Início de uma desgraça

988 Palavras
ANTONELA Dizem que a vida da gente muda de um dia pro outro. No meu caso, foi numa noite. Numa festa. Eu era só a Antonela da Zona Sul. Estudante de jornalismo, filha única de uma cabeleireira que sonhava me ver formada, casada com um engenheiro e morando num apartamento com vista pro mar. Só que meus olhos sempre miraram mais longe. Eu queria o que ninguém da minha rua tinha. Luxo. Poder. Liberdade. Foi assim que aceitei o convite de uma colega da faculdade pra subir o morro da maré numa sexta-feira à noite. Ia rolar um baile, coisa de quebrada mesmo , segundo ela, só gente “braba”, música alta e bebida boa. A curiosidade falou mais alto. A verdade é que eu queria ver o que tinha do outro lado da linha invisível que separava o asfalto do barraco. Queria sentir aquele mundo vibrando na pele. Eu só não sabia que ia me perder nele. Isaías apareceu como quem já era rei muito antes de subir no trono. Um homem grande, a barba bem feita, o olhar de quem não pedia nada, só mandava. As correntes de ouro no pescoço e o copo de whisky na mão deixavam claro que ele era quem movimentava tudo ali. E ele me viu. No meio da fumaça, das luzes piscando, do batidão estourando nos paredões… ele me viu. Me encarou como se já soubesse meu nome, minha história, minhas falhas. E eu, b***a que fui, sorri. A gente conversou pouco naquela noite. Quase nada. Ele mandou alguém me levar até a laje dele . Longe da confusão , e ali eu sentei num sofá que valia mais que a casa da minha mãe inteira. Ele foi direto. Disse que tinha gostado de mim. Que queria me ver de novo. Me perguntou o que eu fazia, onde morava, se tinha alguém. E no dia seguinte, já tinha uma BMW preta me esperando na porta da faculdade. Foi tudo rápido. Intenso. Uma semana depois, eu não conseguia mais sair daquela rotina. Restaurante caro, presente caro, sexo bom. Isaías sabia como manter uma mulher. Sabia como fazer ela se sentir especial. Ou pelo menos, era o que eu achava. No começo, eu voltava pra casa da minha mãe nos finais de semana. Dizia que estava num “relacionamento diferente”. Ela desconfiava, claro. Mas nunca perguntou. Só me dizia pra tomar cuidado, e eu sorria. Como se eu soubesse o que estava fazendo. Só que com o tempo, Isaías começou a mudar. Na primeira vez que me impediu de descer o morro, foi com um sorriso. Disse que era perigoso, que tinham homens de olho em mim, que era melhor eu ficar ali. Na segunda, já não foi sorriso. Foi ordem. Isaías — Você não tem mais o que fazer lá embaixo — E de repente, eu estava presa numa jaula de ouro. Minha vida virou luxo e silêncio. Maquiagem cara e solidão. A comida vinha de restaurante, o vinho era francês, mas minha liberdade tinha sido trocada por um grilhão invisível. Ele me dava tudo. Menos o direito de ir embora. Antonela virou a “mulher do chefão”. A favorita. A rainha. Mas rainha presa ainda é prisioneira. As traições começaram cedo. Na verdade, acho que nunca pararam. Só que ele sempre voltava pra mim. Sempre dizia que eu era “a número um”. Que as outras eram rua, e eu era casa. Eu fingia que não via. No começo, chorei. Depois, calei. Quando me dei conta, já não me importava. Aprendi a sobreviver ali. Aprendi a fechar o coração e abrir o sorriso. Mas tudo começou a ruir de novo quando ele falou, com a voz casual de quem comenta o tempo: Isaías — Meu filho vai voltar — Eu congelei — Ele mora no morro do juramento. A mãe dele era de lá. Morreu tem pouco tempo. Agora ele vai vir pra cá. Vai assumir o lugar dele. Assumir? Que lugar? Isaías nunca falava muito sobre o passado. Mas eu sabia que tinha um herdeiro. Um tal de Mateu. Nunca o vi. Nunca perguntei. — Ele sabe de mim? — perguntei, com a voz baixa. Isaías só sorriu. Um sorriso de canto, enigmático. Isaías — Vai saber — respondeu, seco. E voltou ao assunto como se estivesse falando do preço do gás ou da previsão do tempo. Ele era sub no morro da Reta. Agora que a mãe dele morreu, vou trazer ele pra cá. O moleque precisa aprender como é que se cuida de um império. Engoli em seco. Não falei mais nada. Mas por dentro… minha mente já não parava. Um filho que Isaías mantinha longe, como quem guarda uma carta na manga. E agora… agora ele ia voltar. A ideia de dividir a casa com um estranho, herdeiro do Isaías, me deixava com os nervos à flor da pele. Não era ciúme. Era intuição. Era desconforto. — Ele é novo? — perguntei, tentando soar casual, mesmo com o coração acelerado. Isaías bebeu o gole devagar. Isaías — Tem uns trinta e poucos. Moleque já tá no corre faz tempo. Isaías adorava brincar de Deus. Tirar, dar, escolher. Se o filho ia ou não voltar, se ia ou não saber de mim, se ia ou não me respeitar… tudo era escolha dele. Passei os dias seguintes com isso na cabeça. Tentei seguir minha rotina: pilates na varanda, vinho caro na taça, manicure em casa. Mas nada me deixava em paz. A presença dele, mesmo sem estar ali, já ocupava espaço. Isaías não falava mais nada. Só soltou aquela frase seca: Isaías — Quando ele chegar, quero que esteja tudo certo — Tudo certo.. como se eu fosse parte da decoração. Como se meu lugar ali fosse uma vitrine. E talvez fosse. OBS: AMORES COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA.. ESPERO QUE GOSTEM DE MAS UNS DOS MEUS LIVROS s2 ..
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR