Capítulo 05

1368 Palavras
Lavei o rosto e engoli as lágrimas mais uma vez. Era só aquilo que eu sabia fazer nos últimos tempos. Chorar e fingir que tudo estava bem. Mas não estava. Eu estava meio perdida e sem saber o que fazer. Minha vida tinha mudado de uma hora para outra e eu não estava sabendo como me adaptar àquela nova situação. Mudar de cidade de repente e passar a conviver com meu pai estava sendo a pior coisa do mundo. Eu não gostava dele, nunca gostei. Ele e minha mãe nunca foram casados. Eu nasci meio que por acidente e ele nunca me tratou com filha. Eu tive tudo do bom e do melhor. Dinheiro nunca foi o problema, mas amor de pai eu não sabia o que era. E agora, morando perto dele eu descobri que dentro daquele homem não poderia ter amor. Me arrependo de ter tomado a decisão de ficar quando minha mãe se casou e foi morar em Portugal. Achei que ela merecia curtir a vida um pouco depois de ter me criado sozinha e não ter tido tempo de namorar. - Não concordo filha, eu não confio no seu pai. - Calma mãe, ele não deve ser essa pessoas tão r**m. - Espero que eu esteja errada. Mas tome cuidado filha. Qualquer coisa me ligue, que eu venho correndo te buscar. Ela tinha me abraçado com força. -Mamãe te ama. - Vai tranquila mãe, eu já sou de maior. Eu sei me cuidar. Eu não sabia tanto assim. Vim morar com meu pai em Ouro Preto não foi uma boa ideia. Fazia quase um ano que eu estava ali e ele nunca olhou direito na minha cara. Enchia minha conta de dinheiro e enchia meu saco tentando controlar todos os meus passos, assim como fazia com a coitada da mulher que ele chamava de esposa. Acho que a situação dela era ainda pior que a minha. Eu tinha meu jeito de enfrentá-lo. Ela parecia ter medo dele. Em resumo, eu estava vivendo em uma casa com um homem que não me considerava como filha e com uma madrasta que mais parecia uma morta viva. O que me restava? Tentar me afirmar no meio dos meus colegas. Pelo menos ali, todos achavam que eu estava feliz. Todos me consideravam a garota descolada que chegou recentemente na escola. Meu teatro estava dando certo, pelo menos para alguns. Para aquele garoto pedante não. Ele parecia me julgar o tempo todo e resistia ás minhas cantadas. Ele se achava o que? Só porque era mais bonito que os outros? Só porque andava naquela moto preta que aos poucos eu aprendi a reconhecer o ronco do motor? Era uma moto irada. E combinava com ele. O demônio era lindo. Não sei se ficava mais bonito quando vestia aquela jaqueta preta, ou quando tirava e amarrava na cintura mostrando os braços tatuados. Ele vivia metido em uma camiseta branca e uns jeans rasgados. Ele era diferente dos outros garotos. Parecia mais maduro, mas ele era da minha idade. Eu me incomodava com a forma como ele me olhava. Sempre sério e calado. Desde o dia que entrei na sala dele que não trocamos mais do que duas ou três palavras quando fizemos um trabalho no mesmo grupo, mas eu sentia o olhar dele sobre o mim o tempo todo na aula. A forma que eu achei para irritar meu pai era um pouco perigosa, eu admitia. Beber e sair transando com todo mundo não ia resolver minha situação, mas pele menos eu chamava a atenção de Joaquim Dumont. Era uma forma de vingança por ele querer tanto uma família perfeita fora dos portões daquela mansão m*l assombrada. Da porta para dentro todos viviam sob o as ordens daquele homem sem coração. Até nossas roupas eram escolhidas por ele. Nossas não, a da Isabella, por que eu doei todas as peças que ele obrigou a Betânia a comprar e não usei nenhuma delas. Eu mostraria para aquela cidade que a família perfeitinha de Joaquim Dumont era um castelo de areia. Todos os dias voltar para casa no fim da tarde era um tormento, porque eu sabia que