Lia
– Eu tenho uma forma de te ajudar. – Abigail disse.
– Você tem certeza? – perguntei com expectativa.
– Certeza absoluta, eu não tenho. Mas você pode ficar um pouco mais enquanto eu ligo para alguém e depois nós conversamos sobre o assunto. Você pode fazer isso? – pergunta.
Por algum motivo, essa senhora se dispôs a ajudar uma estranha que está fugindo e mesmo que ela tenha os motivos errados para fazer isso, eu não me importo. Tudo o que eu quero agora é um pouco de esperança na minha vida. As probabilidades de encontrar uma pessoa realmente boa de coração, que não tem nenhuma má intenção comigo são pequenas, mas eu quero me agarrar a esse fio de esperança desesperadamente.
Eu quero e eu vou arriscar. Eu não tenho nada a perder.
Abigail estava falando com alguém no telefone antigo já fazia um bom tempo. Não sei do que se tratava, mas ela não me permitiu ficar fora de sua visão nem por um instante. Ela falava com alguém com muita seriedade, e a maioria das coisas que ela dizia eu não conseguia compreender o significado. Isso estava me deixando nervosa e inquieta, eu queria sair dali, mas, Abigail insistiu que eu deveria esperar que ela terminasse aquele telefonema e só depois de conversar um pouco comigo ela me deixaria ir embora.
Depois de mais algumas palavras trocadas, Abigail me encarou seriamente e eu fiquei rígida ante o seu olhar.
– Dê-me seu documento. – pede.
– O que? – pergunto temendo ter ouvido mau.
– Seu documento, eu preciso dele imediatamente. – repete a última parte com ênfase dessa vez.
O motivo por trás dessa súbita urgência em ver meus documentos é um mistério para mim, no entanto, mesmo receosa, fiz o que ela pediu e entreguei para ela.
Abigail encarou o pequeno pedaço de papel que garantia que Lia era uma pessoa de verdade e depois leu em voz alta o nome completo dela.
Depois de algumas respostas curtas, a ligação foi encerrada e Abigail ostentava um pequeno sorriso no rosto. Estava ansiosa para saber do que se tratava aquilo e o que poderia tê-la deixado com aquele sorriso.
– Você confia em mim? – ela pergunta repentinamente.
De onde veio isso?
Bem, pensando nisso, eu não faço a mínima ideia de como responder a isso, mas eu não me vejo com muitas escolhas aqui, o que eu posso fazer agora é confiar nessa mulher estranhamente caridosa, ou sair daqui e ir a lugar nenhum, já que eu não faço a mínima ideia do que fazer a seguir além de andar até que as minhas pernas caiam.
– Sim, eu confio. – respondi mesmo que não sentisse exatamente uma explosão de confiança pela idosa, apenas uma pequena e tímida centelha do sentimento em questão.
– Perfeito. Me entregue os seus documentos, eu consegui falar com um amigo que pode ajudar na sua situação, mas, para isso, ele precisa de seus documentos, todos eles. – explica.
Estreitei ligeiramente meus olhos com desconfiança. E eu estava agora mesmo muito inclinada a gostar dessa mulher, mas o seu pedido é muito suspeito para não levantar todas as minhas precárias defesas.
– Que tipo de pessoa é o seu amigo? – pergunto.
– O tipo policial. Um velho conhecido muito confiável que está disposto a ajudar depois de ouvir o que eu contei sobre você. – responde.
Eu não me lembro de ter ouvido nada do que eu lhe contei enquanto tomava café.
– Quando você contou para ele? – pergunto.
– Quando você foi ao banheiro e demorou quase cinco minutos lá. – responde tranquila.
Bem, eu posso ver que apesar de idosa, ela não é nada relapsa. Em pouco tempo com ela, já percebi a perspicácia dessa mulher e que ela está sempre atenta a tudo, mesmo que pareça o contrário na maioria do tempo.
– Tudo bem. – assenti com desconfiança e resolvi entregar os documentos. Depois de ter os documentos em mão, Abigail se levantou e pegou um celular moderno que eu ainda não havia visto.
Onde ele estava esse tempo todo?
– Eu vou sair para resolver isso. Fique aqui e se puder, faça algo para comermos. Quando eu voltar, espero ter boas notícias para você. – avisa.
– Onde você vai? – levanto alarmada.
Ela vai fugir com os meus documentos?
– Vou encontrar o meu amigo. Eu não vou demorar mais do que uma hora. Espere por mim aqui. – diz.
Ela vai me deixar aqui sozinha? Na casa dela? Sem nem me conhecer?
