Nolan Narrando
O nojo que eu sentia por Inês era avassalador, algo que me consumia de dentro para fora. Não conseguia sequer ouvir sua voz sem sentir uma repulsa que me corroía. Como ela ainda tinha coragem? Logo hoje, depois de tudo o que eu passei, ela tentou mais uma vez se infiltrar na minha vida de forma asquerosa. Pela manhã, invadiu meu banheiro, implorando por algo que eu nunca lhe daria: sexo. E, como se não bastasse, teve o desplante de me pedir um filho. Um filho! Como se três longos anos de convivência forçada tivessem mudado algo dentro de mim. Nunca toquei nela, nunca quis, e certamente não seria agora que isso aconteceria.
Eu estava exausto, física e mentalmente. O dia inteiro me dedicando ao que realmente importava, salvando vidas, enfrentando o fogo e a fumaça, enquanto ela... Ela vinha me incomodar com suas mesquinharias, enchendo meus ouvidos com abobrinhas e dramas que eu não tinha paciência para ouvir.
“Nolan, hoje algo aconteceu. Preciso lhe falar, é algo sério...” Ela começou, com aquela voz tristonha que sempre usava quando queria chamar atenção, uma entonação carregada de falsidade e autopiedade.
Meu sangue ferveu. Não suportava aquela dramatização, aquela tentativa insuportável de se fazer vítima. “Olha, Inês, não quero saber de nada. Passei o dia inteiro salvando e arrastando pessoas para fora de um prédio em chamas,” respondi, com uma frieza que pretendia deixar claro o meu desgosto. Talvez assim ela desistisse de vez.
Porém, como sempre, ela insistiu. “Nolan, eu era uma dessas pessoas...”
Antes que pudesse concluir, eu a interrompi, sem qualquer traço de paciência restante. “Inês, eu não quero saber nem o que você almoçou, muito menos o que fez no seu dia.” Minhas palavras cortaram o ar como uma lâmina. Eu me levantei, decidido a sair dali, e deixei-a sozinha mais uma vez, exatamente como ela merecia.
Enquanto saía, o som de sua respiração pesada ficou para trás. Talvez ela estivesse chorando, talvez não. Não me importava. Não depois de tudo. A exaustão e a indignação que me consumiam eram tudo com o que eu conseguia lidar. Ela tinha escolhido o pior dia possível para tentar me manipular, e isso só fazia meu desprezo por ela crescer ainda mais.
Eu fui rapidamente para o Corpo de Bombeiros, um lugar onde sempre me senti mais em paz, longe do barulho e das discussões. Lá, a pressão do mundo parecia se dissipar, e por alguns momentos, eu podia respirar sem me preocupar com aquela voz insuportável, uma mistura de preocupação e exigência, que tinha que chamar de esposa. Meus dias se tornavam cada vez mais insuportáveis, e eu buscava qualquer desculpa para escapar de casa e do peso que meu casamento representava.
Enquanto eu caminhava com passos rápidos, tentando organizar meus pensamentos, um de meus colegas me parou bruscamente. Seu olhar era intenso, uma mistura de surpresa e algo que eu não conseguia identificar, mas que me arrepiou por inteiro. Ele parecia abalado, e aquilo me fez parar instantaneamente.
— Nolan, meu Deus, cara, você está aqui? — Rui exclamou, os olhos arregalados, a voz carregada de um misto de alívio e medo. — Achei que ia ficar cuidando da sua esposa. Ela está bem? Não se machucou muito? Deve ter sido um susto horrível, coitada, né, mano?
Cada palavra que saiu da boca de Rui parecia um enigma para mim. As frases soavam fora de contexto, como se ele estivesse falando em outra língua. Eu parei no meio do meu próprio raciocínio, tentando decifrar o que ele queria dizer. Minha mente girava, confusa, porque nada fazia sentido. Inês não poderia estar machucada, nada tinha acontecido com ela. Pelo menos, eu acreditava que nada tinha acontecido.
— Como assim? O que você quer dizer com o susto que minha esposa sofreu? — perguntei, a voz embargada, sentindo meu coração acelerar como se um aviso silencioso estivesse tentando me dizer algo.
Rui parecia hesitante, como se quisesse escolher as palavras certas. Seu olhar continuava firme, mas agora havia uma sensação de urgência, como se ele estivesse tentando evitar que eu ignorasse algo importante.
— Cara… ela está na lista de vítimas do incêndio de hoje! — Rui finalmente soltou, com uma expressão de pesar no rosto.
Naquele momento, o mundo pareceu desabar. O som das palavras ecoou na minha cabeça, cada sílaba como um golpe de ferro quente em meu peito. Não podia ser verdade. Não era possível. Inês era uma mulher que tinha seus próprios dilemas, é verdade, mas eu nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer.
Eu me lembrei, então, da conversa recente que havia ignorado. Inês tinha dito algo, algo que eu não dei importância, algo que ela mencionou com aquele tom de receio, uma espécie de aviso. Naquele momento, fechei os olhos e a imagem veio à minha mente, clara e c***l: ela tinha falado que poderia ser uma daquelas pessoas, que poderia estar envolvida em algo grave. Eu me recusei a escutar, me recusei a dar atenção ao que ela tinha a dizer. E agora, aquele peso enorme se instalava no meu peito, uma mistura de culpa e incredulidade.
Eu estava paralisado. Uma sensação de vazio me consumia, misturando raiva e frustração. Como pude ser tão insensível, tão seguro em minha própria indiferença, ao ponto de ignorar algo tão claro? Não perguntei se ela estava bem, não me preocupei em verificar nada. Agora, ao ouvir aquilo, percebi que minha postura tinha sido um erro fatal. O coração me apertava, como se estivesse me dizendo que eu tinha, de alguma forma, contribuído para aquilo.
— Não pode ser… — murmurei, quase sem voz, sentindo as mãos tremerem.
Rui colocou a mão no meu ombro, tentando me ajudar, mas eu estava imóvel, preso em meus próprios pensamentos. A imagem de Inês, frágil e distante, voltou a se formar em minha mente. Seu rosto, seus olhos, sua voz… Tudo parecia estar ali, me confrontando, me exigindo respostas que eu não tinha.
Era um pesadelo. Um daqueles pesadelos que você nunca espera viver. Minha esposa estava na lista de vítimas de um incêndio, uma tragédia tão c***l que eu não conseguia processar. O peso da responsabilidade caiu sobre mim como uma tempestade, e eu sabia que precisava fazer alguma coisa. Mas o que? Como enfrentar aquilo? A resposta parecia distante, tão longe quanto a fumaça que pairava no horizonte.
Eu precisava saber. Precisava enfrentar aquilo, resolver as perguntas que me atormentavam. Mas, acima de tudo, precisava encontrar Inês. Seja para proteger o que restasse de nós, seja para me redimir pelo desprezo que tinha demonstrado, por tudo o que deixei passar.
O vazio continuava ali, como uma sombra. E, mesmo no meio do caos, uma coisa estava clara para mim: eu não poderia mais fechar os olhos para a realidade. A dor havia chegado e agora eu precisava enfrentá-la.