O alfa - Parte I

1940 Palavras
Passaram-se aproximadamente três dias desde o ocorrido com a caçadora misteriosa e por mais que tentasse encontrá-la durante esse tempo não obtive resultados satisfatórios, sequer um vestígio ou rastro, nem ao menos boatos pelos vilarejos vizinhos. Pode ter sido minha culpa, pois acredito que não dei o meu melhor para encontrá-la. Deduzo que, se ela tentou me matar uma vez, com certeza tentará de novo e nessa nova tentativa virá uma nova falha e então não a deixarei escapar novamente. Me odiei um pouco nos últimos dias por ter brincado demais com a garota, coisa que não é de meu habitual, mas não alimentei o meu desprezo por muito tempo. Me afundar no sentimento de fracasso seria um prato cheio para Emily me encher o saco e eu jamais darei esse gostinho à minha “irmã.” O que mereço hoje, depois de tanta procura em vão é um bom descanso e quem sabe um pouco de prazer. A julgar pelos dias que se passaram, pode ser que a ruiva tenha completado a sua transição se não morreu no processo, o que será quase impossível já que é uma Schneider e possui uma linhagem propícia para maldições. Isso chega a ser desanimador, mas não tanto quanto saber que serão os três piores dias de sua vida pois, o processo entre a forma humana e lupina é sem dúvidas o mais doloroso de todos. Suas marcas não ficam apenas na pele, o psicológico é muito abalado e por isso algumas pessoas morrem no processo. Ficar deduzindo seu sofrimento agora não me levará a nada. O que posso fazer depois dessa procura fracassada e malsucedida é beber. O Alasca é repleto de ótimas bebidas e sou um bom apreciador delas. O bom de beber aqui é que não precisamos de gelo. Paro em uma taberna qualquer de um vilarejo afastado que costuma receber viajantes e peço um whisky puro para saciar a minha sede de vingança. Distraído, procuro algo digno de minha atenção e por sorte, nessa mesma noite eu encontro um casal perfeito. Eles e eu demos boas risadas e jogamos conversas fora. Se trata de dois viajantes que possuem um trailer e tudo fica mais interessante quando eles me convidam para conhecer o local. Na manhã seguinte, mesmo atordoado de sono e ressaca, mantenho as sensações e lembranças do que aconteceu entre o casal e eu em toda a madrugada. Primeiro as bebidas que levaram a dança e um bom passeio em uma trilha floresta à dentro rumo a sua casa sobre rodas. Humanos gostam muito de se divertir, mas nem sempre conseguem ir até o fim inteiros, mais precisamente, vivos. Meus olhos se abrem e veem a obra de arte que agora é aquele lugar banhado em alguns tons rubros pelas paredes e os móveis. Fizemos uma bagunça e tanto. Sempre ouço por aí dizerem que não sei brincar, já outros dizem que brinco demais e depois dos últimos acontecimentos, só tenho a certeza de que todos os boatos são verdade, mas pensar sobre isso traz de volta toda a frustração e para lidar com ela eu prefiro levantar-se de uma vez. Assim que me sento, levo a mão na têmpora e vejo tudo rodar e parar nos olhos azuis e arregalados da loira despida que já não possuía mais vida. Sua jugular está destroçada e não bombeia mais sangue. Não contenho meu sorriso bobo de moleque apaixonado e mordo o lábio inferior sem esquecer de me certificar do outro corpo à minha esquerda. Lá está o seu ex-namorado moreno de olhos verdes que não parece muito feliz. Ele presenciou o quão selvagem o lobo dos contos de fada poderia ser. Sinceramente, o acho um grande m*l-agradecido, pois o fiz delirar a noite toda quando rolou uma grande festa com música, álcool, sexo e sangue. O som de seus gritos ainda permanece em meus ouvidos enquanto eu o devorava junto à sua garota. O único problema foi assim que me satisfiz e resolvi me alimentar de um outro jeito mais sangrento. Uma pena apenas eu tenha apreciado a sobremesa e nem no inferno terão uma noite como essa novamente. — Literalmente... — Penso alto acompanhado de um riso bobo. — Ai! — A cabeça ainda dói um pouco e tento me recompor. Me levanto para valer. Procuro por pouco tempo uma cafeteira e coloco água e o pó para fazer um café. Ao contrário de mim, eles não fazem tanta bagunça. Consigo devorar alguns cereais ainda na caixa perdido pelos armários, mas não encontro muita comida, principalmente no freezer. Devo fazer uma nota de meu próximo encontro levar em consideração o poder monetário de minhas vítimas. Com o pouco que me resta e o café pronto, dou apenas dois goles e deixo a xícara de lado nada satisfeito pela marca não ser uma das melhores e como não há nada mais interessante aqui, procuro o meu próximo destino. Estressado e ainda faminto, estalo meus ossos como um verdadeiro animal se alongando pela matina e sinto os pelos prateados crescerem em minha derme. Me deformo em uma transformação logo pela manhã, o que se tornou um hábito para correr e caçar bem cedo pelas neves do Alasca. Minha pelugem da face está tingida metade de prata, metade de vermelho e em meus dentes há resquícios de carne humana. Sem me importar com maiores detalhes, dou um solavanco na porta do trailer e saio. Minha pata dianteira toca o gelo, eu sinto cada pelo meu arrepiar e arqueio o meu dorso começando a uivar para acordar a floresta. O sol ainda não havia raiado, pois são cinco horas da manhã. O inverno do Alasca é rigoroso, porém, me traz aconchego. Há beleza em cada floco, cada árvore por mais que algumas já não possuam as folhagens de antes. Exceto pelos pinheiros, pois