O cheiro de perfume caro nunca foi sobre sedução.
Era sobre guerra.
Penélope borrifou mais uma vez no pescoço, atrás da orelha, no pulso. Um aroma doce o suficiente para hipnotizar. Forte o bastante para marcar território. Ela não usava perfume para agradar homem. Usava para entrar na memória deles.
E memória era o que os fazia voltar.
O apartamento que ela ocupava naquela semana tinha vista para o mar. Vidro do chão ao teto. Sofá de couro branco. Uma adega que ela não pagou. Nada ali era dela. Nunca era.
Ela não ficava.
— Você nunca sente culpa? — perguntou Rafael, da cozinha, com uma taça de vinho na mão.
Ela sorriu para o próprio reflexo no espelho.
Culpa.
Homens sempre perguntavam isso quando já estavam apaixonados.
— Culpa de quê?
Ele se aproximou, abraçou-a por trás. Cheiro de colônia importada, ansiedade e medo.
— De brincar comigo assim.
Ela virou devagar, tocou o rosto dele.
Rafael tinha trinta e oito anos. Empresário do ramo imobiliário. Recém-divorciado. Solitário. Fácil.
— Eu nunca brinquei com você.
Mentira dita olhando nos olhos.
Ele acreditou.
Sempre acreditavam.
Penélope não se envolvia com homens burros. Se envolvia com homens carentes. Era diferente. Carência era uma ferida aberta. Ela apenas tocava onde já doía.
— Você vai ficar? — ele perguntou.
Ela deslizou a mão pelo peito dele.
— Eu nunca prometi ficar.
Outra verdade dita como se fosse carinho.
Rafael respirou fundo. Ela viu o momento exato em que ele decidiu ignorar o alerta na própria cabeça.
Era ali que ela ganhava.
Três semanas depois, ele transferiu o dinheiro.
Duas empresas no nome dela.
Um carro importado na garagem.
Um investimento “temporário” que nunca voltou.
Ela saiu antes que a pergunta surgisse.
Saiu antes da cobrança.
Saiu antes da raiva.
Mas não saiu antes do desespero.
O telefone começou a tocar no terceiro dia.
Ela ignorou.
No quarto dia, ele apareceu na portaria do prédio onde ela já não estava mais.
No quinto, começou a ameaçar.
No sexto, chorou em áudio.
No sétimo, prometeu acabar com a própria vida.
Ela apagou as mensagens.
Homens sempre dramatizavam quando percebiam que tinham sido usados. Mas poucos tinham coragem real de fazer alguma coisa.
Rafael não era diferente.
Ou pelo menos ela achou que não fosse.
A notícia saiu numa terça-feira chuvosa.
“Empresário é encontrado morto em apartamento de luxo.”
Suicídio.
Endividamento recente.
Problemas emocionais.
Nenhuma menção ao nome dela.
Ela leu a matéria inteira sentada num café discreto, usando óculos escuros e outro nome.
Não sentiu nada.
Nada.
Era assim que sobrevivia.
Ela nunca puxava o gatilho. Nunca ameaçava. Nunca forçava. Só oferecia uma ilusão que eles queriam comprar.
Se eles desabavam depois, não era culpa dela.
Era?
Ela fechou o celular e tomou o último gole de café.
Não tremeu.
Mas naquela noite sonhou com o olhar dele.
E foi a primeira vez que o perfume pareceu pesado demais.
Algumas semanas depois, surgiu o próximo alvo.
Ou melhor, o próximo convite.
Leonardo Azevedo.
Herdeiro de um conglomerado industrial.
Trinta e dois anos.
Solteiro.
Recluso.
Dinheiro antigo.
Dinheiro que não acabava.
Ela viu a foto numa revista de negócios e sentiu algo diferente.
Ele não sorria na imagem.
O olhar era frio.
Quase hostil.
Ela gostou.
Desafio era sempre mais excitante.
— Esse não é como os outros — avisou Clara, a única pessoa que sabia o que Penélope realmente fazia.
Clara não participava. Só observava. E às vezes limpava os rastros.
— Nenhum é — Penélope respondeu.
— Esse é.
Ela ignorou.
Porque ignorar sempre foi sua maior habilidade.
O primeiro encontro foi num evento fechado para investidores.
Ela não foi convidada oficialmente.
Nunca precisava ser.
Vestido preto, f***a discreta, salto fino. Perfume novo.
Ela o viu antes que ele a visse.
