Pré-visualização gratuita A Mulher que Nunca Ficava
Penélope nunca dormia no mesmo lugar duas noites seguidas.
Não por medo. Por método.
O quarto do hotel ainda cheirava a sexo caro e perfume masculino quando ela acordou. Lençóis amassados, cortinas pesadas filtrando a luz cinza da manhã, uma garrafa de uísque quase vazia sobre a mesa. O homem ao seu lado respirava fundo, satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar algo que não sabia que já havia perdido.
Ela observou por alguns segundos. Sempre observava.
Homens dormindo pareciam inofensivos demais. Quase ridículos.
Penélope deslizou para fora da cama sem fazer barulho. Pegou o celular dele primeiro — senha fácil, aniversário da mãe. Nunca falhava. Transferiu o dinheiro com a mesma calma de quem pede café. Depois foi até a bolsa dele, checou cartões, fotos, mensagens. Tudo confirmado. Casado. Rico. Descuidado.
Vestiu-se devagar. Não porque queria provocar. Porque não tinha pressa.
Antes de sair, deixou um beijo no rosto dele. Um gesto inútil, mas elegante. Ela gostava de sair como entrou: deixando a impressão errada.
No corredor do hotel, ninguém a olhou duas vezes. Era isso que Penélope fazia melhor. Existia sem marcar presença. Entrava, levava o que queria, sumia.
No elevador, checou o saldo mais uma vez. Sorriu de lado.
— Fácil demais — murmurou.
Sempre era.
A primeira regra de Penélope era simples: não se envolver.
A segunda: não repetir.
A terceira: não subestimar o apego masculino.
Ela já tinha quebrado a terceira antes. Uma ou duas vezes. Nunca dava em nada sério. Um homem irritado, outro humilhado, alguns e-mails raivosos. Nada que um bloqueio e uma mudança de cidade não resolvessem.
Até Marcus Hale.
Ela o conheceu em um bar silencioso demais para gente honesta. Ele não tentou impressioná-la. Não falou de dinheiro. Não ofereceu bebida cara. Apenas ouviu. Isso deveria ter sido o alerta.
Homens que escutam demais sempre querem algo.
Marcus foi paciente. Gentil. Calculado. Não se apaixonou rápido. Não prometeu nada. E foi exatamente isso que fez Penélope baixar a guarda.
O erro não foi roubá-lo.
O erro foi deixá-lo acreditar que tinha sido diferente.
Quando ela sumiu, levou mais do que dinheiro. Levou o ego dele. E alguns homens não sobrevivem a isso intactos.
As mensagens começaram dias depois. Primeiro educadas. Depois insistentes. Depois… estranhas.
Você esqueceu algo.
Ainda estou pensando em você.
Não gostei de como terminou.
Penélope bloqueou. Mudou de número. Mudou de cidade.
Mas Marcus não desapareceu.
Ele esperou.
Naquela noite, chovia. Não uma chuva bonita de cinema. Chuva grossa, suja, que escorria pelos vidros e tornava a estrada um borrão. Penélope dirigia rápido demais, como sempre fazia quando o silêncio dentro do carro começava a falar.
O celular vibrou no console.
Número desconhecido.
Ela ignorou.
Vibrou de novo.
Penélope respirou fundo e atendeu, mais por irritação do que curiosidade.
— Alô?
O silêncio do outro lado foi longo demais.
— Você demorou — disse a voz masculina, baixa, controlada.
O estômago dela gelou.
— Quem é?
Uma pausa curta. Calculada.
— Achei que fosse reconhecer.
Ela desligou.
O coração bateu forte, mas não de medo. De raiva. Ninguém tinha esse direito. Ninguém.
A estrada parecia mais estreita. A chuva mais pesada. Penélope aumentou a velocidade, os pneus cortando a água com dificuldade.
O celular vibrou de novo. Mensagem.
Não adianta correr.
Ela riu. Um riso seco, nervoso.
