A nova rainha - Parte I

2235 Palavras
O som de uma tenda rasgando ecoa por toda alcateia, mas não fazem ideia que é por causa do corpo de seu alfa sendo arremessado para fora de seus aposentos reais. Nenhum lobo tenta interferir, pois não é permitido intromissões em briga de cachorro grande e o lado r**m de não possuir uma plateia é justamente não a possuir. Droga! Adoraria que todos assistissem a surra que darei no Schmidt, que nesse momento está caído no chão próximo a grande fogueira no centro da tribo. Ao passar pelo buraco que abri na tenda ao jogar Dougie por ele com um soco, deixo bem claro para ele que quando quero seguir em frente, não há nada que possa me impedir, nem mesmo alguém do seu nível. — Você fala como se fosse o responsável pela morte da Emilly. — Eu não contenho sorriso ao vê-lo machucado e pressiono o pé esquerdo contra o seu peito, assim ele não terá como escapar de mim. A grande fogueira de sua tribo me chama a atenção e me inclino para pegar um grande pedaço de lenha pontiagudo e em chamas. — Não conseguiu esquecê-la? Oh, o amor é lindo mesmo... Uma pena que não durou quanto devia. — Nesse momento tento golpeá-lo no rosto com a madeira quente. — Não fale assim dela, Aaron! — Dougie mesmo em sua forma humana é rápido o suficiente para desviar o rosto alguns centímetros do meu golpe e em seguida ele envolve o seu tornozelo contra minhas pernas e me derruba. — Eu a amava! — Seu pé pressiona o meu pulso e me rouba o tronco pegando fogo. — E por sua causa ela se foi! — Então, agora eu sou o culpado? — Finjo indignação. — Por favor Dougie, sabemos que isso não é verdade. — Digo com tranquilidade. — O sangue Schneider ferve e somos independentes! Não podemos ser controlados, deveria saber disso desde que nos conheceu. — Meu olhar não desvia dos olhos de Dougie e prossigo: — você não passa de um lobo sem graça e patético que tenta resolver tudo na base do diálogo, por isso nunca fez o tipo da... Dougie me interrompe e golpeia meu estômago com um chute. Embora eu rosne e sofra com a dor, tento me levantar, mas ele já está diante de mim e me agarra no pescoço, me arrastando contra uma parede rochosa. Minha visão está um pouco embaçada e a respiração falha. Por estar tão confiante, o alfa arremessa o pedaço de lenha de volta no fogo pois assim pode se concentrar melhor em me ferir com suas próprias mãos. — Falava alguma coisa, Schneider? — Dougie zomba. — Os Schmidt nasceram para dominar os Schneider e lhes impor disciplina. Eu mostrei isso à Emilly. — Ele conta vantagem. — A tirei desse caminho imprudente que vocês chamam de liberdade. — Dougie me pressiona mais forte e ergue meu corpo do chão. — Vocês agem igual animais irracionais! — Pude ver as presas dele aparecerem enquanto me sufoca em sua mão. — Nem mesmo os Berwangers são assim! A falta de ar muda a tonalidade da minha pele por poucos segundos até que eu resolvo surpreendê-lo. Utilizo a mão enfaixada para segurar o punho que Dougie usa para me apertar e aos poucos a retiro do meu pescoço como se estivesse ganhando um cabo de guerra. Meus olhos se tornam prateados e contrastam contra os seus dourados que não paro de encarar. O olhar de Dougie é bonito, sua expressão fala muito mais do que seus atos ou palavras, mas o seu sorriso que se desfaz ao perceber que sou mais forte é o que eu mais admiro. Quando o alfa percebe que eu só estou brincando com ele já é tarde demais e a minha cabeça colide contra a testa de Dougie em um impacto doloroso. Faço o que sei de melhor e lhe aplico um soco na direita do seu rosto e volto a jogá-lo no chão com um chute no seu abdômen. Pressiono onde ele havia machucado em uma leve massagem até que me recomponho e Dougie também. — Sua mão... — Ele pergunta e em seguida cospe um pouco do sangue. — Já está boa? — Questiona confuso. — Mas, como? — Dougie tenta entender. O gosto de ferro ainda está em sua boca, mas lhe parece o menor dos problemas. Mesmo que eu seja um lobo e tenha recebido tratamento das curandeiras Schmidt, meu pulso deveria demorar mais alguns