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Marco
A pergunta não é se. É quando.
Porque uma bomba-relógio sempre acaba explodindo.
Analisei o salão lotado, mantendo um registro mental de todos os presentes. Quase todas as pessoas perigosas que eu conhecia haviam chegado, e era apenas uma questão de tempo até que uma delas fizesse um movimento fatal.
A família Falcone realizava um leilão anual de carros na nossa concessionária em Nova York, todo outono. Meu pai começou a tradição há uma década, mas esse ano o evento não me agradava. Algo estava errado.
O cronômetro da bomba figurativa na minha cabeça acelerava. O pior era não saber onde a explosão começaria — quais circunstâncias cairiam sobre nós e quem seriam os nomes envolvidos.
Como diabos eu descobriria qual fio cortar para desarmar uma situação que ainda nem havia se revelado? Mas só porque eu não sabia onde estava o problema, não significava que ele não existia. Isso era certo.
Com meu pai escondido e uma guerra territorial prestes a estourar entre as famílias mais importantes, eu deveria ter cancelado o evento. Mas fui arrogante demais para isso.
Esse leilão sempre foi ótimo para os negócios. Nos dias seguintes, as vendas explodiriam — todos os que não conseguissem arrematar um carro ali certamente voltariam para comprar um novo. Egos inflados costumam carregar carteiras cheias.
Tic. Tac. Tic. Tac.
Do patamar superior, observei o showroom que abrigava os carros de luxo que seriam leiloados em benefício de uma instituição de caridade. Nenhum dos homens ali fingindo ser cidadãos exemplares era confiável.
Normalmente eu só comparecia por obrigação, mas dessa vez eu estava ali por uma missão: descobrir quem havia obrigado meu pai a fugir… e por quê.
Meu irmão, Matteo, subiu as escadas para me encontrar.
— Você poderia parar de me encarar lá de cima como um guarda armado e descer? — ele murmurou. — Misture-se. Aquele Porsche de edição limitada vai custar uma fortuna, e você precisa facilitar a venda.
— Você acha que eu me importo com o Porsche? — virei o resto da minha vodca, deixando o líquido suave repousar na minha boca antes de engolir. — Tenho coisas mais importantes para resolver.
— Você não vai trazer o velho para casa hoje à noite. E ele gostaria que esse evento fosse um sucesso.
Ele tinha razão. A renda do leilão dessa noite iria para uma instituição de caridade que nossa mãe, já falecida, adorava. Nosso pai fazia questão de manter essa tradição. Mas isso não diminuía meu incômodo.
Entreguei meu copo ao garçom e encarei meu irmão com um olhar cortante.
— Tudo bem. Eu cuido disso.
— Não podemos decepcioná-lo — Matteo disse.
— Você acha que eu não sei disso? — direcionei o olhar para a entrada da concessionária. — Mas há mais de uma maneira de cuidar de tudo.
Tic. Tac. Tic. Tac.
— Há representantes de cada família aqui essa noite — Matteo disse. — Essa pode ser nossa melhor chance de descobrir algo sobre ele.
— Dificilmente — retruquei, amargo. — Nenhum dos Esposito está aqui.
Meu maxilar se contraiu. Aquela família tinha causado mais do que incômodos desde o desaparecimento do meu pai — inclusive problemas no cais durante o transporte de uma grande carga.
— Isso não é verdade — Matteo rebateu.
Percorri o salão novamente. Ele só podia estar enganado. Eu jamais esqueceria Antônio Esposito . Ainda assim… se eu estava errado, eu não queria estar errado duas vezes.
— Todos estão representados, Marco — ele continuou. — A ex-esposa do Esposito está ali… e tenho certeza de que ela trouxe o talão de cheques.
Ele apontou para a mesa de itens de luxo sendo sorteados, enquanto aceitava outra vodca da garçonete. — Ele gastou uma fortuna para se livrar daquele casamento e trocá-la por um modelo mais novo.
Voltei meu olhar para a jovem que acompanhava Emília Esposito . Cabelos escuros e sedosos pelas costas curvas, maquiagem impecável realçando a pele morena. O vestido rosa curto, o xale de pele preta caído nos ombros… todos os homens a estavam devorando com os olhos.
Inclusive eu.
— Com quem a Emília está? — perguntei.
— A filha do Antônio. Mirella.
— O quê? — franzi o cenho. — A última vez que a vi, ela tinha duas tranças e aparelho. Agora ela parece… uma mulher com uma missão. Uma missão na qual eu adoraria me juntar. Tem certeza?
— Absoluta. Eu a vi pela cidade. — Matteo a observou feito um leão faminto. — Ela já é maior de idade, e todo mundo aqui sabe disso. Formou-se recentemente na NYU. Um ano antes, inclusive.
