Solidão

1854 Palavras
Eram quase onze da noite quando Amélie finalmente trocou o uniforme por suas roupas normais novamente. A Monteiro sabia que já era tarde e que era perigoso uma ômega sair sozinha pelas ruas nesse horário, mas não era como se já não estivesse acostumada com isso, mesmo que às vezes tivesse companhia, ela sempre enrolava fazendo qualquer serviço que lhe dessem e ajudando os colegas em tudo que podia, mesmo que seu salário não pagasse por nada disso, Amélie fazia isso para adiar o quanto pudesse sua ida para casa, quanto mais tarde chegasse na residência maiores eram as chances de seu marido estar dormindo e não lhe incomodar. A ômega terminou de pegar suas coisas e bateu seu ponto indo até a saída do grande hotel, assim que passou pela porta sentiu o frio da noite lhe atingir a fazendo abraçar o próprio corpo, seu casaco não era grosso o suficiente e seu corpo não era quente como o de um alfa, o fato de ser um lúpus apenas a tornava mais sensível a tudo aquilo. A Monteiro respirou fundo sentindo um arrepio tomar conta de seu corpo devido ao vento gelado, ela olhava para o céu vendo as poucas estrelas que não eram ofuscadas pelas luzes da cidade enquanto pensava por quanto tempo ainda teria que aguentar aquilo, Amélie não tinha dinheiro sequer para comprar uma roupa mais quente porque seu marido roubava tudo de si, Jackson sempre roubou tudo, roubou seu dinheiro, sua alegria, sua vida, ele roubou tudo, absolutamente tudo, até que a Monteiro não tivesse mais nada, mas ainda assim aquele homem tentava tirar qualquer resquício de si que sobrou. Por um momento, enquanto ouvia o barulho dos carros passando pela rua e as vozes altas de algumas pessoas que andavam por ali, Amélie desejou que aquele frio lhe abraça-se de uma forma mais profunda até que tudo ao seu redor congelasse, até ela mesma, para que não sentisse mais nada, ela desejou apenas ceder. -Meli, você vai morrer de frio desse jeito-Foi despertada de seus pensamentos ao ouvir a voz grave inconfundível de Nicolas. A ômega olhou na direção do beta e o viu caminhar até si com um belo sorriso no rosto enquanto tirava seu próprio sobretudo e colocava sobre os ombros da Monteiro. Nicolas Barros era uma pessoa muito especial e Amélie sabia disso como ninguém, ele era uma das poucas pessoas que tentavam trazer um resquício de luz para vida da ômega e o beta conseguia cumprir sua “missão” na maioria das vezes. -Obrigada Nic, mas você também precisa disso-A Monteiro falou fazendo menção a retirar a peça de roupa e devolver ao amigo, mas logo foi impedida pelas mãos grandes do Barros. -Nem pense em recusar ou vai me deixar triste-Nicolas falou fazendo uma falsa cara de choro na direção do menor que apenas sorriu e negou com a cabeça, já estava acostumada com o "jeitinho" do beta-Além do mais, eu sou naturalmente quente, então não preciso disso. -Você é naturalmente um palhaço isso sim-Amélie falou em um tom sarcástico vendo o Barros lhe lançar um olhar indignado. -Desse jeito você magoa o meu pobre coração Meli, sabe que ele é frágil, principalmente quando se trata de você gatinha-Brincou logo dando um forte abraço na amiga que se debateu um pouco como se quisesse se soltar, porém, ambos sabiam que a ômega adorava aquelas repentinas demonstrações de carinho. -Já disse que não gosto dessas brincadeiras Nic-A Monteiro falou, mas continuava sorrindo e logo retribuiu o abraço do outro. Nicolas sempre tratou Amélie dessa forma, mesmo que no início a ômega não lhe desse muita atenção e fosse até mesmo grossa com o outro quando o dizia para lhe deixar em paz, o Barros nunca desistiu de tentar se aproximar da Monteiro, ele era gentil, engraçado e fazia com que Amélie se sentisse bem nos poucos momentos que passavam juntos, então aos poucos Nicolas conseguiu quebrar o "muro de gelo" envolta da ômega e conquistar um pequeno espaço em seu coração. A verdade é que o beta sempre pôde ver a tristeza refletida nos pequenos olhos da Monteiro e aquilo de certa forma o fez querer se aproximar, ele queria colocar um brilho no olhar da pequena ômega, fazia parte da sua personalidade querer que as pessoas ao seu redor se sentissem bem, mas aos poucos Amélie acabou se tornando mais especial em sua vida. Debaixo de toda aquela timidez e às vezes rispidez de quem sempre tentava afastar todos ao seu redor existia uma ômega extremamente doce e carinhosa que tinha que lidar com problemas que o beta nem poderia imaginar, mesmo que tivesse presenciado um deles pessoalmente. O Barros ainda se lembra muito bem do dia em que o marido da Monteiro apareceu na frente do hotel procurando a ômega, ele estava bêbado e parecia completamente irritado enquanto Amélie dizia que não poderia entregar mais dinheiro para o homem porque ele já tinha pegado todo seu salário, Nicolas viu quando o alfa levantou sua mão enquanto olhava com raiva para a mais baixa, o beta sabia o que ele iria fazer e sabia que só não fez naquele momento porque já tinha atraído a atenção de muitas pessoas para a cena. Naquele dia, o Barros viu a ômega chorar pela primeira vez por culpa do marido, naquele dia Nicolas apenas abraçou Amélie enquanto permitia que ela chorasse em seus braços e desde daquele dia o beta vem sendo a pessoa para qual a Monteiro corre quando quer apenas chorar, mesmo que algumas vezes ainda a pegue chorando