— i****a — sussurrou.
Mas riu sozinha.
No retrovisor, por um segundo, teve a impressão de ver faróis. Distantes. Parados. Observando. Piscou, e não havia nada.
O problema de fugir rápido demais é que o mundo não acompanha.
A curva surgiu do nada.
Não havia placa. Não havia aviso. Apenas o asfalto desaparecendo sob a chuva, o volante puxando para o lado, o corpo sendo jogado contra o cinto.
O impacto foi violento. Metal gritou. Vidro estourou. A dor veio em flashes — ombro, cabeça, costelas. Depois, nada.
Penélope acordou com cheiro de madeira úmida e algo mais… ferroso.
Abriu os olhos devagar.
O teto não era de hospital. Nem de hotel.
Era alto. Escuro. Antigo.
Tentou se mover. O corpo respondeu com dor, mas respondeu. Isso a tranquilizou mais do que deveria.
— Finalmente.
A voz veio do canto do quarto.
Penélope virou o rosto.
Ele estava encostado na parede, braços cruzados, postura relaxada demais para alguém que acabara de ver uma estranha acordar em sua casa. Alto. Ombros largos. Rosto fechado. Olhos escuros que não demonstravam curiosidade — apenas confirmação.
Como se ele estivesse esperando.
— Onde eu estou? — perguntou, a voz rouca.
— No lugar certo — ele respondeu.
Ela tentou sentar. Ele não se mexeu para ajudar.
— Quem é você?
Um canto da boca dele se ergueu. Não era um sorriso. Era memória.
— Demorou para chegar — disse. — Pensei que teria que ir atrás de você, Penélope.
O nome dela no tom dele não soou como pergunta. Soou como sentença.
O sangue gelou.
— Você me conhece? — ela perguntou, tentando manter a voz firme.
Ele a observou por alguns segundos. Longos demais.
— Mais do que você gostaria.
Virou-se e saiu do quarto, deixando a porta aberta.
Penélope ficou sozinha com o silêncio pesado, o coração batendo forte demais e a certeza incômoda de que, pela primeira vez, ela não tinha entrado em um lugar por escolha.
E que talvez…
Talvez nunca mais fosse embora.
Aqui vai a continuação, para fechar o capítulo com força — chegando ao impacto que você quer.
O quarto cheirava a ferro, remédio barato e algo antigo. Não era hospital. Penélope percebeu isso antes mesmo de abrir os olhos.
Hospitais tinham sons: passos, vozes, monitores. Ali havia apenas um silêncio denso, pesado, como se o ar estivesse cansado de existir.
Ela tentou se mexer. O corpo respondeu com dor. Não uma dor limpa, localizada — era um protesto geral, como se cada osso lembrasse o acidente de um jeito diferente. O vidro. O impacto. O volante girando sem controle. A sensação de cair sem sair do lugar.
Respirou fundo. Erro.
O ar entrou frio demais, cortante. Ela engoliu em seco e abriu os olhos de uma vez.
Teto de madeira escura. Vigas grossas. Nenhuma lâmpada acesa, só a luz opaca que entrava por uma janela estreita, coberta por uma cortina grossa demais para o dia que parecia existir lá fora.
Ela piscou, tentando organizar as imagens.
A cama não era dela. Grande demais. Lençóis ásperos, cheiro masculino. Forte. Não perfume — algo mais cru. Terra molhada, fumaça, couro.
Penélope levou a mão ao próprio corpo. Vestia uma camiseta larga que não reconhecia. Debaixo dela, nada. O coração disparou, automático. Mas não havia dor nova, nem sinais de violência imediata.
— Merda… — murmurou, a voz rouca.
Tentou se sentar. Conseguiu, com esforço. O quarto se revelou pouco a pouco: móveis rústicos, poucos objetos, nenhum detalhe supérfluo. Não havia fotos, quadros, nada que contasse uma história.
Era um lugar de alguém que não queria ser conhecido.