— Você parece conhecê-la bem demais.
Tomei outro gole, tentando abafar a sensação incômoda que crescia em mim.
— Eu me mantenho atualizado sobre o que acontece no nosso mundo — Matteo disse. — Você também deveria.
— Como vou me preocupar com o que os pirralhos da máfia fazem? — comecei a descer as escadas, com Matteo no meu encalço. — O leilão vai começar.
Talvez conviver com ele como irmão mais novo por tantos anos tivesse me deixado imune às suas provocações. Ou talvez eu realmente estivesse ocupado demais para me irritar. De qualquer forma, tudo o que ele sabia aprendeu comigo.
Para completar minha lista de irritações, Matteo ainda conseguia descer as escadas com a mesma arrogância elegante que eu e meu pai.
Ele pegou meu copo vazio e o deixou numa bandeja ao pé da escada.
— Vamos lá cumprimentar Emília e a filha dela.
— Por quê?
— Porque aquela gatinha sexy está olhando para você, e eu quero ver onde isso vai dar.
— Não vai dar em lugar nenhum. — Apontei para ele. — Ela é a princesa da máfia de uma família rival.
Antônio não era confiável. E, por padrão, a filha dele também não.
— Como se isso fosse te impedir de uma boa transa.
— Eu consigo uma boa transa com alguém menos complicada.
— Talvez. Mas onde estaria a graça nisso?
— Não tenho tempo para isso — murmurei, acenando para os dois homens que avaliavam o Porsche. — Quem levar aquele carro será o grande vencedor desta noite.
— Eu não saio daqui sem ele — disse Carmine Raspolli, um dos mafiosos mais temidos de antigamente. Já aposentado, havia passado seu território para meu pai anos atrás.
— Viu? — falei a Matteo. — É nisso que eu preciso focar.
— Que bom, porque Emília e a belíssima filha dela estão vindo direto para cá. Acho que vou ter que entreter a pequena Mirella.
Emília parou diante de nós como se estivéssemos sendo avaliados para o próprio leilão.
— Ora, se não são os irmãos Falcone. E já adultos.
— Sra. Esposito — Matteo beijou sua bochecha rechonchuda. — Que bom que veio.
— Matteo, querido, me chame de Emília. — Ela abanou a mão com desdém. — Não quero ficar com esse sobrenome nem por mais um segundo.
Como se alguém algum dia fosse vê-la como algo além de a esposa de Antônio .
— Marco. — O olhar de Emília pousou sobre o meu. — Quanto tempo.
— Tenho estado ocupado. — Inclinei-me e beijei suas duas bochechas. — Que bom que você e sua filha puderam vir essa noite.
Assenti para Mirella. Matteo tinha razão: ela estava me encarando. E, se fosse qualquer outra pessoa e não a filha de Antônio , eu poderia ter considerado.
— Você se lembra da minha filha? — perguntou Emília . — Não é perfeita?
— Mãe… — Mirella revirou os olhos. — Precisava mesmo?
Ergui uma sobrancelha. Eu a chamei de pirralha em pensamento apenas por provocação, mas ouvir aquele tom atrevido sendo usado contra a mãe… Eu adoraria que ela me respondesse assim. Queria ver até onde iria.
Por que ela tinha que ser a filha de Antônio?
Ela deve ter percebido meu olhar intenso, porque sua postura mudou — da curiosidade para a provocação.
Eu senti também. E no instante em que o pensamento surgiu, forcei uma carranca. Ela imediatamente desviou o olhar para os próprios pés.
Isso só me excitou ainda mais.
Matteo cutucou meu braço.
— Não acha também? — Hm? — Droga. Eu não tinha ouvido nada do que ele disse. — Perdão, vi alguém se inclinando sobre as cordas de um dos carros. O que você estava dizendo?
— Que a filha da Emília é perfeita —, repetiu Matteo, sem convicção.
Eu não duvidaria que Matteo estivesse inventando isso só para me irritar.
— Você acha mesmo? — Mirella sorriu para ele. Ela me lançou um sorriso rápido, provocador, antes de voltar ao meu irmão. — Obrigada.
Ela estava me provocando? Tentando me deixar com ciúmes?
Corajosa.
Se Matteo caísse naquele sorriso, eu arrancaria os dentes dele.
— Eu não te vi no clube nas últimas semanas —, disse ela a Matteo.
— Estive ocupado com a concessionária —, ele respondeu, pegando duas taças da bandeja de um garçom. — Talvez eu apareça a semana que vem.
— Que clube? — perguntei.
