Prólogo - Parte II

1561 Palavras
Um barulho fino e quase imperceptível é capturado pela minha audição aguçada. Ele corta o ar e vem na minha diagonal. Um tiro certeiro que tenta acertar o meu coração em um ponto crítico. Se me atingir, o impacto é suficiente para fazer meu coração parar de bater em 4.2 segundos. Com tanto tempo vivendo ao redor de caçadores, a gente aprende alguma coisa. Principalmente a lidar com eles. Dou três passos para a esquerda, ergo o braço direito, inclino quatro centímetros em minha diagonal e estico a palma da mão. De repente me vejo segurando o centro do cabo da flecha com ponta de prata. Me pergunto: quem é o caçador agora? Um sorriso brota em meus lábios finos e admiro o objeto que capturo. Pela ponta prateada julgo ser alguém que sabe muito bem sobre lobisomens, principalmente como abater um. Perfeito. Consigo escutar Emilly me aplaudir pausadamente e frustrada. — Hoje não. — Pisco para ela e escuto o som de passos. — Vai me dizer onde ele está ou vou ter que fazer do meu jeito? — Pergunto à loira. — Por que ainda pergunta, se sabe que estou torcendo para a caçadora? — Emilly ri da minha cara. Não era um homem? De repente aquilo se torna interessante. Antes de chegar na parte do grande lago entre as pedras e cachoeiras, alguns corredores me trouxeram onde eu estou agora. É quase como um palácio ou templo escondido por muros brancos e naturais. Não era qualquer pessoa que pode entrar ou que consiga ter acesso. Presumo que não se trata de um caçador comum. Descarto qualquer possibilidade de perseguição, pois, se houvesse me seguido, com certeza eu sentiria pelo faro. Minhas suspeitas estão certas. Seja lá quem ousou enfrentar o lobo dentro de seu território sabe exatamente a existência do clã Schneider. Me movimento e saio dali em um piscar de olhos. Como um bom lobo, a rastreio pelo faro. Seus passos tornavam-se mais altos à medida que me aproximo em uma velocidade sobre-humana. Vejo a figura de uma garota encapuzada. Ela usa botas e luvas de couro com alguns trapos que m*l lhe cobrem o quadril e b***o. Em suas costas uma aljava de flechas de prata e na mão esquerda um arco automático de disparo preciso. Ela ofega e embora tente controlar a respiração para se manter furtiva, não tem como se esconder, pois os seus batimentos me dizem onde encontrá-la. Continuo na brincadeira de cachorro e gato em perseguição. A tensão apenas aumenta para ela e tenho que saltar em algumas pilastras para chegar na sacada de cima e encurralar a presa. A todo momento a caçadora misteriosa olha para trás. Se soubesse que eu estou a alguns metros em sua frente não cometeria esse erro. A cena fica mais emocionante quando a garota vira para frente e o seu coração quase para de bater ao me encarar repentinamente. Ela estava longe de ser boa e rápida, pois não teve como se esquivar das minhas mãos que a capturaram. Fecho os cinco dedos em seu pescoço e a ergo do chão. Em seguida, jogo suas costas contra o piso e escuto seu gemido de dor, mesmo que com dificuldade por estar prendendo sua traqueia. Pelo barulho, pude perceber quebrar uma ou duas costelas no impacto. Da sua boca, além de saliva, saía sangue também. — Se quiser matar um lobo, tente confundi-lo com odores. — Pressiono um pouco mais o seu pescoço e com a outra mão lhe tiro o capuz e vejo os seus olhos azuis me encarando. Ela tem a pele branca e cheia de sardas ruivas. Os cabelos ondulados e cheios até a cintura. — Qual o seu nome, caçadora? Ou devo dizer, caça? — Pergunto e em troca de uma resposta, diminuo um pouco a pressão em seu pescoço para que me responda. — Posso saber? — N-não... — Ela tosse tentando recuperar o fôlego. — lhe interessa... — Certo, “não lhe interessa.” — Meus olhos mudam de castanhos para prateados. Ela para pôr um momento. Não como se a vida dela dependesse disso ou estivesse amedrontada. A caçadora, que agora é minha caça, está encantada. Não me surpreende nenhum pouco, aliás, todos ficam assim ao ver meus olhos mudando de cor, mesmo os próprios lobos. Eu rapidamente abro a boca para que as presas cresçam e a mordo, dessa forma eu sinto o sangue jorrar em meus lábios enquanto a ouço gemer desesperadamente. — ARRRHG! — Grita a ruiva. — Você morrerá em três dias por causa dessa mordida. — Me levanto e lambo meus lábios. — Primeiro virá a febre e depois as alucinações. Em seguida, náuseas e