dias para que eu pudesse lhe dar um golpe daquele sem que eu caísse junto de dor. Eu evito o dar satisfações ou contar-lhe meus segredos. — Eu sei que estamos brincando e não brigando de verdade. — Digo entediado. — Não somente eu, mas, você também está restringindo a sua verdadeira força, então... Vamos ao que interessa antes de eu matar você e seu clã inteiro. — Me agacho diante dele e chego mais próximo do seu corpo. — O que você quer? — O encaro. — Tenho certeza de que não me chamou em sua tenda para t*****r comigo e se certificar como um Schneider pode te levar a loucura. — Sou tão direto que vejo suas bochechas queimarem de timidez. — Também não é como se você conseguisse me aguentar. — Dougie rebate a provocação para não se deixar constranger. — Mas você está certo, Aaron. — O alfa diz enquanto tira o excesso de poeira do corpo. — O trouxe aqui em nome dos velhos tempos... Desde que tomei o lugar do Nero, as coisas mudaram e penso que não precisamos ser inimigos. — Seu diálogo me causa estranheza, mas continuo ouvindo: — Fique aqui comigo, em meu bando e permita que sejamos a tua casa, que tenha uma segunda chance. — Ele sussurra tão perto que sinto a sua respiração. — Juntos, podemos encontrar um meio de quebrar essa maldição e... — Você está tirando onda com a minha cara, não está? — Em minha fala, acabo com todo o resquício de esperança que ele possa ter e me levanto. — Por favor, diga que está! — Indignado, olho para seu sorriso que se desfaz aos poucos. — Eu vou repetir para você, Schmidt. — Rosno entre meus dentes: EU – NÃO – SOU – A – EMILY! — Chego a salivar de ódio. — Não sou, nunca fui e nunca serei seu amigo! — Ressalto. — Emily se deixou levar por emoções as quais eu nunca irei, porque no fim das contas ela é fraca, como você! — A quem está querendo enganar? — Dougie sempre consegue sorrir quando eu estou furioso e isso me irrita desde criança. — Eu posso não ser agora, mas já fui importante para você. Nós três éramos um para o outro, lembra? Na época em que existia paz entre as tribos... Antes deles aparecem e acabarem com tudo. — Ele toca em um assunto que é interessante para mim. — Eles. — Minha expressão muda e começo a rir de nervoso. — É assim que chama a alcateia dos dez? — Novamente não contenho a risada. — Os Okres? Então é sobre eles que você está investigando. — Me lembro de quando cheguei na tribo mais cedo e Javiax mencionou que Dougie estava fora à procura de algo, só podia ser isso. — Claro que é... Eu ouvi uma conversa mais cedo aqui na alcateia. — Continuo próximo dele ao invés de me afastar, pois estou certo de que não haverá outro momento como esse tão cedo e consigo sentir o calor mútuo entre nossos corpos. — Nem mesmo eu posso derrotá-los sozinhos, Aaron... — Ele diz em um tom mais suave, como fazia antigamente para tentar me acalmar. — Você também não. — Dougie engole a saliva e encara os meus olhos. — Mas juntos... — Ele me estende a mão esperando uma resposta positiva de minha parte. — Eu já falei que não! — Enfurecido com sua insistência acabo me transformando e em alguns segundos já avanço contra o seu corpo. Para que não fosse destroçado facilmente, Dougie se transforma assim que eu tento mordê-lo e nos unimos em uma disputa de feras. Sua forma é de um lobo branco e felpudo da cor da própria neve. Rolamos por toda a tribo e o ataco enquanto o Schmidt esquiva de minhas mordidas ao mesmo tempo que tenta me conter. Todos aqueles golpes trocados resultam em desgraça quando no meio da briga, despencamos em um grande precipício que fica nos limites da sua tribo. Durante a queda eu fico dividido em matá-lo ou usá-lo para aliviar os impactos que certamente receberei dos rochedos ou, pensando melhor, talvez possa matar dois coelhos com uma cajadada só. Assim que o tenho entre minhas patas, o empurro e me impulsiono no ar para que eu caia firme sobre uma das pedras de gelo. Ao ver Dougie manobrar da mesma maneira, não o espero fazer um pouso leve e já avanço em sua direção, mas ele consegue me contra-atacar nos mantendo