Pré-visualização gratuita O Primeiro Encontro
Capítulo 1 — Onde Não Deveria Estar
Lívia sempre soube reconhecer quando não pertencia a um lugar.
E, ainda assim, ali estava ela.
O sol já tinha começado a se esconder quando fechou a porta da pequena sala do projeto social. A Rocinha mudava de rosto àquela hora — mais silenciosa, mais densa. O ar parecia pesado, como se avisasse que era hora de ir embora.
Ela apertou a bolsa contra o peito e começou a descer a viela.
Foi quando esbarrou nele.
O impacto foi seco. Forte demais para um simples descuido.
— Presta atenção por onde anda — a voz veio baixa, dura, cortante.
Lívia levantou o olhar devagar… e sentiu o corpo gelar.
Ele era alto, expressão fechada, os olhos escuros carregados de algo perigoso. Usava preto, corrente no pescoço, postura de quem manda sem precisar falar muito. As pessoas ao redor desviaram o caminho, fingiram não ver.
Ela sabia quem ele era.
Todos sabiam.
— Me desculpa… eu não vi — disse, tentando passar.
Ele não saiu da frente.
— Você não é daqui — afirmou, como quem sentencia.
O coração dela bateu forte.
— Eu só trabalho aqui. Já estou indo embora.
Caio inclinou levemente a cabeça, observando-a como se fosse um erro fora do lugar. Não gostava de gente “de fora”. Principalmente mulheres que andavam sozinhas pelo morro, achando que nada podia acontecer.
— Trabalha até tarde demais — respondeu. — Isso dá problema.
Ela engoliu em seco.
— Eu não fiz nada de errado.
Foi aí que ele se irritou.
Com um movimento rápido, segurou o braço dela — não com carinho, nem brutalidade extrema, mas firme o bastante para assustar. Lívia prendeu a respiração, os olhos marejados mais de medo do que de dor.
— Aqui, quem decide o que é errado sou eu — disse, aproximando o rosto do dela. — Some daqui antes que alguém faça coisa pior.
O toque queimava.
Não pelo desejo — pelo choque.
Ele a soltou de repente, como se ela fosse algo que incomodasse.
Lívia deu dois passos para trás, o corpo tremendo, o orgulho ferido.
— Você não tinha o direito…
— Tinha sim — cortou ele. — E tenho mais se você continuar aparecendo onde não deve.
Ela saiu apressada, sem olhar para trás.
Caio ficou parado, observando até ela desaparecer na curva da viela.
Raiva subiu pelo peito — dela, daquele olhar assustado… e principalmente de si mesmo. Não entendia por que aquela moça simples tinha mexido tanto com algo que ele jurava não existir mais.
Do outro lado do morro, Lívia chorava em silêncio.
Não só pelo medo.
Mas porque, contra toda razão, algo naquele homem a havia marcado.
E ela pressentia: aquele não seria o último encontro.