– Você não tem medo que eu roube a sua casa? – deixo a pergunta escapar.
Isso arranca uma gargalhada de Abigail e eu a encaro sem entender o motivo daquela risada.
– Criança tola. O que você roubaria? Não há nada de valor aqui. Além do mais, eu estou de posse dos seus documentos, eu sei quem você é e como se parece. – aponta.
Odeio que eu não possa argumentar de volta, simplesmente não tenho argumento para isso.
– Você um ponto. – cedi.
– É claro que eu tenho. Eu estou indo agora. – e vai embora sem esperar a minha resposta.
Olhei disfarçadamente pela janela e vi um carro estacionado na frente da casa e que em seguida, Abigail entrou nele e foi embora.
Olhei para aquela casa um tanto preocupada, sem saber o que fazer. Eu estava ansiosa e não sabia o que fazer com esse sentimento desconcertante. Resolvi seguir o conselho dela e cozinhar algo para nós duas. Essa poderia ser a última refeição decente que eu vou fazer em um bom tempo. É melhor aproveitar.
Quando Abigail voltou, eu estava quase cavando um buraco no chão da sala de tanto andar de um lado para o outro. Ela não demorou uma hora como ela disse, e sim mais de três horas. Eu estava quase saindo à procura dela, preocupada que ela estivesse em problemas por minha causa.
– Meu Deus! Eu estava preocupada com a sua demora, onde esteve esse tempo todo? – pergunto assim que ela entra com algumas sacolas.
– Oh, eu estava resolvendo algumas coisas e comprando algumas coisinhas que eu precisava. – responde calmamente.
A vontade de repreendê-la é grande, mas eu me seguro, pois não tenho esse direito.
– Estou com fome, você fez algo para nós? – pergunta.
– Apenas alguns sanduíches, já que eu não sei se você tem alguma restrição alimentar. – respondi.
– Tudo bem, venha. Enquanto comemos, eu lhe conto o que eu consegui com o meu amigo. – caminha para a cozinha.
– E então? – indago.
– Eu conversei com ele acerca da sua situação e chegamos à conclusão de que só há uma solução para o seu caso. – morde um sanduíche.
– E qual seria a solução? – pergunto ansiosa.
– Você precisa morrer. – responde.
Subitamente o sanduíche se tornou muito difícil de descer e eu temi pela minha vida.
– Deus! Garota, antes que você morra nessa cadeira, não é dessa maneira que eu estou falando. Você não vai morrer de verdade. – me tranquiliza.
– Como assim? – pergunto no momento em que consigo fazer o sanduíche entalado descer o restante do caminho.
– Esse meu amigo é da polícia e depois que eu falei da sua situação, ele disse que como não há provas contra o casal ou o filho e que você fugiu depois de machucá-lo, a única alternativa para você é morrer ou ir para a cadeia. E antes que você diga alguma coisa, escute o que eu tenho a dizer. Com a compensação certa, ele pode forjar a sua morte e lhe fornecer uma nova identidade e você vai ter a chance de ter uma nova vida. Você pode começar novamente em algum lugar longe daqui e do seu passado. É a sua segunda chance. O que me diz? – pergunta.
Eu estava emocionada em como essa mulher desconhecida se dispôs a me ajudar mesmo sem me conhecer. Mesmo sem saber se o que eu contei era verdade ou não, ela me ajudou e continua a fazer isso. Eu nunca tive ninguém que fizesse nada disso e é um sentimento totalmente novo para mim. Só de pensar em ter uma nova vida, uma chance de viver sem me preocupar com o passado já me deixa entusiasmada. Não importa o que eu escolha, eu posso fazer qualquer coisa sem ter medo de ser descoberta.
– Sim. Eu aceito. – respondi rapidamente, mas lembrei que eu só tinha umas poucas economias e rapidamente fiquei triste ao constatar a dura verdade. – Mas eu não tenho muito dinheiro. Pode não ser o suficiente. – termino.
– Vamos fazer o seguinte: eu vou completar o restante do montante e você pode me pagar trabalhando para mim por um tempo. O que acha? – pergunta.
– Eu aceito! – quase pulo de alegria. – Mas, o que vou fazer com a minha aparência? – pergunto. Eu me destacava com os cabelos castanhos longos e com os olhos cor de mel. Sem falar que eu era muito alta para a minha idade e um pouco desengonçada e isso fazia eu me destacar facilmente.
– Eu trouxe tinta de cabelo e lentes de contato coloridas. Vamos começar com isso e depois cuidamos do resto. O seu antigo eu morre hoje. – avisa.
E eu me despeço da minha antiga vida, ansiando pela nova vida que me aguarda.