encontraria Joaquim Dumont e a sua estranha esposa sentados na mesa do jantar como dois robôs. Eu tinha pena dela e diversas vezes tentei puxar conversa, mas ela parecia instruída a falar pouco e não deixou escapar nada sobre a situação que vivia naquela casa. E como em todos os outros dias, a cena que encontrei na enorme sala da mansão foi mais sinistra de todas. Isabela sentada de cabeça baixa remexendo a comida no prato e meu pai comendo com o maior apetite do mundo. Até ai nada diferente dos outros dias, mas ela estava vestida de preto e os longos cabelos cacheados estavam presos em um coque apertado logo abaixo da nuca. Que maluquice era aquela? Bati a porta com força e me aproximei da mesa rindo um pouco mais alto do que o normal. - Uau! Que clima de enterro é esse minha gente? Meu pai bateu o garfo no prato e levantou. Os olhos faiscando de ódio. - Sua irresponsável! Onde você estava? Sorri cinicamente pra ele. - Sentiu minha falta papai? Ele estava vermelho e falou exageradamente calmo. - Sente para Jantar! Me voltei para a mulher parada feito uma estátua e fiz cara de pena. - Bella! O que aconteceu? Morreu alguém da sua família? Finalmente ela me olhou calada. Era a personificação da tristeza. - Estava preocupada com você Lizandra. Avise quando for demorar. Sentei no canto da mesa e um prato escorregou e caiu no chão se espatifando. Levantei rápido. -Opa! Desculpem, eu sou tão desastrada! Joaquim Dumont avançou em minha direção. Eu levantei o queixo e o encarei. - Pode descontar da minha mesada. - Suba agora! Você está de castigo sua v***a. Joguei a mochila no ombro. - Obrigada, pelo menos não vou precisar ir para aquela escola chata. Antes de virar e subir as escadas, olhei para a Isabela. - Pelo amor de Deus Isabella, tire esse vestido, está ridículo em você. Eu, que sabia o que era esconder as emoções percebi os lábios dela tremerem um pouco. Era bom ela ouvir umas verdades. Ela precisava acordar e tomar coragem para enfrentar aquele louco. - Vai para o seu quarto Liza. Eu vou lá falar com você daqui a pouco. - Vem mesmo, precisamos conversar coisas de mulher. Do alto da escada ouvi coisas se quebrando lá em baixo. Me escondi atrás da parede e tentei ver se ele estava batendo na Isabela. Eu não responderia por mim se ele encostasse nela. Eu já tinha presenciado uma cena de violência dele com ela e com certeza não presenciaria de novo. Ela subiu as escadas assustada e antes que ela entrasse no quarto eu a puxei pela mão. - Vem aqui. Entramos no meu quarto e eu tranquei a porta. - Isabela, que roupa é essa? Ela nem procurou esconder. Sentou na minha cama e começou a chorar. - Ele me obrigou a vestir essa coisa horrorosa e fez a Betânia prender meu cabelo. Disse que eu preciso parecer mais feia para ninguém me olhar na rua. Sentei ao lado dela. - Meu Deus Isabela, você precisa fazer alguma coisa! Ela arrancou o elástico do cabelo e tirou o vestido ficando apenas de calcinha. Peguei uma blusa e ajudei-a a se vestir. Ela estava tremendo. - Eu sei, eu não aguento mais, mas eu preciso ter calma. Eu preciso pensar no que fazer. - Pede o divórcio. Você não precisa passar por isso. Ela se abraçou balançando o corpo. - Eu já tentei me divorciar dele. Eu não quero lembrar o que aconteceu quando eu fiz isso. Franzi a testa. - Como assim? O que aconteceu? Ela me olhou e o terror que vi naqueles olhos me fez estremecer de medo. - O que ele fez Isabela? Ela abaixou a cabeça. - Ele me deixou amarrada dentro do quarto por uma semana e mandou os homens dele baterem no meu pai até deixá-lo desacordado na rua. Tapei a boca assustada e abracei. Agora eu estava certa de que estávamos nas mãos de um louco.
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