Leonardo estava sozinho perto do bar, sem conversar com ninguém. As pessoas o olhavam com respeito e cautela.
Ele não parecia interessado em nada.
Nem em ninguém.
Até que olhou para ela.
E não desviou.
Penélope sustentou o olhar.
Um segundo.
Dois.
Três.
Nenhum sorriso.
Nenhuma aproximação.
Ele apenas observou.
Como um predador medindo distância.
Ela se aproximou primeiro.
— Você parece entediado.
Ele analisou o rosto dela antes de responder.
— Eu estou.
Voz grave. Controlada.
— Eventos assim são sempre iguais.
— Então por que veio?
— Porque algumas coisas exigem presença.
Ela inclinou a cabeça.
— E você é uma dessas coisas?
Ele quase sorriu.
Quase.
— Talvez.
Silêncio.
Não havia pressa nele.
Não havia ansiedade.
Ela sentiu algo que nunca sentia: dificuldade.
— Eu sou Penélope.
— Eu sei.
Ela piscou.
— Sabe?
— Você chama atenção.
Resposta vaga.
Mas o olhar dele era direto demais.
Desconfortável demais.
Como se ele não estivesse interessado em possuí-la.
Como se estivesse avaliando.
Ela mudou a estratégia.
Aproximou-se um pouco mais.
— E você? Vai me dizer seu nome ou prefere continuar misterioso?
— Leonardo.
Ela estendeu a mão.
Ele não apertou.
Apenas observou os dedos dela como se estivesse vendo algo além da pele.
— Você sempre escolhe homens assim? — ele perguntou.
— Assim como?
— Solitários.
Ela sorriu.
— Eu gosto de homens interessantes.
— Interessante é uma palavra perigosa.
— Por quê?
— Porque geralmente significa problemático.
Ela riu.
Mas por dentro sentiu um arrepio.
Ele não estava flertando.
Estava estudando.
Naquela noite, ele não pediu telefone.
Não convidou para sair.
Não fez promessas.
E mesmo assim, no dia seguinte, flores chegaram ao hotel onde ela estava hospedada.
Sem cartão.
Sem assinatura.
Só uma frase escrita à mão:
“Eu sei exatamente quem você é.”
Ela não gostou.
Mas também não recuou.
Desafio.
Sempre o desafio.
Ela ligou para Clara.
— Ele sabe alguma coisa?
— Quem?
— Leonardo Azevedo.
Silêncio do outro lado.
— Por que está perguntando?
— Intuição.
Clara respirou fundo.
— Eu ouvi um boato.
— Que tipo de boato?
— Que o irmão dele morreu há alguns meses. Suicídio.
O coração dela falhou uma batida.
— E?
— Dizem que foi por causa de uma mulher.
O perfume pareceu sufocar.
— E você acha que sou eu?
— Eu não sei, Penélope. Mas você precisa checar.
Ela desligou.
O nome do irmão veio como um sussurro na memória.
Rafael Azevedo.
Ela levantou da cama devagar
Sentiu algo que raramente sentia.
Não era culpa.
Era medo.
Pela primeira vez, talvez tivesse escolhido o homem errado.
Ou talvez tivesse escolhido a família errada.
O telefone vibrou na mão dela.
Mensagem de número desconhecido.
“Você gosta de jogos, Penélope?”
Ela não respondeu.
Outra mensagem.
“Eu também.”
O ar do quarto ficou pesado.
“Mas eu nunca jogo para perder.”
Ela sentou na cama.
O olhar dele voltou à mente.
Frio.
Paciente.
Predador.
Ela finalmente entendeu.
Não era um alvo.
Era uma armadilha.
E talvez, pela primeira vez, não fosse a única caçadora na sala.
O telefone vibrou uma última vez.
“Prepare-se.”
Sem explicação.
Sem ameaça explícita.
Mas a promessa estava ali.
Vingança não era algo que se gritava.
Era algo que se fazia em silêncio.
E o silêncio dele era mais perigoso do que qualquer grito que ela já tivesse ouvido.
Penélope passou a língua pelos lábios secos.
O jogo tinha mudado.
E ela ainda não sabia as regras.
Mas sabia uma coisa:
Se Rafael realmente era irmão dele…
Ela não estava lidando com um homem ferido.
Estava lidando com um homem que não tinha nada a perder.
E homens assim não pedem.
Eles tomam.
A neblina começava a se fechar.
E, pela primeira vez, Penélope sentiu que talvez não conseguisse sair ilesa.