sozinha. Aos poucos o Barros foi se apegando ainda mais à ômega enquanto tentava convencê-la a fugir daquele casamento, mas Amélie sempre dizia a mesma coisa, "Eu não posso fugir, ele vai me achar e vai ser muito pior". Como Nicolas desejava arrancar a Monteiro daquele inferno, como ele desejava que a lúpus apenas fugisse para seus braços não só para chorar. -Vamos Meli, já está ficando tarde-O Barros falou segurando a mão pequena e delicada da ômega e começando a andar do seu lado. -Já disse que não precisa segurar minha mão Nic-Amélie falou, pois mesmo que achasse confortável andar daquele jeito ao lado do beta alguém poderia ver e contar para Jackson e ela não gostaria nem de pensar no que seu marido faria-E também não precisa me esperar até tarde, é perigoso pra você também. -Se não gosta então solte-Nicolas falou mesmo sabendo que a amiga não faria isso e sorriu logo em seguida ao perceber que tinha razão, às vezes a ômega parecia mais com um gatinho indefeso do que com uma mulher adulta-E eu não me incomodo de esperar pelo tempo que for-Falou com um tom ambíguo mesmo que a outra não tenha entendido. -i****a-A lúpus falou sorrindo. O Barros passou a acompanhar a Monteiro até em casa quando Amélie se queixou que quase tinha sido assaltada, então mesmo sobre os protestos fervorosos da ômega, Nicolas a levava até a esquina de sua rua quase todos os dias quando saia do trabalho, ali na esquina a mais baixo se despedia do beta pois segundo ela era melhor que o marido não soubesse que outro homem a acompanhava até em casa. Amélie era dominada pelo marido mesmo quando este não estava presente, tudo o que fazia era pensando se o Marques iria ou não se incomodar, ela tinha muito medo do alfa e Nicolas odiava isso. Durante o caminho até a casa da Monteiro, ela e o Barros conversaram sobre coisas aleatórias, riram de algo que aconteceu durante o dia com algum dos hóspedes excêntricos que nunca faltavam no grande hotel e tiraram sarro um do outro. Nicolas gostava daquilo, o beta adorava ver Amélie sorrir, principalmente quando estava ao seu lado. -Mas me diz Meli, você ficou sabendo que o hotel tem um novo dono agora?-O Barros falou chamando a atenção da mais baixa. -Não sabia, como você soube?-Perguntou curioso. -Eu ouvi por aí, alguns funcionários estavam comentando que o novo dono veio acertar tudo hoje-O beta falou vendo a Monteiro lhe olhar surpreso. -Nunca pensei que o senhor Lima fosse vender o hotel da família dele, só espero que o novo dono não queira fazer tantas mudanças sabe, o salário não é lá essas coisas, mas não quero ser demitida-A ômega falou vendo o amigo lhe olhar espantado. -Poxa Meli, eu nem estava pensando nisso, obrigado por me arrumar um motivo de insônia agora-Nicolas falou um pouco preocupado com seu emprego. -Tudo bem, esquece o que eu disse-Amélie tentou tranquilizar o amigo, mas sabia que era em vão, se conhecia bem o Barros, e ela conhecia, o mais alto iria pensar naquela possibilidade até ter certeza que nada ia acontecer. -Mas enfim, falaram que o novo dono é um alfa lúpus-O beta falou ainda um pouco pensativo sobre o que a amiga lhe disse. -Legal-Já a ômega não deu tanta atenção para aquilo, afinal se continuasse com seu emprego estava de bom tamanho. De repente Amélie se lembrou do alfa desconhecido que viu naquele corredor, pelo pouco que observou pode ver que o homem era muito bonito, “Talvez ele seja o novo dono”, foi o pensamento que passou por sua cabeça naquele momento, mas logo a Monteiro pensou que seria coincidência demais, porém ao pensar nele logo a lembrança daquele delicioso aroma de sândalo veio a sua mente, era como se pudesse senti-lo novamente e a ômega gostou daquela sensação. -Meli!-Foi tirada de seus pensamentos pela voz um pouco mais alta do amigo-Já chegamos, no que estava pensando? Quando olhou em volta Amélie percebeu que já estavam na esquina de sua rua e ficou um pouco envergonhada por ter se “desligado” do mundo enquanto pensava em um completo estranho. -Nada demais, só imaginando o que farei para jantar-Desconversou ainda um pouco constrangida. -Aquele alfa inútil poderia pelo menos fazer o jantar, mas nem pra isso ele serve-Nicolas nunca se importava em esconder a irritação que sentia pelo marido da Monteiro ser do jeito que era e tratá-la daquela forma. Amélie viu o amigo fechar as mãos em punhos e apenas suspirou se sentindo m*l por tê-lo trazido para essa bagunça que era sua vida, mesmo que tenha tentado evitar, o beta era muito insistente. -Até amanhã Nic, chegue bem em casa-A ômega falou tentando não entrar naquele tópico com o amigo novamente o vendo respirar fundo e assentir. -Tchau Meli, se cuida-O beta depositou um rápido selar na bochecha da mais baixa que apenas sorriu para si, soltou sua mão e entregou seu sobretudo começando a caminhar na direção de sua residência. Nicolas ainda ficou ali até ver Amélie entrar em sua casa e logo em seguida se virou caminhando em direção a própria residência que ficava um pouco longe dali. O Barros não se importava de caminhar por longos minutos até sua casa, não se pudesse levar a Monteiro em segurança até a residência da mesma enquanto conversavam bobagens e riam juntos, o beta adorava a companhia daquela ômega, mais do que deveria, porém isso não lhe assustava nem um pouco.
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