O alfa - Parte III

2060 Palavras
Lidar com aquela situação é complicado, mas creio que toda essa perseguição até aqui já deu para ambos. Quero dizer, eu me pergunto desde quando restrinjo minha verdadeira força para lidar com lobos de segunda como Alicia e seu bando. Poderia ser pelo fato de possuir alguma consideração devido uma união momentânea entre nossos clãs no passado ou somente piedade por conhecê-la desde que era um filhote, mas sou pego em um dilema; eu não perdoei a família Schneider, a minha alcateia, sangue de meu sangue, então por que diabos deveria me conter quando estou diante de uma pobre loba infeliz que vive dos dentes do seu antigo alfa? O que eu preciso é mostrar a ela o que se faz com lobos da sua categoria que se rebaixam ao roubo de uma presa, sim, pois, por mais que não faça sentido, mesmo eu sendo o pior vilão daquele território, o responsável pelo m******e Schneider, jamais tive a infâmia de roubar dente de familiar algum e olha que tinham vários à minha disposição. Tenho que derrotar Alícia jogando o mesmo jogo sujo que ela, sendo baixo e traiçoeiro e não há motivos para honra, muito menos sendo uma Schmidt. Eu preciso confundi-la e para isso tenho a ideia perfeita. Fecho a pata ensanguentada que se transforma em meu punho humano. As patas traseiras voltam a se tornar pernas e estico o meu corpo sinalizando que investirei contra sua forma lupina. Por segundos volta toda a sensação de náuseas, confusão e incômodos na transmutação e Alicia não entende o porquê de desfazer a minha forma de lobo, e esse seu devaneio é justamente o que preciso para pegá-la desprevenida. Tudo acontece muito rápido e vejo minha mão fechada acertando sua mandíbula em um soco de direita. A sua presa, ou melhor, a presa de Nero rasga a minha mão quase por inteira e me quebra alguns ossos dos dedos, mas o estrago que faço nela é muito maior. Meu golpe estraçalha o canino em pedaços e então ela fica convicta de que jamais poderá utilizá-lo novamente, já que mesmo sendo uma presa muito forte, assim que é transplantada, o canino perde sua resistência e seu poder original, mas o que me estranha é Alicia ter imaginado que uma cópia barata ou que um roubo iria se equiparar ao original. — ARRRRH?! — Ambos rugimos de dor. Caio para um lado e ela para o outro. Sua pata tampa a boca ensanguentada e eu sinto o sangue jorrar pelo pulso em uma dor excruciante. Enquanto estou segurando meu pulso e rolando no chão gemendo, perco momentaneamente o movimento não só da mão quanto do resto do corpo. O instinto de Nero paralisava qualquer criatura e até mesmo gigantes com apenas um simples corte. A combinação da paralisia junto a velocidade pode tornar alguém quase que indestrutível, ou seja, conhecendo Alícia e sua índole, provavelmente não tomou o clã Shcmidt para si pois esse tal “alfa” deve ser verdadeiramente forte o suficiente para amedrontá-la ou a trata muito bem na cama. Não posso fazer absolutamente nada. Uma das poucas vezes que me sinto impotente, mas sei que eles não vão me querer mortos, pois, sou por algum motivo, precioso demais para o seu alfa. Olhando por um lado, não foi uma derrota, já que eu mesmo me causei aquilo e por consequência o que me resta é ser levado até o grande lobo mau da tribo dos idiotas. Ao chegar lá é só esperar meus ossos voltarem para o lugar, o efeito da paralisia passar e aí sim eu farei questão de arrancar dente por dente daquela c****a e lhe dar uma aparência digna de desdentada. Os lobos logo aparecem e me colocam nos ombros junto com Alícia para nos levar embora. Eu quase morro de tédio no meio do caminho. Quando se é prisioneiro, você não tem direito a nada. É frustrante ser arrastado por cinco lobos durante doze longas horas nas direções das montanhas ao sul do Alasca bem longe do clã dos Schneider que ficam ao norte. Minha pele está coberta por