naquele bate e volta em queda livre até chegamos ao chão sem tantos ferimentos graves, apenas algumas contusões que doeriam por alguns dias. Ainda estamos atracados como dois cães de briga sobre a neve e rolamos um contra o outro até nos separarmos ofegantes e machucados. A adrenalina se torna o combustível que preciso para ignorar qualquer dor muscular e rosno sem demonstrar fraqueza mesmo sentindo o gosto de sangue devido aos ferimentos. Dougie se encontra na mesma situação se fingindo de forte e mantendo a sua pose de alfa irritante. O conhecendo bem, sei que ele não vai desistir facilmente. Ele é o tipo de pessoa que me faria seu prisioneiro até que me acostume com a ideia de tê-lo ao meu lado como um aliado, mas essa conquista certamente ele não terá, pois paro de dar atenção a ele para me atentar a outra coisa que de repente chama a minha atenção e muda a minha expressão. Dougie me encara e abaixa as suas orelhas, curioso com o que estou fazendo. Eu movo a cabeça para os lados e olho para trás de seu corpo como se eu detectasse algo bem longe. Sinto um cheiro de morte e de repente, todos os meus pelos se arrepiaram, pois há muito tempo que não sinto algo parecido, uma espécie de pressentimento r**m que me embrulha o estômago e faz aquela rixa entre Dougie e eu parecer besteira. Eu não sei bem o que está acontecendo ou o que está me chamando, mas não vou ficar parado na neve brigando com Dougie. Eu salto por cima dele e vou embora. — Aaron! — Dougie me persegue. Embora tenha passado tantas décadas desde a última vez que o vi, ele continua o mesmo, mas ainda assim não consigo imaginar o que passa em sua mente. — Não te deixarei fugir de novo... Não lhe dou o mínimo de atenção e Dougie estranha o meu excesso de velocidade naquela caçada sem sentido. O mais curioso além da minha pressa é o destino em direção a um pequeno vilarejo abandonado que fica nos arredores de sua tribo. Ali fazem exatos dez anos que ninguém habita o lugar e não resta muitas casas inteiras, a maioria em ruínas. Demoro vinte minutos correndo o mais rápido que posso até chegar na aldeia abandonada. Meu coração quase sai pela boca devido ao esforço e tento me recompor sem parar de farejar qualquer indício de algo que possa parecer relevante. Dougie faz o mesmo embora não saiba exatamente o que esteja rastreando, não que precise, pois dentre todos os clãs, os Schmidt possuem os melhores sentidos com o dobro de alcance e precisão, o que os torna predadores cruéis. O que eu sinto a metros, eles podem sentir a quilômetros, por isso que é tão irritante fugir de Dougie ou de qualquer um da alcateia Schmidt, já que conseguem ficar no encalço de suas presas a uma longa distância por dias. Dougie corre em uma direção e eu tento esconder o meu ciúme ao ver que encontrou alguma coisa interessante. Não queria admitir, mas os seus sentidos aguçados poderiam ser sim uma grande mão na roda para o que procuro, o problema de aceitar a sua ajuda é tê-lo ao meu lado, portanto descarto qualquer possibilidade e permaneço indo atrás dele, que a essa altura se acha o melhor dentre todos os rastreadores do Alasca. No final do nosso trajeto há um enorme buraco na neve e no seu interior, incontáveis corpos de lobos empilhados uns sobre os outros. Pelo cheiro que sentimos não fazem menos de 24 horas que foram assassinados. — Assim que um lobo morre... — Sussurro. — Ele assume sua verdadeira forma. — Dougie completa e fica ao meu lado. Esse ditado é muito comum e milenar para nós, pois se trata do fim de vida de todo lobo, mesmo que seja morto ou assassinado em sua forma humana, ele volta ao formato animal. Claro que se algum lobo morrer enquanto estiver transformado a forma irá permanecer, mas o fato daquela pilha cheirar a carniça e haver uma chacina com vários lobos, nos deixa claro que são todos de algum clã, provavelmente nenhum dos cinco maiores do Alasca, mas ainda assim são lobos como nós, porém, mortos. A única dúvida é quem pode ter feito tudo aquilo.
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