E então ela sentiu.
Não ouviu passos. Não ouviu porta. Apenas sentiu.
A presença ocupou o espaço antes do som.
Penélope virou o rosto devagar.
Ele estava encostado no batente da porta.
Alto. Largo. Imóvel.
Usava uma camisa escura, mangas dobradas até os antebraços. Mãos grandes. Nenhum gesto desnecessário. O rosto era bonito de um jeito perigoso — traços duros, mandíbula marcada, boca que parecia não sorrir por hábito.
Mas o olhar…
O olhar não a avaliava como homem avalia mulher.
Era como se ele estivesse confirmando algo que já sabia.
O medo subiu pela primeira vez sem precisar de esforço.
— Demorou — ele disse.
A voz era baixa, grave, sem pressa. Não havia curiosidade. Nem alívio.
Penélope engoliu em seco.
— Onde eu estou? — perguntou, mantendo o tom firme por reflexo.
Ele inclinou a cabeça, como se aquela pergunta fosse irrelevante.
— Pensei que fosse necessário ir atrás de você, Penélope.
O nome caiu no quarto como uma lâmina.
O ar ficou mais pesado.
Ela sentiu o corpo reagir antes da mente.
— Você me conhece? — perguntou, devagar agora. — De onde?
Ele sorriu.
Não foi um sorriso bonito. Foi curto. Frio. Sem humor.
— Descansa — respondeu. — Você ainda não está pronta.
E saiu.
Sem explicação. Sem fechar a porta com força. Sem olhar para trás.
Penélope ficou ali, sentada na cama, o coração batendo alto demais para um lugar tão silencioso.
Ela se levantou.
Cada passo doeu, mas a curiosidade venceu. Caminhou até a porta, apoiando-se na parede. O corredor era estreito, de madeira antiga. No fim, uma porta aberta deixava entrar uma luz cinzenta.
Ela avançou.
O que viu fez seu estômago revirar.
Neblina.
Não uma névoa comum — era espessa, viva, como se engolisse o mundo. Árvores enormes surgiam dela como sombras antigas, troncos grossos, raízes retorcidas. Nenhum som de estrada. Nenhum sinal de cidade.
Nada.
— Onde diabos eu caí… — sussurrou.
Não havia carro. Não havia movimento. Apenas aquele lugar isolado demais para ser acidente.
Ela voltou-se, procurando o homem.
— Ei! — chamou. — Quem é você?
Silêncio.
Então, atrás dela:
— Você escolheu o homem errado para enganar.
Penélope girou rápido demais e quase perdeu o equilíbrio. Ele estava ali de novo. Perto. Próximo o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele contrastando com o frio da neblina.
— Eu não sei do que você está falando — respondeu, automática.
Ele se aproximou mais um passo. Não a tocou.
Não precisou.
— Meu irmão acreditou em você — continuou, a voz sem emoção. — Apostou tudo. Dinheiro. Nome. Orgulho.
Ela sentiu o impacto antes da memória.
O rosto dele. Um entre tantos. Um que chorou. Um que prometeu. Um que implorou.
— Eu não obriguei ninguém — disse, tentando manter o controle.
— Não — ele concordou. — Você só fez o que sempre faz.
O silêncio se estendeu entre eles, carregado.
— Onde eu estou? — repetiu, mais baixo.
Ele a observou por longos segundos. O olhar não era de desejo. Era de decisão.
— No lugar errado — respondeu. — Ou no certo. Depende de quanto você vai sobreviver a si mesma.
Penélope sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Ela já fugira de homens violentos. Psicopatas. Criminosos. Já enganara gente perigosa.
Mas nenhum deles a olhou como ele olhava agora.
Como alguém que não tinha pressa.
Como alguém que esperou muito tempo.
E, pela primeira vez, Penélope Charmosa entendeu:
Ela não era a caçadora ali.
E aquela neblina…
não escondia o perigo.
Ela era o perigo.