Capítulo 17 — O Ritual que Exige Tudo
A floresta antiga acordou quando eles chegaram.
As árvores não se moviam com o vento, mas com memória. Cada tronco carregava marcas de pactos antigos, de promessas feitas antes mesmo de vampiros e lobos terem nomes.
— Aqui — disse Lilith. — Foi onde tudo começou.
Aren sentiu o chão vibrar sob os pés.
— E onde pode terminar.
O círculo ritualístico estava intacto, embora coberto por musgo e sangue seco. Símbolos lunares misturavam-se a runas vampíricas — uma heresia antiga, apagada da história oficial.
Lilith começou a traçar o ritual com o próprio sangue.
— Se errarmos — disse ela — Valrath não apenas nascerá… ele reinará.
Aren retirou a camisa, revelando a marca no peito, agora rachada como vidro prestes a quebrar.
— O que exatamente vamos perder?
Lilith hesitou.
— O ritual não escolhe por nós — respondeu. — Ele revela o que já estamos dispostos a sacrificar.
A lua começou a subir.
Primeira fase.
O ar ficou pesado.
— Leia — disse Aren.
Lilith recitou as palavras antigas. A floresta respondeu com um eco profundo.
Segunda fase.
A marca de Aren queimou.
Ele caiu de joelhos.
— Aren!
— Continua — rosnou ele. — Não para agora.
Terceira fase.
O vínculo entre eles abriu.
Não rompeu.
Abriu.
Lilith viu a infância de Aren. O primeiro uivo. O peso da liderança. O momento em que matou Korr.
Aren viu Lilith presa ao trono da matriarca. Séculos de obediência. O desejo constante de fugir.
As memórias se misturaram.
E então…
Valrath falou.
— Que belo sacrifício — disse a voz, surgindo do nada. — Dois seres tão orgulhosos, tentando amar acima da própria natureza.
A sombra tomou forma no centro do círculo.
— Você não pode entrar — disse Lilith, com a voz firme.
Valrath sorriu.
— Já estou dentro. Do medo. Da dúvida. Do vínculo.
Ele estendeu a mão.
— Basta um de vocês desistir.
Aren se levantou, o corpo tremendo.
— Nunca — disse.
Valrath riu.
— Então escolha.
O símbolo final brilhou.
O ritual exigia decisão.
Lilith sentiu algo se soltar dentro dela.
Algo precioso.
Ela entendeu.
— Aren… — sussurrou. — Se isso funcionar… você pode não se lembrar de mim.
O coração dele parou por um segundo.
— O quê?
— Memória é o que Valrath usa — explicou ela. — O ritual vai apagar minha existência da sua mente.
A lua atingiu o ponto máximo.
— Não — disse Aren. — Eu não aceito isso.
Valrath gargalhou.
— Não cabe a você.
Lilith tocou o rosto dele pela última vez.
— Amar também é deixar — disse.
Ela deu o passo final dentro do círculo.
O mundo explodiu em luz e sombra.
O grito de Aren rasgou a noite.
E Valrath, pela primeira vez, gritou também.