dores musculares. Depois, sofrerá com cada osso do seu corpo tentando se moldar, rasgando a sua carne e estourando as veias que não vão se regenerar, a menos que você seja de algum clã propício a transformações sobrenaturais. — Pigarreio e deixo a sola do meu pé contra a maçã de seu rosto. Brinco de mover para a esquerda e para a direita. — Como duvido que seja, seu corpo sofrerá hemorragia interna e se por fim você se afogará no próprio sangue até morrer agonizando, mas com sorte, você enfartará antes disso. Ela não parece nada feliz com minha explicação. — Entretanto, você pode ir direto, onde existe uma vila próxima a quinze quilômetros. Logicamente, você não vai aguentar correr na neve e cairá inconsciente e morrerá de inanição e frio. — Solto a garota que começava a me entediar. — Pode ir. Daqui a meia hora vou partir na mesma direção e se eu te encontrar agonizando, prometo acabar com isso rápido. A vítima não perde tempo e começa a jogar o meu jogo. Vejo a caçadora quase abatida segurar o ombro ferido e me encarar uma última vez no fundo de meus olhos. Os seus cabelos ruivos estão contra o rosto e a saliva escorre junto ao sangue durante uma tosse violenta. Foi a última coisa que vi antes dela me dar as costas e sair cambaleando em direção a saída. Talvez reze para encontrá-la e terminar o serviço rapidamente como prometi. Mas, antes disso preciso me arrumar pois tenho outros objetivos a cumprir. Me dirijo até o quarto onde estava para pegar o restante de minhas roupas e volto para o jardim de túmulos. Dessa vez, caminho calmamente contando os segundos até me colocar diante de meus entes queridos. Eu abotoo a camiseta social azul e arrasto as mangas até os meus cotovelos. — Quando vamos nos reencontrar? — Emilly me pergunta. — Faltam dois Schneiders. — A encaro por cima do ombro e volto a atenção para as botas de couro que estou calçando. — Parece que a próxima cidade tem algo para mim antes de continuar a minha caça. — Com dificuldade, digo pausadamente até encaixar o pé e sentir pisar nas solas. Como odeio me vestir igual eles. — Te vejo por aí. — Ergo a mão e vou embora. Assim que coloco o relógio de prata envolta do meu pulso e saio pelos becos de pedra da cede do clã, vi que faltava alguns minutos para chegar ao local que marquei de matar a garota. Eu saio de um pequeno buraco em meio a enorme montanha e olho para cima admirando as boas e velhas nuvens acinzentadas. Em alguns minutos uma tempestade de neve poderia cair. Abaixo de meus pés um tapete de gelo. Nenhum pelo do meu corpo se arrepia. É como se o frio e eu fôssemos apenas um. Olho para baixo, para os lados, procuro e encontro as pegadas da garota que me levam em uma direção a noroeste. Demora uma hora e vinte e sete minutos para chegar aonde ela estaria caída. Flexiono os joelhos e fico na ponta dos pés, de cócoras. Minha mão passa naquela superfície e tateio o local com curiosidade. Algo não saiu conforme eu havia planejado. Posso contar nos dedos de uma mão quando um cálculo meu está incorreto. O corpo da garota não está lá. E como se não bastasse, não há vestígios de pegadas. Muito menos de algum outro transporte. Ela simplesmente havia desaparecido. Nesse momento fico pensativo. À minha frente uma floresta. Galhos, troncos firmes e pesados que sustentaria facilmente uma pessoa ou mais. Pode ter escapado saltando de um arvoredo em outro. — Só pode estar de brincadeira comigo. — Sussurro. Me levanto e continuo a caminhar. Foi então que um estalo bate em minha mente. Aquela ruiva pode ser da mesma linhagem sanguínea de Antonieta. Alguma parente querendo fazer justiça, claro. Não me lembro de ter analisado a fundo a árvore genealógica daquela mulher que matei, mas essa caçadora fajuta e inexperiente... Tenho quase certeza de que ela também é uma possível Schneider. E se isso fosse verdade, estaria em transformação? Sim, pois eu a mordi. Minha mente está explodindo em ansiedade e conjecturas, pois, sou um alfa que transmitiu o dom, ou melhor, a maldição de se transformar para uma garota como aquela. Faz tempo que eu não sou responsável pela criação de um beta e pela nossa linhagem, estou certo, ela me dará trabalho. Na melhor das hipóteses, eu que daria trabalho a ela, pois esse fato me torna novamente um caçador e a minha presa agora será ela... A número 498
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR