Capítulo 16 — A Matriarca Quebrada
O santuário vampírico não cheirava mais a sangue.
Cheirava a medo.
Lilith sentiu isso no instante em que cruzou o arco de pedra. As velas negras estavam apagadas, símbolos antigos riscados como se alguém tivesse tentado apagá-los às pressas — ou em desespero.
— Eles tentaram invocá-lo — murmurou ela. — E falharam.
Aren manteve-se alerta, o lobo inquieto sob a pele.
— Ou conseguiram demais.
Um gemido ecoou do salão principal.
Lilith avançou primeiro.
A matriarca estava sentada no trono de ossos, mas não parecia uma rainha. As costas curvadas, os olhos antes imponentes agora vazios, como se algo tivesse sido arrancado de dentro dela.
— Lilith… — sussurrou a voz fraca. — Você voltou.
— Eu nunca fui embora — respondeu Lilith. — Apenas parei de obedecer.
A matriarca riu, um som seco.
— Ele nos prometeu controle — disse. — Paz definitiva. Um mundo sem misturas.
Aren sentiu o nojo subir.
— Valrath — rosnou.
A matriarca assentiu lentamente.
— Ele se alimenta melhor quando acreditamos que estamos certos.
Lilith se aproximou.
— O que você fez?
A matriarca ergueu as mãos trêmulas, revelando a marca n***a gravada em sua pele.
— Eu me tornei um receptáculo — confessou. — Um canal. Ele usa minha memória… meus rituais… minha autoridade.
A marca de Lilith queimou em resposta.
— Ele está perto — disse Aren.
— Sempre esteve — respondeu a matriarca. — Mas agora… ele quer um corpo definitivo.
Silêncio.
Lilith entendeu antes de ouvir.
— A quarta lua — sussurrou.
A matriarca fechou os olhos.
— Quando ela subir, ele tentará nascer completamente. Não como sombra… mas como rei.
Aren cerrou os punhos.
— E como impedimos isso?
A matriarca abriu os olhos, pela última vez realmente lúcida.
— Não com força — disse. — Mas com renúncia.
Lilith sentiu o coração gelar.
— Explique.
— O vínculo de vocês — continuou a matriarca — é o que o enfraquece… e o que pode libertá-lo por completo.
Aren olhou para Lilith.
— Ele quer que a gente se destrua — disse Aren.
— Ou que se sacrifique — completou a matriarca.
Ela estendeu a mão para Lilith.
— Há um ritual antigo — disse. — Um que quebra pactos falsos… mas cobra algo verdadeiro.
Lilith segurou a mão dela.
— O quê?
A matriarca sorriu, cansada.
— Aquilo que vocês mais temem perder.
O silêncio pesou.
— Amor — murmurou Aren.
A matriarca assentiu.
— Ou identidade. Ou futuro.
O trono começou a rachar.
Sombras vazaram pelas fissuras.
— Ele está vindo — disse Aren.
A matriarca puxou Lilith para perto.
— Você sempre foi mais livre do que pensava — sussurrou. — Não cometa meu erro.
Ela empurrou Lilith para trás com a última força que tinha.
— Corram.
O santuário começou a ruir.
Do lado de fora, sob um céu instável, Lilith parou, ofegante.
— Ele quer que escolhamos entre o que somos… e o que sentimos.
Aren segurou o rosto dela.
— Então escolhemos algo maior.
A marca pulsou — instável, perigosa.
Ao longe, a lua começava a mudar de fase.
A quarta lua se aproximava.
E Valrath já não estava apenas observando.
Ele estava se formando.