uma camada branca de gelo e eu não consigo mover um dedo. A maldição de Nero é muito forte, mas não tanto quanto antes ou seria capaz de ficar paralisado durante uma semana inteira ou até mais se não recebesse tratamento das curandeiras de minha espécie. Quanto a Alícia... sei que seu estado é pior que o meu, pois, a paralisia é passageira, já o seu precioso canino se fora para sempre. Essa é a única parte divertida, saber que eu literalmente lhe arranquei o sorriso confiante e cínico da boca. Logo que subimos a grande colina de pedra e gelo, uma clareira repleta de folhas alaranjadas no topo espera por mim. Há várias tendas de couro que estão por toda a tribo, mesmo que desordenadas. Assim como em meu clã, existem algumas runas de proteção, pois, para evitar os olhos curiosos dos humanos, os lobos sempre recorreram a esses escritos através das bruxas e encantamentos para se camuflar as tribos em meio a neve. Só estando paralisado para admirar com os olhos o que está diante de mim. Uma alcateia de verdade, um clã, uma tribo. Por mais que soe estranho, tento relembrar quantos séculos eu não vejo ou convivo em um meio de lupinos de verdade. A sensação é nostálgica e faz meu peito arder em chamas, uma das poucas coisas que consigo sentir em meio à paralisia. Meu rosto se mantém congelado e é bom assim, já que não quero fraquejar e demonstrar o sentimento de saudade e nostalgia que me recorda o que um dia já fui. Ah, o vilarejo Schneider... Era incrível e confortável. Tão monumental e prazeroso, maior do que esse pedaço de terra medíocre no topo da montanha. A pequena mistura de elementos compõe um cenário harmonioso e feliz o qual eu poderia estar vivendo de fato se tudo não houvesse me obrigado a colocar um maldito ponto final à minha família. Enquanto sou carregado vejo caças que estão penduradas em cordas e o cheiro da carne assando me deixa faminto. Há crianças que brincam umas com as outras, mostrando a evolução de pequenas presas caninas ou o primeiro faro a dez metros de distância que as ajudam a trapacear em brincadeiras como esconde-esconde. E pensar que nunca tive essa mesma sorte. No centro da clareira próximo a uma grande fogueira apagada, os adultos lutavam entre si em conflitos amistosos e depois se encostavam em troncos pesados para beber, rir, falar palavrões e manter os... Laços. Percebo os movimentos de meus músculos voltando aos poucos quando consigo fechar os olhos e respirar fundo, um pequeno gesto que me leva de volta ao passado e que me faz escutar pensamentos que tento relutar para esquecer diariamente. Às vezes me pergunto se eu sinto falta disso... Se sinto falta do meu clã. E essa resposta é algo que realmente não quero compartilhar, não agora, tudo isso que estou revivendo é só um momento, um devaneio e vai passar, mesmo porque já sou trazido de volta à realidade por murmúrios ao meu redor: — Nossa, é ele mesmo. — Sim, o tal lobo de prata. — Não é o garoto que assassinou o próprio clã? — Por que estão o trazendo para cá? — Talvez para dar a ele o que mereça! Todos estão atentos. Um lobo atrai o outro até que se forma um aglomerado de corpos que me observam de cima. Até que é bom ser o centro das atenções por alguns instantes. Isso alimenta um pouco o meu ego como aquelas feras enjauladas as quais não se deve jogar comida. Não é como se eu estivesse no que chamam de museu ou zoológico, mas um vilarejo pacato como o dos Schmidt não possuía grandes atrações, então receber alguém como eu só trazia dois tipos de sentimentos que perturbavam a todos: raiva ou medo. As notícias corriam rápido por aí e as histórias sobre o lobo dos olhos de prata, ou o lobo prateado se tornaram lendas com o passar dos séculos ou apenas histórias para assustar filhotes. Os Schmidt poderiam procurar coisa melhor para fazer do que enfatizar esses boatos, uma vez que nosso mundo