— Por quê? Vai querer ir com a gente? — Matteo zombou.
Fitei-o com dureza. — Não, Matteo. Só quero a resposta.
— Um clube exclusivo em Manhattan —, disse ele. — Achei que já tivesse te contado.
— Não contou. — Recusei a taça de champanhe com um gesto.
— Ah, é um lugar incrível! — Mirella comentou com um entusiasmo borbulhante, tomando um gole da bebida e pressionando os lábios vermelhos no aro da taça. — Mas talvez não seja muito o seu estilo.
Ela estava me testando.
Sem esconder intenção alguma, deixei meu olhar cair na boca dela.
— Que falta de educação. Sua mãe não lhe ensinou boas maneiras?
Antes que ela respondesse, Emília beliscou o braço da filha. — Mostre respeito, Mirella!
Ela soltou um gritinho.
— Mãe!
Ri baixo.
Quando Mirella voltou a me encarar, estava mais controlada — mas só um pouco.
— Desculpe —, disse, com sarcasmo escapando apesar do tom gentil. — Tenho certeza de que você adoraria o lugar. Talvez até encontrasse algo… interessante lá.
— Talvez ele encontre algo interessante aqui. — Matteo brindou no ar.
— Como eu te disse, existem maneiras menos complicadas de conseguir o que quero.
Virei-me para ir embora, mas Matteo segurou meu braço.
— Espera. Preciso te perguntar uma coisa depois.
Emília olhou entre nós.
— Oh, não fiquem presos por minha causa. Já vou sair, encontrar umas amigas para beber.
— Eu vou com você —, disse Mirella, virando o champanhe de uma vez. Empurrou a taça para mim como se eu fosse um funcionário. — Foi bom te ver, Marco.
— Ir com sua mãe? Besteira —, disse Emília . — Fique aqui. Seu pai vai vir falar com você mais tarde, e eu prefiro ir embora antes disso.
— Não quero você indo sozinha —, disse Mirella.
— Vou ficar bem. — Emília jogou o cabelo loiro para trás. — Além disso, você precisa esperar para ver se ganha alguma das cestas. Você colocou meia dúzia de bilhetes naquela da Gucci.
O rosto de Mirella corou.
— Então você viu!
— Se chamarem seu nome, pode ficar com a bolsa. Antônio me paga uma pensão ótima. Só coloquei bilhetes porque é por uma causa importante. — Ela olhou para mim. — Sua mãe adorava esse projeto. Ajudar mães jovens a se reerguerem… é essencial.
— Obrigado —, respondi. — Meu pai apreciaria saber disso.
— Onde ele está? — Mirella perguntou. — Não o vi hoje.
Seu pai provavelmente o expulsou da cidade, pirralha.
— Viajando a negócios.
— Ah. — Ela deu de ombros. — Estranho ele faltar num evento tão importante.
O que você sabe sobre a minha família?
Em dez segundos, passei de querer t*****r com ela a querer descobrir tudo o que ela escondia.
Tic tac. Tic tac.
Talvez eu fosse a explosão daquela noite.
— Estou indo. Não se metam em encrenca —, disse Emília, abraçando a filha. Ela piscou para mim. — Encrenca sempre acha a Mirella.
— Aposto que Marco entende tudo sobre problemas —, disse Mirella, beijando a bochecha da mãe. — Deixe o Michael te levar. —
— Vou pedir um carro por aplicativo —, insistiu Emília.
— Ele vai me levar pra casa depois —, argumentou Mirella. — Eu insisto: vá com o Michael.
— Não quero que você fique sozinha —, disse Emília, olhando para mim. — A não ser que… você cuide dela.
Que diabos?
— Meu irmão adoraria —, disse Matteo, oferecendo o braço a Emília . — Deixe-me acompanhar a senhora até o carro.
Claro que só o Matteo conseguiria me provocar e ser útil ao mesmo tempo.
— Que cavalheiro. Igual ao seu pai. — Emília aceitou o braço dele. — Te amo, querida.
— Te amo —, respondeu Mirella.
Ela então olhou para mim.
— Parece que você vai ter que me aturar.
— Infelizmente. — Deixei a taça dela numa mesa atrás de mim. — Pode circular, mas não cause problemas. Vou ficar de olho enquanto verifico algumas coisas do leilão.
— Não preciso que fique de olho em mim. — Ela passou o polegar pelo lábio inferior. Meu olhar desceu sozinho. — Vou pegar outra bebida.
Tentei segurá-la pelo braço quando ela virou. Os homens ali notariam que ela estava sem guarda-costas. Mesmo me irritando, eu não deixaria algo acontecer com ela.
Pelo menos não antes de descobrir o que ela sabia.
