura de adrenalina e desejo. Abri a porta do banheiro lentamente, deixando o vapor quente me envolver. Ali estava Nolan, de costas para mim, com a água escorrendo pelos ombros, alheio à minha presença como sempre parecia estar. Mas, desta vez, eu não ficaria invisível. Entrei no boxe e, sem pensar duas vezes, o abracei por trás. Minhas mãos deslizaram sobre seu peito molhado, sentindo o calor da água misturar-se com o calor que ardia dentro de mim. Encostei meu corpo contra o dele, pressionando minha pele nua na dele, como se quisesse atravessar todas as barreiras que ele havia erguido entre nós. — Nolan... — murmurei, minha voz trêmula, mas carregada de emoção. — Eu preciso de você. Só por uma noite, esqueça tudo... esqueça o caos, esqueça a distância. Só me veja. Senti o corpo dele se retesar por um instante, como se estivesse tentando decidir o que fazer. O silêncio entre nós era ensurdecedor, o som da água m*l conseguia mascarar o peso do momento. Meu coração parecia prestes a explodir no peito enquanto esperava por uma reação, qualquer que fosse. Então, ele se virou devagar. Seus olhos encontraram os meus, e, por um breve algo brilhou ali — Não sabia se era desejo, raiva ou algo do tipo, mas por um breve momento decidi acreditar pelo menos uma vez que ele me veria como sua mulher e finalmente me tomaria em seus braços. Aquele momento não apagava tudo que ele havia feito eu passar em nosso casamento,mas talvez pudesse ser um recomeço para que nosso casamento fosse oficialmente de verdade! Por um instante, ele ficou imóvel, e uma pequena centelha de esperança acendeu-se dentro de mim. Talvez ele me respondesse, talvez finalmente me visse. Mas então ele se afastou bruscamente, virando-se para me encarar. Seus olhos estavam frios, duros como gelo. — Você acha que é isso que eu quero? — disse ele, com uma voz carregada de desprezo. — Não seja ridícula, Ines. O que temos aqui é um contrato, e nada mais. Não existe amor, desejo ou qualquer envolvimento entre nós. E não vai existir. Suas palavras foram como uma bofetada. O que restava de minha dignidade pareceu despencar naquele momento, mas, mesmo assim, eu insisti. Eu precisava dele. — Nolan, por favor... — implorei, minha voz trêmula, enquanto segurava o braço dele, tentando impedir que ele se afastasse novamente. — Me dê algo. Me dê um filho, pelo menos. Algo que seja nosso, algo que me dê um propósito no meio de tudo isso... no meio do vazio que você me deixou. Ele soltou uma risada seca, cheia de desprezo, e puxou o braço, livrando-se do meu toque como se fosse algo repugnante. — Um filho? — ele repetiu, com a voz carregada de sarcasmo. — Eu nunca teria um filho com você, Ines. Nem isso, nem qualquer outra coisa. Você não entende? Eu não quero você. Não como mulher, não como nada. Aquelas palavras me atingiram com a força de um golpe, deixando-me sem ar, sem chão. Eu senti minhas pernas tremerem, meu corpo inteiro enfraquecer. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, mas ele sequer parecia notar. Nolan saiu do boxe, deixando-me ali, nua, exposta, carregando o peso de uma rejeição tão absoluta que parecia impossível de suportar. Fiquei ali por alguns minutos, a água escorrendo sobre meu corpo como se tentasse lavar a humilhação, mas era inútil. Ele não me queria. Não como esposa, não como amante, não como mãe de seus filhos. E, mesmo assim, parte de mim continuava implorando por ele, por migalhas de algo que nunca viria. Eu não conseguia esperar mais. Logo fui atrás dele, com o coração batendo como se quisesse sair do peito. As coisas não podiam, de forma alguma, ficar assim. Aquela tensão, aquele silêncio carregado entre nós... Era sufocante. Eu precisava resolver isso, precisava contar a ele sobre o incêndio, sobre tudo o que aconteceu entre mim e Nancy. Quando finalmente o encontrei, ele estava de costas, o semblante cansado. Parecia exausto, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. Ainda assim, respirei fundo e chamei por ele: — Nolan, precisamos conversar. Hoje aconteceu algo... Ele suspirou pesadamente antes de se virar para mim. Seus olhos estavam sombrios, e seu tom foi duro como uma lâmina: — Ines, eu não quero saber. Estou exausto. Passei o dia todo salvando pessoas de um incêndio. Literalmente! — Ele enfatizou, como se isso fosse suficiente para encerrar o assunto. Senti um nó na garganta, mas me recusei a desistir. Precisava falar, precisava que ele soubesse. — Mas Nolan, é sério. Eu estava lá. Eu era uma dessas pessoas... Antes que pudesse continuar, ele ergueu a mão, cortando minhas palavras. Seu olhar frio me atingiu como um balde de água gelada, e suas próximas palavras foram como um soco. — Ines, eu não quero saber nem o que você almoçou hoje, muito menos qualquer outra coisa. Fiquei parada ali, encarando-o. As palavras que eu tanto me esforcei para encontrar pareciam se desfazer no ar. Meu coração apertou, não apenas pela frieza dele, mas pela forma como fui ignorada. Ele não sabia, e parecia não se importar em saber.
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