eles sim são grandes e fortes. Os lagos daqui a maioria estão congelados, mas sempre há uma forma de pescar se você quebrar a superfície ou encontre um buraco já feito pelos pescadores. Isso me faz lembrar que preciso encontrar um alimento descente até chegar na próxima cidade. O estômago ronca e por mais que eu tenha brincado com aquele casal, os humanos não são o meu prato preferido. Como todo lobo, prefiro a emoção de uma caça, crua ou bem passada. Meu próximo passo será caçar, mas pelo movimento dos arredores alguém teve a mesma ideia. Duas perseguições à minha cabeça em menos de cinco dias e não sei se me sinto importante ou odiado. Desde que abri os meus olhos mais cedo eu soube que estava sendo vigiado. Que havia presenças estranhas rondando o trailer. Eu acordei justamente por isso, mas, o calor e aconchego dentro do vagão é tão gostoso que me demorei até dar as caras aos visitantes inesperados. Todos são lobos, uma pequena alcateia que cheira m*l, pois, qualquer um daquele sangue em específico me causa horríveis sensações e me trazem péssimas memórias. Me vejo cercado por um arco de alguns dez que são liderados por três naquele momento. O da frente, aproxima e deixa os demais para trás se apresentando debochado: — O lobo de prata, mas que honra! Não se assustem pois os lobos conseguem falar entre si. Normalmente, outras criaturas escutam rosnados, grunhidos ou uivos que por trás disso existe um dialeto que somente nós entendemos. O lobo possui os pelos em cor ruiva meio enferrujada. Pouco menor que eu e mesmo assim se mostra esguio e traiçoeiro, tanto é que ele dá uma volta sutil por trás dos galhos secos das árvores mortas para me cortejar e impedir do que eu fuja. Eu me sento e em seguida me deito começando abano o r**o tranquilamente. — Ousa zombar de mim, Schneider? — Ele rosna. Posso ver a saliva escorrer de seus lábios pretos e ficar densa pelo frio absurdo que faz aqui fora. Minha posição inalterada o irrita mais do que se tivesse lhe respondido a altura. Ao se sentir subestimado, o lobo se posiciona para me atacar, mas é interrompido pelo próximo: — Se quiser continuar com as suas patas no lugar, fique onde está. — Disse o outro lobo n***o e de olhos bem dourados... Um deles somente. O outro havia perdido... — Não me interrompa, Javiax! — Rosna o lobo ruivo. A cena me diverte com os dois lobos brigando entre si. Permaneço deitado alternando o movimento do focinho entre ambos a cada vez que um retruca ao outro e mexo um pouco a barriga no chão para espalhar aquela neve fofa abaixo de mim. Meu próximo movimento é deitar a maxilar entre as patas cruzadas e descansar, aproveitando bem a cena patética dos dois imbecis. — Jackson... — O lobo n***o repreende o ruivo e toma sua frente. — Quieto! Chega de suas imprudências! Por causa delas perdi o meu olho para salvar esse lixo que você chama de vida! — Disse Javiax. — Então, esse é o famoso Aaron? — O terceiro lobo se junta a conversa. Ele vem pela retaguarda, mas não faço questão de cumprimentá-lo. Pelos meus sentidos aguçados, há mais cinco escondidos na floresta totalizando quinze, somando aos dez na minha frente, mas ainda há um décimo sexto... Só que esse em específico me é familiar, creio já tê-lo encontrado antes. — O Alfa vai ficar feliz em vê-lo, não acha? Tantos anos procurando o líder do clã que quase o matou. — Ele ri. — O jogo virou, lobo de prata. — Me cansei disso... — Olho para todos que podia e minha voz é suficiente para calá-los. Escuto as batidas seus corações acelerados e suas patas tremem, mas certamente que não é pelo frio. A minha reação os angustiava e eu demonstro muita segurança diante deles fazendo pouco caso. — O que Nero quer? Passar vergonha? Com a idade que tem deveria estar sentado tomando chá e criando murmurinhos. — Rio debochado. — Entretanto... — Paro para pensar e contínuo: — se minha memória não falha, nunca tentei matá-lo, embora merecesse. — Não fale assim do nosso antigo alfa! — O ruivo toma as dores e se intromete. — Antigo? — Desato a rir. — O que houve com o vovô? Pegou uma gripe e morreu? — Um de meus melhores passatempos é rebaixar e zombar dos Schmidt. — Ora seu... — O ruivo salta e me ataca. — Jackson, não! — Javiax, o lobo n***o, tenta impedi-lo em vão. Jackson avança contra mim. Ele impulsiona com as duas patas traseiras ganhando impulso e arqueia a cabeça três centímetros à direita na intenção de cravar os caninos em um ponto vital do meu pescoço. O lobo ruivo olha diretamente no fundo de meus olhos prateados e por conta disso, no meio do caminho ele perde todos os sentidos. A atitude impensada de Jackson me dá a certeza de que ele não sabe muito sobre os Schneider e suas maldições. Tudo isso começa através de nosso clã e seu convívio com as bruxas nos seus melhores períodos, mas é uma história a ser contada em um outro momento. A questão agora é que, assim como Emily eu também possuo uma habilidade especial que se resume na manipulação mental e corporal de qualquer criatura que não tenha “sangue azul,” ou seja, uma denominação para as espécies de primeira linhagem como os alfas que sempre estão no topo. Suas criações, devido as mordidas, são de uma descendência e ficam na segunda linhagem se ramificando para baixo na pirâmide hierárquica. Quem morde e transforma sempre é mais forte que o mordido e nesses termos nascem os betas, gamas e assim sucessivamente.
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