Do jeito que Jackson vem até mim, eu ergo meu tronco e cravo as presas em sua artéria principal. O sangue jorra em meu rosto que já está marcado desde cedo e as minhas patas afiadas arremessam o que sobra do seu corpo para longe. A partir do momento que me encara, meus olhos prateados ordenam que ele fique instantaneamente parado e isso é o suficiente para fazer o predador se tornar presa, mas agora é tarde para Jackson. Eu puxo sua pele de vez entre as presas e acabo de dilacerá-lo formando um chafariz de sangue sobre a neve.
— Agora são onze. — Digo.
— Onze? — Javiax questiona.
— Senhor... — Um lobo aparece correndo do interior dos arvoredos. — Cinco dos nossos fugiram!
Talvez agora a minha contagem fizesse sentido para Javiax. Os cinco lobos ocultos fugiram de medo e isso é tão típico dos Schmidt que reviro meus olhos assim que o ouvi. Obviamente que nem todos da alcateia eram assim, embora eu os repudie e sempre encontre uma maneira de diminuí-los, por mais que depois dos Schneider, na minha opinião, os Schmidt sejam os mais fortes do Alasca, o que não quer dizer que seja totalmente verdade. Só que infelizmente hoje só tiveram o desprazer de cruzar comigo, um lobo assassino do próprio clã e de certo modo fugitivo entre as outros clãs. Parando para analisar, se fosse eu no lugar deles, também fugiria e creio que assim seria com qualquer lobo que tenha inteligência, bom senso e amor à vida.
— Maldito... — O lobo atrás de mim, recua. — Se o nosso Alfa estivesse aqui...
— Ele morreria do mesmo jeito! — O afronto e mostro as gotas de sangue que escorrem das presas até o chão. — Como esse aqui. — Cuspo um pedaço de carne.
O que parece ter acabado reinicia assim que a outra figura que nostálgica a qual senti a pouco aparece desfilando e abrindo caminho entre os lobos machos. Vê-la me deixa irritado e volto a cair no chão mais uma vez para me deitar, pois, a conhecendo bem sabia que aquilo iria durar mais um pouco.
— Engano seu, Schneider. — Disse a loba. — Você fala como se apenas o seu clã fosse amaldiçoado. — De toda alcateia Schmidt, há somente uma loba mais velha, o resto no máximo são crianças ou jovens que quando chegam a fase adulta são assassinadas assim que dão à luz à um filhote para que somente a rainha predomine soberana. A própria “alfa” faz questão de matá-las em um ritual público como demonstração de seu poder, só que felizmente esse costume esquisito e desnecessário, a meu ver se aplica somente aos Schmidt.
— Quanto tempo, Alícia. — Meu tom de voz soa arrastado e preguiçoso. Deixo nítido que não estou entusiasmado em vê-la desde o nosso último encontro junto ao antigo alfa. Isso foi a aproximadamente 423 anos atrás. — Não queria me dar ao luxo de encarar as suas rugas. — A provoco. — Depois de tantos anos devem estar horríveis como você.
— Palavras vindas de um sem-bando não surtem o menor efeito em mim. — Fala e para diante dos outros lobos. — Dito isto, vejo que continua o mesmo menino medíocre de sempre. — Ela sabe como eu odeio ser desdenhado e faz de propósito o que faz Alícia, dentre todos ali a única capaz de ter minha atenção. — Todo Alfa de qualquer alcateia possui o que VOCÊ — Deixa claro — chama de maldição. — Ela ri e continua como uma professora chata empurrando a matéria goela abaixo de qualquer aluno rebelde. — Quando na verdade o nome real dessa “maldição” é INSTINTO.
Não se trata literalmente da palavra instinto, como em animais. Entre nós o INSTINTO é um termo utilizado pelas alcateias que simboliza uma espécie de dom para alguns, maldição para outros. O instinto é um poder que destaca alfas, líderes, generais ou anomalias no sangue que concedeu tal poderio nobre a uma raça de segunda linhagem para baixo (casos de 1 em 1.000.) Famílias de primeira linhagem e seus membros sempre possuem um único instinto enquanto alfas podem possuir até três, dependendo do seu nível (outro caso raro de 1 em 1000.)
