Isabella Narrando
Concluir o segundo grau era um divisor de águas na vida de qualquer adolescente. Era ali que começava realmente a nossa vida.
Cada um daqueles olhos ansiosos naquele salão de festa traziam um mundo guardado dentro de si. Cada um pensava em como seria sua vida dali em diante. Muitos trabalhariam com seus próprios pais em empresas já estruturadas no mercado, outra cuidariam de filhos e de maridos. Já estavam casados e não tinha muita ambição na vida e outras estava se preparando para cursar faculdade em diferentes lugares do pais. E eu? Minha vida estava um pouco incerta. Sonhos eu tinha muitos, possibilidade de realizá-los, quase nenhuma. Tudo bem que estudava em uma escola de alta renda por conseguindo uma bolsa no Colégio Arquidiocesano de Ouro Preto. Foi um grande presente, mas agora que aquele ciclo chegava ao fim eu sabia que não estava concorrendo em pé de igualdade com aqueles colegas.
Eles poderiam ir para a faculdade que desejassem que os pais pagariam. Eu teria que ralar e ser aprovada em uma faculdade pública se quisesse realizar meu sonho de ser advogada.
Até mesmo para participar daquele baile de formatura, minha mãe teve que comprometer o cartão de crédito por uns bons meses e nós teríamos que apertar o cinto em muitas coisas em casa.
Eu, por mim, nem teria participado, mas ela insistiu e disse que era uma forma de comemorar pelos anos de esforço e dedicação. Eu acabei concordando.
Naquela situação estava também minha amiga Verônica. Nós duas éramos as únicas bolsistas daquela turma e nem era coincidência sermos tão amigas. No início, foi nossa única saída. As outras garotas nos ignoravam por não ser do círculo social delas e acabamos nos aproximando. Éramos as duas pobretonas da turma. Depois de três anos juntos acabamos por fazer amizade com algumas delas, mas eu e a Verônica éramos farinha do mesmo saco e nos tornamos melhores amigas. Fazíamos tudo juntas: tarefas da escola, vendíamos doces no shopping nos fins de semana e paquerávamos nas baladas da cidade. Baladas de pobre, porque não tínhamos dinheiro para frequentar as festas que as garotas da nossa turma frequentavam. Nossas roupas eram simples e a gente vivia customizando peças para ficar mais descolada.
Nossa sorte era que éramos bonitas e os garotos vinham como mosca no mel.
Perdemos a virgindade no mesmo dia em uma festa na casa de um amigo da Veronica. A festa acabou m*l porque alguém ligou para a polícia e deu queixa da música alta e os garotos foram parar na delegacia. Nem eu e nem a Veronica ficamos de novo com os carinhas que transamos e aquilo foi para nós duas uma experiência meio sem sal e sem açúcar. Depois disso ficamos com um ou outro cara da nossa turma, mas não deu em nada. Eles eram ricos e nunca assumiriam o namoro com duas garotas que estudavam ali de penetra.
Mas tudo bem, aquilo estava terminado e uma nova vida se descortinava à nossa frente.
Pelo menos naquela noite eu iria curtir minha festa de formatura. O auditório da escola estava lotado, pois um figurão da política que praticamente bancava a escola iria discursar. Com certeza seria um saco, mas fazia parte daquele show. O Colégio Diocesano foi praticamente obrigado a bajular o homem, pois a escola estava em crise e ele resolveu investir dinheiro ali.
Veronica sentou ao meu lado ao alisou o vestido de cetim vermelho. Todas as garotas estavam vestidas de vermelho e os meninos de branco.
- E ai?
Apontei para o palco.
- Estou achando aquele homem meio nervoso. Ele já apertou o no da gravata umas cinquenta vezes.
Ela olhou o deputado Jonas Amaral conversando com o segurança.
- Só estou vendo o segurança. Olha que homem lindo!
Belisquei o braço dela.
- Lá vem você! Só pensa em homem, Verônica.
Ela sorriu.
- Se homem é bom, eu vou pensar em quê?
- Ta bom, mas que eu estou sentindo um negócio estranho, eu estou. Esse deputado não é aquele que sofreu uma tentativa de morte outro dia ai quando estava fazendo um discurso?
Veronica encolheu os ombros.
- Sei lá, não me ligo nessas notícias.
- Deve ser por isso que está assim cercado de seguranças.
- Eu só quero que ele fale logo o monte de baboseiras que ele vai falar e nós possamos sair daqui e ir para o salão das comidas.
O diretor pegou o microfone e pediu que todos sentassem pois o discurso ia começar.
Só então notei o segurança que Veronica tinha falado. Realmente o homem estava disposto a proteger o deputado. Andava atrás dele feito uma sombra ficou bem próximo quando ele subiu no púlpito.
Eu sempre achei bonito aqueles seguranças de preto nos filmes. Deviam se ser uma norma eles usarem aqueles óculos escuros tipo aviador. Deixava com um ar de mistério e mesmo que eles não fossem bonitos, chamava a atenção, mas aquele parecia bonito, pelo menos de longe era a impressão que dava. Não era só eu que estava sentindo algo estranho. O segurança dele também corria os olhos pelo salão a todo momento, como estivesse esperando que alguma coisa acontecesse. E realmente aconteceu.