atualmente é cercado de tecnologia, mas algumas alcateias que não perdiam o costume tradicionalista, preferem viver no anonimato a se atualizar, fora que a maioria ali nem sabiam direito manusear um smartphone. Não se fala de outra coisa desde que cheguei. Ignoravam Alicia que cobria a boca com um pano todo ensanguentado e passava despercebida. Me pergunto se a novidade Aaron Schneider não seria uma desculpa para de fato tripudiá-la ou esnobar a presença de sua rainha que é intragável. Esse é mais um motivo para cativar o ódio de Alícia, o que não me preocupava nem um pouco pois se algumas pessoas colecionavam presas ou artefatos, eu sou o tipo de lobo que coleciona inimigos. — Onde está o Alfa? — Javiax questiona e sai de sua forma lupina assumindo a matéria humana. Javiax é um homem alto com um tapa olho que cobre a perda do outro que lhe faltava. Sua barba fica abaixo do queixo e possuía uns dez centímetros que ressaltava o nariz fino e empinado. Os traços de seu rosto mostravam um velho homem que lutou bastante por um grande período da sua vida e possuía um penteado engraçado como um coque no topo da cabeça, prendendo seus cabelos negros que iam até os ombros se estivessem soltos. — Investigando “aquele” ocorrido. — Diz um outro lobo que servia de guarda dos Schmidt. — Lavem-no! — Javiax aponta para mim ordenando que me banhem. — Cuidem de suas feridas e o deixem na tenda do alfa como ele pediu que o fizesse. À noite quando ele retornar, deixaremos que faça o resto. Eu fico completamente indignado. Estão pensando que sou uma espécie de boneca? O mínimo que espero ao chegar ali é que me torturem ou me chicoteiem, arranque informações, me matem, me estripem as vísceras ou me afoguem em wolfsbane, uma erva tóxica para lobos, mas me deixar brilhando para receber o líder em sua própria cabana é no mínimo duvidoso e humilhante. O tal alfa misterioso só pode estar brincando de explodir a minha mente antes de me enfrentar... Claro, pois, ser piedoso é muito mais humilhante para alguém como eu do que simplesmente me dar uma boa surra em público. A não ser que... Parando para pensar, talvez fosse muito egocêntrico de minha parte, mas, o alfa sabe que perderia uma luta contra mim e estava tentando me ganhar. É, só pode ser isso... Ou eu estou muito confuso! A cada segundo naquele lugar me vem a vontade de pôr tudo abaixo. Minha expressão de ira não é o suficiente para intimidar as lobas mais jovens que me levam até uma banheira de madeira e água quente para me limparem como Javiax ordenou. Nem a minha mãe me esfregava tanto a ponto de esfolar a minha pele. As esponjas de palha me deixam vermelho e irritado parecendo que eu não gostava de tomar banho, só que a verdade é que não gostava que me dessem banho, principalmente a força. Além disso, meu braço foi tratado com ervas e alguns remédios que aceleraram o meu processo de regeneração e causavam alívio instantâneo. Após todo cuidado, me colocam uma canga branca envolta do quadril e me jogam na tenda do alfa sobre sua cama improvisada de pele de couro de animal e almofadas costuradas com penas de aves. Lá eu fico de cara para baixo e b***a para cima. Eu tento a todo momento voltar a mover meus músculos e com um esforço o dedo mindinho esquerdo dava sinal de resposta, em seguida a minha língua. Pelos meus cálculos, cerca de três horas e estou novo em folha pronto para mais um m******e, dessa vez, na família dos outros. Depois que a lua tomou conta do céu estrelado e a noite caiu, as nuvens pesadas dão trégua durante um momento. A natureza conspira para um encontro inesperado entre dois alfas dos maiores clãs que já reinaram nos domínios do Alasca. Assim que possível, admiraria as constelações, mas até lá sou prisioneiro em uma casa improvisada sobre paus e panos por todos os lugares.
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