Capítulo 15 — O Luto da Lua
A lua não estava cheia naquela noite.
Estava opaca, como se tivesse perdido o direito de brilhar.
A alcateia reuniu-se em silêncio ao redor do corpo de Korr. Nenhum uivo foi entoado. Nenhum ritual antigo foi concluído. O luto era profundo demais para palavras.
Aren permanecia afastado.
Não por covardia.
Por respeito.
O sangue ainda manchava suas mãos — não fisicamente, mas em algo mais difícil de lavar.
Lilith observava tudo à distância. Pela primeira vez desde que o conhecera, Aren parecia menor. Não fraco. Apenas… humano.
Ela se aproximou devagar.
— Eles não te odeiam — disse.
— Ainda — respondeu ele, sem olhar. — O ódio vem depois da compreensão.
Ela sentou ao lado dele, ignorando os olhares desconfiados.
— Você salvou muitos.
— Matei um irmão — retrucou. — E isso não se compensa.
Lilith tocou a marca no próprio peito.
— O mundo ensina que liderança é poder — disse ela. — Mas o que você fez hoje… foi carregar a dor que ninguém mais conseguiu.
Aren respirou fundo.
— A lua exigia força. Eu dei misericórdia.
— E por isso — respondeu ela — você deixou de pertencer a ela.
Ele a olhou, finalmente.
— E você? — perguntou. — Ainda pertence ao sangue?
Lilith pensou nos clãs, na matriarca, nas correntes simbólicas.
— Não — disse, com calma. — Pertencer nunca foi liberdade.
O vento soprou entre eles.
Um jovem lobo se aproximou, hesitante.
— Aren… — disse ele. — O que somos agora?
Aren sentiu o peso da pergunta.
Não havia título.
Não havia ritual.
Apenas verdade.
— Vocês são livres para escolher — respondeu. — Ficar… ou partir.
Murmúrios surgiram.
Alguns lobos se afastaram. Outros permaneceram.
Não por obrigação.
Por decisão.
Lilith sentiu o vínculo reagir — não em dor, mas em estabilidade.
Mas então…
A marca queimou violentamente.
Aren levou a mão ao peito.
— Valrath — rosnou.
A visão veio como um golpe.
O santuário vampírico.
Em ruínas.
Corpos pendendo de símbolos quebrados.
A matriarca, ainda viva… mas mudada.
— Ele está reunindo poder — disse Lilith, o rosto endurecendo. — Alimentando-se da dor de todos.
Aren se levantou.
— Então não corremos mais.
Ela o encarou.
— Não — respondeu. — Confrontamos.
A lua se escondeu por trás das nuvens.
O luto terminava ali.
A próxima etapa não seria fuga.
Seria enfrentamento.
E Valrath, pela primeira vez, sentiu algo próximo de preocupação.
Porque eles não estavam mais reagindo.
Estavam se preparando.