Nem tinha se passado cinco minutos que o homem começou a falar e um estrondo ecoou no auditório. Foi um tiro?!
Meus olhos viram uma cena de cinema no palco. O segurança partiu como um raio e empurrou o homem no chão caindo por cima dele. O tiro não o acertou.
Foi uma confusão geral. Muitos gritos, cadeiras caindo mas eu não tirei os olhos do homem que tentava tirar o deputado do palco. Ele o protegia com seu próprio corpo e saiu rapidamente em direção aos corredores do fundo.
A Veronica já tinha sumido do meu lado e eu levantei devagar tentando passar em meio à confusão de pais, alunos e professores. Nem vi onde meu pais estavam. O diretor ligava desesperadamente para a polícia.
Desci as escadas e corri para o fundo do palco por uma saída lateral.
Aquela área da escola estava deserta. Eram as salas de aula e naquele dias estavam fechadas, mas eu vi que o homem tinha ido por ali.
O barulho do auditório foi ficando longe e eu andei pelo corredor sem fazer barulho. Na porta da última sala uma mão me puxou para dentro e tapou minha boca.
- Quieta mocinha.
Eu deveria estar com medo, mas não. A adrenalina de estar vivendo aquela aventura esquentava meu sangue. Fiquei quieta sentindo minhas costas apertada contra o peito quente do homem que tinha protagonizado uma cena de filme no palco há alguns minutos atrás.
Devagar ele tirou a mão da minha boca e me virou de frente.
O deputado estava logo atrás dele branco como cera encostado na parede da sala. Apenas a luz que vinha de fora iluminava um pouco a sala e eu pude ver que os segurança era um homem alto e bem jovem. Talvez jovem demais para a agilidade que demonstrou na hora de tirar o deputado de cena.
Ele tinha tirado os ósculos e sem eles parecia ainda mais bonito.
A mão continuava me segurando pelo braço com força;
- Você estuda aqui não é?
- Sim
Respondi sem hesitar.
- Então me mostre uma saída, que não seja pela frente.
A voz dele era baixa e rouca. Uma voz bonita.
- Porque eu deveria ajudar vocês? Se tem alguém tentando matar o deputado deve ser porque ele fez algumas coisa.
O deputado se aproximou.
- Eu pago mocinha, eu pago o que você quiser, mas nos tire daqui.
Lógico. Esse povo resolvia as coisas com dinheiro.
Me voltei para os segurança e joguei um charme pra ele.
- Vou ajudar por sua causa gatinho, gostei da sua encenação no palco.
Ele apenas fez um gesto de riso e me olhou de cima a baixo.
- Eu pagarei te convidando para uma pizza.
O deputado nos encarou nervoso.
- Vocês podem deixar para se pegar depois? Só me tirem daqui!
O segurança assumiu de novo a postura ereta e me encarou.
- E então? Tem uma saída?
Sorri pra ele.
- Claro.
Olhei para o corredor vazio e fiz sinal pra eles.
- Me sigam.
Andamos silenciosamente até a quadra de esportes escura e vazia e entramos no vestiário feminino.
- Por aqui.
Em um dos banheiros, puxei uma armário e retire um painel que cobria um buraco de mais ou menos 1 metro de altura. Dava para passar uma pessoa agachada.
O tal segurança me olhou de sobrancelhas erguidas.
- Pode me explicar o que é isso?
- Encolhi os ombros.
- Uma saída para a rua.
- Perguntei por que tem uma saída para rua dentro do banheiro e escondida por um armário?
Estufei o peito orgulhosa.
- Estudamos em um colégio de freiras. Temos que infringir algumas regras de vez em quando.
Ele abaixou e olhou o buraco. Dava para a rua do fundo da escola. Uma rua deserta e silenciosa.
Balançou a cabeça admirado.
- Garota, você é um perigo!
O deputado respirou aliviado e puxou um cartão do bolso.
- Guarde meu número e ligue se precisar, você salvou minha vida.
Segurei o cartão e encarei o segurança.
- Você não tem um cartão também?
Ele riu mostrando os dentes certinhos. Era um homem muito lindo.
- Não. Não tenho.
Ele apontou a plaquinha no bolso do paletó preto.
- Consegue ler?
Apertei os olhos.
Segurança Olhos de Águia.
- Sim.
- Guarde esse nome, ainda nos veremos.
- Segurança Olhos de Águia, Segurança Olhos de Águia..
Repeti de olhos fechados.
Ele tocou meu queixo e eu abri os olhos.
- Obrigada. Você é uma garota muito corajosa.
Sustentei o olhar dele.
- Eu sei, eu não tenho medo de nada.
- E se um dia tiver, estaremos aqui pra te proteger. Segurança Olhos de águia não falha em serviço.
- Eu vi. Você é bom.
- Preciso ir. Tchau.
- Tchau, Boa Sorte ai com o deputado.
- Consegue voltar sozinha para o salão?
Sorri e fiz um sinal com o polegar pra ele.
- Claro, eu já entrei e sair por esse buraco umas mil vezes.
Ele riu e acenou com a mão desaparecendo na escuridão da noite.
Respirei fundo e coloquei a madeira cobrindo o buraco e voltei em silencio para o salão