— Você não vai sair daqui bêbada como se estivesse num daqueles clubes que frequenta.
— Está me dizendo o que fazer?
— E se eu estiver? — Nesse instante, odiei o fato de ela ser filha de Antônio . Eu a colocaria de joelhos e a puniria na frente de todos por esse tom atrevido. — Você obedeceria?
Ela riu na minha cara.
— Você? Nem morta.
Oh, alguém ia se arrepender. Com certeza.
— Vou pegar aquela bebida. — Ela olhou para minha mão ainda no braço dela. — Pode me soltar.
— Agora você está tentando me dizer o que fazer? — Apertei mais forte. — Alguém precisa te ensinar a ter respeito. Do jeito difícil.
Seus olhos se arregalaram por um segundo, depois ela sorriu.
Por que ela não tinha medo de mim?
Soltei seu braço e puxei seu xale.
— Você não deveria usar pele. É desumano.
— E você não deveria lavar dinheiro —, retrucou. — É ilegal.
Ela deu outra olhada ao redor. — E, para constar? É falsa.
Falsa ou não, ficaria melhor no chão do meu quarto.
— De qualquer forma, acho que você pode me vigiar —, disse ela, passando a mão pelo xale e deixando-o cair do ombro. Olhou para cima com uma inocência tão falsa quanto o casaco. — Vamos pedir uma bebida?
— Depois de você. — Fiz sinal para o bar.
Eu queria ver a b***a que planejava esquentar mais tarde.
Enquanto eu a seguia, tentei me lembrar: a filha de Antônio . A filha de Antônio . A filha de Antônio .
Tudo isso era uma imensa dose de não.
— Tudo isso é seu? — ela perguntou.
— Da minha família, sim.
— Esse é meu favorito. — Ela praticamente saltou até o Corvette preto de cento e cinquenta mil dólares. Seu perfume de morango ficou no ar. — Tem em rosa?
— Rosa? — Decepção. Mas combinava com ela.
— Sim, como meu vestido. — Ela passou a mão pela barriga. — Fúcsia, na verdade.
— Posso mandar personalizar.
— Legal. — Ela espiou dentro. — É elegante.
— Entre. — Abri a porta. — Vamos ver como você fica ao volante.
— Show. — Ela deslizou para o assento do motorista. — Meu pai prometeu um carro quando eu me formasse, mas viajei no verão e nunca fomos comprar.
— Uma pena, princesa. — E ela realmente estava linda naquele carro.
— Quando meu pai chegar, posso dizer que quero um desses. Em fúcsia. — Ela acariciou o painel. — Você pode fazer a venda.
— Tenho gente pra isso. — Eu jamais venderia um carro para Antônio Esposito .
— E se eu quiser que seja você?
— Nem sempre conseguimos tudo que queremos.
Ela arqueou a sobrancelha. — O que você quer e não pode ter? —Você.
A ajudei a sair, aproveitando o vislumbre das coxas.
— Não é da sua conta.
Ela virou o cabelo. — Eu sempre consigo o que quero. —
— Isso é porque ninguém teve coragem de te colocar no lugar. —
— Meu lugar? — Ela apoiou a mão no quadril. — O que isso significa?
— Significa que menininhas mimadas com postura petulante não deveriam provocar homens que não podem controlar.
— Acha que você me assusta? — Ela riu, rouca, provocante. — Eu sei que você não aguenta comigo.
— Você é sempre tão irritante?
— Isso? — Encostei-me ao carro. — Isso não é nada.
— Ninguém consegue me colocar no meu lugar —, disse ela, cada palavra um desafio. Sem hesitar, ajustou minha gravata e pousou as mãos no meu peito, subindo pelos meus ombros. — Estou entediada dessa conversa. Te encontro depois.
Quando ela virou para ir, agarrei sua mão e a puxei de volta.
— Você é muito atrevida —, disse ela. — Felizmente estou acostumada com tipos como você.
— Tipos como eu? — Ri. — Homens como eu não ficam passeando pelo campus da NYU.
— Como sabe que eu estive lá?
Graças ao Matteo.
— Eu sou bom no que faço.
— Não é seu trabalho vender carros?
— Entre outras coisas.
— Vou te matar! — gritou um homem na entrada.
Matteo e nossos seguranças correram até lá. Levei a mão à arma.
Mirella correu para a frente do Corvette no mesmo instante em que os tiros ecoaram pelo showroom.
— Droga. — Sacando a arma, me movi.
As pessoas se atiraram no chão, protegendo-se atrás dos carros.
No mesmo segundo em que levantei a pistola, um dos atiradores mirou — colocando Mirella no fogo cruzado.