sem saida

738 Palavras
O carro avançava pela estrada vazia, cercada por mato dos dois lados. Quanto mais eles seguiam… mais longe Carla sentia que estava de tudo. Do mundo. Da vida dela. De qualquer chance de escapar. Ela olhava pela janela, tentando reconhecer algum caminho… alguma saída… qualquer coisa. Nada. Só escuridão. E eles. — Pra onde vocês estão me levando? — a voz dela saiu falha. — O que vocês vão fazer comigo? Silêncio. Brandão dirigia com firmeza, os olhos fixos na estrada, como se nada ao redor importasse. Como se ela… não importasse. Mas importava. Ela sentia. --- Romenio estava ao lado dela no banco de trás. Perto demais. Calado demais. Os olhos presos nela desde o momento em que entraram no carro. Não era um olhar normal. Era como se ele estivesse… analisando. Decorando. Marcando. Carla desviou o olhar, desconfortável. — Por favor… — ela sussurrou, levando a mão ao rosto. — Não me machuca… eu não fiz nada… eu sou só uma garota comum… Nada. Nenhuma resposta. Só o som do motor… e o peso daquele silêncio sufocante. Ela encostou a cabeça no vidro, tentando segurar o choro. Mas o medo já estava ali. Crescendo. Tomando tudo. --- Quando o carro finalmente parou, Carla ergueu o olhar. E o coração falhou. Aquilo não era uma casa. Era uma fortaleza. Grande. Isolada. Fria. Homens armados se aproximaram imediatamente. Ela puxou o ar, assustada, o corpo inteiro travando. — Abre a porta pra ela. — a voz de Brandão foi direta. Sem emoção. A porta foi aberta. E ali… não existia mais volta. --- Carla saiu devagar, as pernas quase falhando. Romenio saiu logo depois. E então… aconteceu. Brandão segurou uma de suas mãos. Romenio segurou a outra. Ela ficou no meio dos dois. Pequena. Frágil. Cercada. Dominada. --- Ela tentou puxar a mão. Não conseguiu. Eles começaram a andar. E ela foi obrigada a acompanhar. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Cada segundo mais distante da vida que ela tinha. --- Entraram na casa. Subiram as escadas. Silêncio. Só o som dos passos ecoando. Até o quarto principal. Grande. Luxuoso. Mas sufocante. --- — Senta. — Brandão ordenou. Ela obedeceu. Não por escolha. Mas porque o corpo já não respondia direito. — O que tá acontecendo comigo? — a voz dela saiu desesperada. — O que tá acontecendo?! Brandão a encarou. Frio. Decidido. — A partir de hoje… essa é a sua casa. O ar pareceu sumir. — E você… — ele continuou, sem desviar o olhar — é nossa. --- Carla sentiu o mundo girar. — Como assim? — ela balançou a cabeça, confusa. — Eu… eu nem conheço vocês… eu tenho uma vida… eu— Romenio deu um passo à frente, interrompendo. — Tinha. — a voz dele saiu baixa, firme. — Sua vida agora é aqui. Ela levantou de repente. — Não! — o desespero tomou conta. — Eu não quero ficar aqui! Eu não quero! Me deixa ir! O silêncio que veio depois foi pior que qualquer resposta. --- Brandão se aproximou. Devagar. Seguro. Ele levou a mão até o rosto dela. Carla tremeu imediatamente. — Por favor… — ela sussurrou. — Não me machuca… O toque dele não foi agressivo. Mas também não foi gentil. Foi… firme. Controlador. Como se estivesse testando até onde podia ir. — Você já foi muito machucada lá fora… não foi? — ele disse baixo. Ela não respondeu. Mas o silêncio dela disse tudo. --- Romenio se aproximou por trás. As mãos dele pousaram nos ombros dela. Pesadas. Quentes. Impossíveis de ignorar. Carla fechou os olhos, o corpo rígido. — Relaxa… — a voz dele veio próxima ao ouvido dela, quase um sussurro — ninguém aqui vai tocar em você sem que você queira… Ela abriu os olhos, confusa… descrente… E então ele completou: — Mas daqui a um tempo… — um leve riso escapou — você vai implorar por isso. --- — Nunca. — ela respondeu na mesma hora, firme, mesmo tremendo. Os dois trocaram um olhar. E riram. Baixo. Perigoso. --- — A gente gosta quando dizem isso. — Romenio murmurou. Brandão inclinou levemente a cabeça, observando ela como se já soubesse o final daquela história. — Porque no final… — ele disse, calmo — todos mudam. --- Carla engoliu seco. O medo ainda estava ali. Forte. Mas, pela primeira vez… não era só medo. Era a sensação de que… aquilo estava só começando.
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