— Que seja. — Reviro os meus olhos com toda aquela explicação entediante. — E que “INSTINTO” é tão poderoso o suficiente para acabar com o velho Nero? — Pergunto.
Por um lado, eu estou curioso em saber a que se deu o fim do antigo alfa. Não me dava bem com o velho Nero, nunca dei, mas, admito que quando o conheci era bastante poderoso e me recuso a acreditar que morreria para um alfa Schmidt qualquer depois de tanto tempo governando. Para mim, Javiax seria forte suficiente para abatê-lo, depois de todas as suas histórias de guerra. Mas, outro além desse parece improvável e estranho para mim.
— Está com medo? — Ela me pergunta sem retirar o sorriso do rosto. — Dou-lhe apenas uma dica... — Sempre misteriosa, irritante e desinteressante: — Ele possui mais de um. — Saber daquilo me faz erguer a b***a do gelo e sacudir o corpo até retirar o excesso de neve que disfarça a minha surpresa. — Só que ele não precisou de nenhum para assassinar Nero. — Depois dessa afirmação se torna desafiador esconder todo meu descontentamento.
— Se ele é tão bom assim, por que não veio pessoalmente? — Em minhas palavras rudes, mascaro toda inveja e ciúme que sinto naquele momento, o fato de saber que existe alguém à minha altura é repulsivo. — Ou melhor, por que ele me quer? Um simples lobo solitário e sem casa... — Ironizo por trás de minhas dúvidas reais.
— Não seja modesto, Schneider. — Alicia continua a andar sob suas quatro patas marrons e felpudas. — Você é o lobo mais procurado das cinco grandes tribos. — Corrige: — Quatro, devo dizer, já que a sua não existe mais. — Caso eu mesmo não houvesse extinguindo o meu clã com minhas próprias mãos, me sentiria muito mais ofendido do que estou agora.
— Ou talvez... — Abaixo o focinho e gargalho. — O alfa enjoou do seu corpo usado pelo Nero e os outros líderes em todos esses séculos e prefere alguém mais... atraente. — Conheço Alicia e sei que facilmente explode quando alguém toca nesse assunto e a atingem onde mais dói, já que desde o início dos Schmidt, ela foi a única rainha e os boatos sobre ter passado por vários alfas lhe faz ser chacota entre os que a desprezam.
— Aaron, seu filho de uma...
Aquilo é o suficiente para iniciarmos uma batalha e todos os lobos saem das suas posições para tentar me perseguir enquanto eu corto a floresta rindo das expressões fúteis de Alícia que caiu em minhas provocações. Em um piscar de olhos, a loba aparece surge em meu encalço e por pouco não rasga meus tornozelos ou o meu r**o com suas mordidas ferozes, que me faz lembrar do seu maldito instinto de velocidade. Por mais que eu seja rápido, m*l consigo me desvencilhar de Alícia, no máximo me esforço para acompanhá-la antes que tente passar por mim. Um rápido momento de distração e tudo acontece de repente, a briga entre dois grandes lobos termina quando a tonalidade marrom se une à prata e ao branco da neve. Logo estamos no chão, embolados em um cabo de guerra pela força que decidirá quem morderá o outro primeiro. Alicia é rápida e consegue percorrer quilômetros em segundos, mas, eu sou mais forte e mais bem treinado. Por ser uma rainha, meu controle através do instinto não funciona contra ela, só que para bater em alguém da sua laia eu não preciso de meus olhos e isso se torna evidente quando em segundos já me coloco por cima da loba e a imobilizo pelo pescoço usando a minha pata.
— Se ofendeu? Coitadinha... — Zombo. — Devo te fazer se curvar nas minhas patas ou lambê-los primeiro, majestade? — Uivo alto e esqueço dos demais à minha volta, dando uma a******a.
Os lobos vêm em nossa direção, me obrigam a largar minha presa e correr rumo à floresta. As duas únicas opções que tenho se resumem em despistá-los ou escapar da rapidez sobre-humana de Alícia que me alcançará em questões de segundos assim que ela se recompor. Ainda que eu possua duas alternativas, a mais eficaz é continuar em frente mesmo que não seja o tipo de lobo que recua de uma boa briga. Tenho em mente que se ao menos desviasse da perseguição da alcateia, poderia pegá-la sozinha, pois mesmo que eu não seja mais veloz do que Alícia, com certeza sou mais inteligente e mais astuto.
Durante a corrida, sumo por entre os galhos cobertos de neve como uma sombra e consigo despistar os lobos. Tentar recobrar a respiração em pouco tempo é uma tarefa impossível quando se está correndo desesperadamente a ponto de os arvoredos passarem diante de seus olhos como vultos em movimento. Talvez se eu conseguir me esconder possa ganhar tempo para pensar em como lidar com a situação, mas nem tenho essa oportunidade. Em cima de um tronco caído pelos fortes temporais e cobertos de neve, Alícia surge e me surpreende logo à frente. Fui ingênuo ao deduzir que só o meu faro e meu instinto são os melhores do Alasca, e é por pensar assim que há um projeto de Schneider em transição no meu território. Sem tempo para desviar, pois o chão era escorregadio e traiçoeiro, cravo as unhas nos locais mais sólidos e improviso um freio repentino que deixa o meu rastro na neve. Por pouco consigo parar a tempo, mas minhas unhas sangram e ardem devido as contusões bruscas e mesmo com a dor me incomodando nada mais me aflige do que o ódio que estou sentindo daquela mulher repugnante e insistente.
— Você pode se esconder, mas não correr. — Alícia brinca com a frase dita ao contrário do comum, mas é o máximo que consegue, pois piadas não são o seu forte e nem seu raciocínio tão rápido quanto as próprias patas. — Você correu bem, Schneider, portanto vou te dar um presentinho à altura! — A loba rosna e mostra seus caninos, pude ver a presa lupina de Nero em sua mandíbula.
— Um transplante de presa? — Meu semblante muda. — Que vergonha. — Pode não parecer, mas me preocupo com qualquer assunto relacionado a transplantes de presa. É um ritual proibido, mas, creio que não sou o mais honrado dentre os lobos para julgar um ato hediondo como esse. Quando um alfa morre o seu instinto continua em suas presas. Para que não caiam em mãos erradas, o corpo deve ser cremado até se tornar cinzas. Lobos de baixa índole e sem muita sorte na vida, retiram a presa e procuram magia bruxa para transplantá-la na arcada dentária e assim adquirir o instinto do alfa que se foi. — Não acha que já é escrota o suficiente com toda essa velocidade e ainda ter que apelar para... — Alícia me interrompe surgindo atrás de mim e não se mostrava mais interessada em qualquer diálogo.
Suas investidas ferozes me submetiam a esquivas e saltos para desviar de suas presas mortais, mas não apenas isso, suas garras eram tão afiadas quanto os caninos e podia me repartir ao meio se eu abrir qualquer brecha. Sua saliva respinga em meu rosto e consigo sentir o cheiro da carne que comeu hoje de manhã impregnado em seu hálito quente, o que quase me desnorteia e me faz perguntar como alguém consegue beijá-la. Brincadeiras a parte, aquela boca agora faz muito mais do que comer carne ou beijar bocas. Alicia possui o instinto do antigo alfa Nero e isso é informação suficiente para me querer longe de qualquer mordida sua.
— Já disse, não adianta correr, Schneider! — Ela está certa. Alícia novamente me encurrala, pois, aproveitou de que eu estou evitando as mordidas para me conduzir contra um muro de pedra natural com algumas árvores sobrepostas com a queda das tempestades.
— Calma, calma... — Eu zombo. — Amiga, amiga... — Me encolho e a ouço rosnar.
— Se entregue. Não lute ou será pior! — Me ameaça.